quinta-feira, 19 de agosto de 2010

BDpress #163: Angolapress sobre a BD em Angola + ALGUMAS COISAS SOBRE O JORNAL DO MANKIKO E A BD ANGOLANA



Começa amanhã o VII Festival Internacional de Banda Desenhada de Luanda – o Luanda Cartoon 2010. Fica aqui uma noticiazinha da Angop (Angolapress) publicada ontem, sobre o VII FIBDLUANDA 2010. Depois, valendo-me sobretudo do site (não actualizado desde 2007) de Sérgio Piçarra, que pode ser visitado AQUI e tem muita coisa interessante que poderia ser o embrião para uma História da Banda Desenhada e do Cartoon em Angola. O texto (Cartoongolando) a seguir ao da Angop, é de Sérgio Piçarra – no referido site “Mankiko, o Imbumbável” – escrevendo como se fosse a voz da revista Jornal do Mankiko, de que ele foi o grande mentor. Contactei Sérgio em 2005, se não me engano, enviei-lhe um BDjornal – nessa altura no 1º ano de vida – e ele enviou-me uma das revistas, a nº7, de que coloco mais abaixo todas as capas, uma ficha técnica e algumas imagens.

Claro que a actual geração angolana, como não podia deixar de ser, tem, penso eu, outras perspectivas sobre a Banda Desenhada e faremos os possíveis para aqui mostrar o que eles pensam. Mas é sempre bom recordar o que aconteceu antes.

Angop (Angolapress), 18-08-2010

Arte
BANDA DESENHADA É FEITA PARA TODAS AS IDADES

Luanda – Muitos adultos consideram a banda desenhada (BD) como algo que faz parte do mundo infantil, o que não corresponde à verdade, pois ela é feita para todas as idades, afirmou hoje, em Luanda, a cartoonista angolana Gabriela Freire.

Para a cartoonista, que falava à Angop, a BD é feita para atingir distintas idades, pelo que é fundamental na educação moral e cívica da sociedade.

“Tendo em conta que muitas vezes ver é mais fácil do que ler, hoje, através do desenho se pode transmitir vários temas de interesse para a comunidade, desde como lidar com o lixo, com as doenças e tanto mais”, asseverou.

Por este facto, disse, as pessoas devem dar maior relevância a esta arte, apoiando as iniciativas que os criadores nacionais têm estado a desenvolver em prol do desenvolvimento da mesma.

Apesar de ainda existirem dificuldades na promoção da arte de contar estórias por desenhos, o Festival Luanda Cartoon que se realiza anualmente em Luanda tem ajudado para que os fazedores desta criação possam ser conhecidos no país e fora.
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CARTOONGOLANDO

Tal como o país, o cartoon angolano ainda é muito jovem.

E tem uma terrível tendência para a satirização do tema político e social do momento. Mas...parece que nem sempre foi assim. Porque afinal, há história de cartoon em Angola antes da independência. Não sabiam? Pois é, nem eu! Mas vamos então aos dados.

Abordando a fase pós-independencia, de 1975 a 1990, temos três referências importantes:


- O Marimbondo, publicado na revista “O Semanário”, pelos anos de 76 a 79, da autoria de Rui Galhanas.
- O Kazukuteiro, publicado na mesma revista, no mesmo período, e assinado por V. Costa.
- O Zito Mabanga, publicado pelos anos 80, na também desaparecida revista “Novembro”, da autoria de Carlos Alberto.

Entretanto, bem antes destes, ou seja, ainda no período colonial, pelos anos 60 e 70 temos obra de alguns angolanos e luso-angolanos, dignos de destaque.

Um destes casos é, sem dúvida, Nando (português de nacionalidade, Nando veio para angola como militar nos anos 60, tendo-se tornado mais tarde colaborador da revista “Notícia” e posteriormente da “A Palavra”, publicadas na época, até 1975. Ficaram conhecidas as suas criações Zé da Fisga e Fatita, que saíam semanalmente no suplemento de humor “O Miau” e “O Lacrau” respectivamente. Não havendo muitos dados disponíveis sobre este autor, Nando terá regressado a Portugal por volta de 1975 e não há registos de que tenha continuado a sua actividade cartoonistica), que criou o conhecido Zé da Fisga, personagem de cartoon, publicado inicialmente na revista “Notícia” e posteriormente na revista “A Palavra”, com enorme sucesso junto do público.

Manuel Ribeiro, hoje ligado a um mundo que não tem nada a ver com o que fazia há mais de 30 anos, também deixou nessa altura a sua marca cartoonistica no “O Lacrau” suplemento de humor do semanário “A Palavra”, assinando alguns cartoons de respeito, onde se destaca a sua criação “Tito, o funcionário”.
Mas, mesmo ainda antes destes dois kotas (na altura putos, na casa dos vinte), temos a indicação de um certo Luís Kohl, também angolano, que terá cartonado para o “Província de Angola”, lá pelos idos anos 50, imaginem!

Até agora, desconsegui qualquer pista deste nosso camarada, mas dado que continuo as buscas, assim que tiver dicas sobre o madié, voltaremos a conversar.

BENDITOS ANOS 90

A década de 90 representou a fase mais marcante do cartoon e da banda desenhada angolana.
Nos anos 80, apenas o Filomeno Moreira – Meno, para os mais conhecidos – animou as páginas do Suplemento Infantil do Jornal de Angola, com ilustrações e bandas desenhadas para crianças, e um ou outro cartoon.

