quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

BDpress #323: OS 75 ANOS DO PRÍNCIPE VALENTE – PEDRO CLETO NO JN


Jornal de Notícias, 13 de Fevereiro de 2011

NOS TEMPOS DO REI ARTHUR

A LONGA SAGA AOS QUADRADINHOS DO PRÍNCIPE VALENTE COMEÇOU HÁ 75 ANOS

F. Cleto e Pina

A 13 de Fevereiro de 1937, um sábado, alguns jornais norte-americanos publicavam a cores a primeira prancha de uma das mais emblemáticas e fabulosas sagas que a banda desenhada viria a conhecer: “Prince Valiant in The Days of King Arthur”.

Ou seja, nascia aquele que em Portugal ficou conhecido como o Príncipe Valente pelos leitores do Mosquito (onde se estreou em 1948), do Mundo de Aventuras, do Jornal do Cuto e, principalmente, do Primeiro de Janeiro, que o publicou semanalmente, a cores, durante 36 anos, entre 1959 e 1985.

Criada aos 44 anos por Harold Rudolph Foster (1892-1982), revelar-se-ia não só uma obra de maturidade, mas também a obra de toda a sua vida, pois a ela dedicou mais de 40 anos, durante os quais escreveu e/ou desenhou 2244 pranchas, as últimas cinco centenas desenhadas por John Cullen Murphy, entretanto substituído por Gary Gianni, actual responsável por esta BD.

Curiosamente, Foster, que também foi desenhador de Tarzan, chegou a considerar os quadradinhos arte menor e a trocá-los pelo desenho publicitário, antes de voltar a eles por razões económicas.

As aventuras do Príncipe Valente (ou Val), cavaleiro da mítica Távola Redonda da Corte do Rei Artur, defensor de valores como a coragem, a amizade, a lealdade, a justiça, a honra e o cavalheirismo, constituem uma monumental saga desenhada, em que se destaca o envelhecimento progressivo dos protagonistas: Val, que surge na terceira prancha como adolescente, torna-se depois um jovem fogoso, conhece a bela Aleta, rainha das Ilhas Brumosas, com quem casa e tem cinco filhos que, à medida que o pai amadurece, vão crescendo e assumindo, a vários níveis, cada vez mais protagonismo. Porque, na BD com o seu nome, o Príncipe Valente está muitas vezes ausente ou é pouco mais do que espectador, surgindo no centro da acção Sir Gawain, cavaleiro da Távola Redonda, Aleta, os seus filhos, o escudeiro Arf, o vicking Boltar e outros mais, o que permitiu a Foster contar – muitas vezes em simultâneo – várias histórias. Nelas, abordou aspectos sociais, políticos, militares e religiosos da época em que Val viveu, levando-o a percorrer meio mundo, da Europa – incluindo uma breve acostagem na costa portuguesa - à América, da África à Ásia.

No aspecto formal, o facto de o Príncipe Valente ter sido sempre publicado apenas como prancha dominical, sem a derivação em tiras diárias, permitiu a Foster dedicar-lhe cerca de 50 horas semanais. Por isso, cada página, nos seus monumentais 86x70 cm (cada vinheta tem aproximadamente o tamanho A4), é uma obra de arte, traçada num preto e branco fino e detalhado, perfeitamente adequado para a representação expressiva do ser humano e sublime na recriação de paisagens ou edifícios, com um pormenor inultrapassável.

E, numa época em que o balão de texto era já instrumento fundamental da narrativa aos quadradinhos, a obra de Foster surpreende pelo recurso (aparentemente obsoleto) ao texto sob cada vinheta. Mas, só assim, Foster pode dar largas ao seu talento literário – atente-se na riqueza do seu vocabulário e na sua veia erudita – que condimentou com um assinalável sentido de humor com o qual, tantas vezes, coloca em causa princípios do tempo em que Val viveu e do seu próprio tempo.

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Um português apaixonado

De há uns anos a esta parte, falar do Príncipe Valente, implica falar de Manuel Caldas, português da Póvoa de Varzim e profundo conhecedor da obra de Foster, “o clássico dos clássicos da BD americana dos jornais”, a quem dedicou a monografia “Foster & Val”.

Ao seu trabalho de artesão apaixonado deve-se a melhor edição a preto e branco alguma vez feita da obra de Foster, criada a partir das páginas dos jornais e das provas originais ainda existentes, o que implicou muitas horas de trabalho em cada prancha, eliminando a cor e restaurando o traço original, que o leitor actual redescobre em toda a sua limpidez e esplendor. Com seis volumes de grande formato publicados em Portugal e Espanha, com os primeiros 12 anos da saga (1937-1948), actualmente prepara para um editor do Uruguai o segundo dos três livros correspondentes a 1949-1954.

Ler também no blogue As Leituras do Pedro, a opinião de Manuel Caldas: “Foster deveria ter posto fim ao Príncipe Valente”.


 Hal Foster (18, Agosto 1892 - 25, Julho 1982)
 




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Imagens da responsabilidade do Kuentro

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