A 1 de Julho de 1990, eram lançados na baixa de luanda, os primeiros três álbuns da história da BD nacional.
“Massala, o Leopardo” de Lito Silva, “Os “Bucaneiros do KK” de Sérgio Piçarra, e “Fragmentos Angolanos” uma colectânea de BDs curtas onde Hugo Fernandes se junta aos dois autores supracitados.

Henrique Abranches dirigiu o desenho e o argumento destas três obras, que representaram o auge do esforço que este vinha mantendo como mestre destes então ainda muito jovens desenhadores.


Fragmentos Angolanos

OS CARTOONS ATACAM

Ainda nesse famoso ano de 1990, por altura do lançamento dos 3 primeiros álbuns, já os cartoons tinham começado a bombardear o Jornal de Angola, o único jornal diário que se publica até hoje no país. Manuel Dionísio, jornalista e então chefe de redacção deste jornal conta-se dentre os que incentivaram a publicação regular de cartoons.

O sucesso foi total, tanto que a União dos Escritores, pela mão do conhecido escritor e nacionalista angolano Luandino Vieira – o mesmo que publicou os 3 primeiros álbuns – recolheu alguns dos melhores cartoons publicados nesse jornal, da autoria dos jovens Sérgio Piçarra e Lito Silva, e os publicou num pequeno livro a que deu o sujestivo e angolano título de “Os Prubulemas que estamos com eles”.

Ao navegador menos avisado, convém dizer que estes cartoons incidiam principalmente sobre a actualidade política e social angolana, numa altura em que a liberdade de imprensa neste país dava (ou ainda dá ?) os seus primeiros passos.

MANKIKO – O IMBUMBÁVEL

Bom, e eu ?

Eu nasci também nesse ano – 1990. Comecei por ser publicado aos sábados, na página “Luanda”, que o tal Manuel Dionísio coordenava. Ele até hoje acha que é meu padrinho, vá-se lá saber porquê! Já o outro, o Kota Abranches achava que era meu avô, e como se não bastasse o tal de Piçarra está convencido que é meu pai !! Vocês já viram? É preciso azar ! Não sei como é que ainda não inventaram que o Jornal de Angola é minha mãe !! era só o que faltava...

Bem, continuando:

Algum sucesso depois, o kota Luandino Vieira – sempre ele, grande mô fan – pôs mais uma vez a União dos Escritores Angolanos a editar um livro com as minhas aventuras, salvo sejam! Dos 5 mil exemplares que se fizeram (um record, para nós...) todos bazaram. Fiquei só com a fama, porque o cumbú (dinheiro) que é bom...nicles!

Mas fiquei tão famoso e afamado, e a banga era tanta, que já não cabia naquela paginazeca do JA. Bazei para uma revista, com o meu nome: “O Jornal do Mankiko”. Nessa altura, já em 1993, outros putos que aprenderam a desenhar na escola do mestre Abranches, como o Abraão, o Armando ou o Romão, publicaram bandas desenhadas nas minhas páginas. E ainda eram pagos por isso, os sortudos!!!

Mas aí, começou o estrilho: tempos depois, a revista que devia ser mensal, começou a sair quando a gráfica entendia (Ó Fernando, se te apanho um dia!...), e a empresa que me sustentava também começou a fazer contas à vida...e assim, olhem, foi-me dando uma preguiça, mas uma preeeeguuiiiiiççççaaaa, que fui ao encontro da melhor sombra de bananeira que encontrei e....zzzzz.....zzzzz.....zzzzzz...zzzzz....zzzzz.

Caí num longo e doce sono. Tão doce e tão longo que alguns desmancha prazeres tiverem a excelentíssima ideia de vir me acordar! (para a internet, entre 2005 e 2007 - nota do Kuentro)

Sacanas, me aguardem!

Capas dos oito números de Jornal do Man'kiko




O Vídeo, de Romão Segunda (arg. e des.)

Tchoya, de Henrique Abranches (arg) e Abraão Eba (des)

Esse Diabo do Quim, de Henrique Abranches (arg) e Armando Eduardo (des)


O Rei Contente, de Henrique Abranches (arg) e Milton Panzo (des)

Man'kiko, de Sérgio Piçarra

Jornal do Man’kiko
8 números editados, em 1993 e 1994
Director: Pepetela
Redacção: Lito Silva, Sérgio Piçarra, Hugo Fernandes, Abraão Eba e Armando Eduardo.
Supervisão: Henrique Abranches
40 páginas – 16 a cores
Tiragem: 12.000 exemplares

ALGUNS DADOS CRONOLÓGICOS

Período 1940-1975
Luis Kohl
Henrique Abranches
Nando
Rico
Manuel Ribeiro

Período 1976-1980
Rui Galhanas
V. Costa
Carlos Alberto
Filomeno Moreira

Período 1985-1990
Henrique Abranches
Sérgio Piçarra
Lito Silva
Hugo Fernandes

Geração "Jornal do Mankiko"
Abraão Eba
Armando Eduardo
Romão Segunda
Francisco Carnoth
José Dias
Milton Panzo

Geração "BD-HUMBI-HUMBI"
Olimpo Sousa
Lindomar Sousa



Cabetula, de Lindomar de Sousa
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