segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE - MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (XXIII e XXIV) –O IMPÉRIO EDITORIAL DA AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS 1.5 e 1.6



9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(XXVII - XXVIII)


O Louletano, 30 de Setembro a 5 de Outubro 2004



O IMPÉRIO EDITORIAL 
DA AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS - 1.5

Na sequência do êxito da colecção Condor (mensal), a Agência Portuguesa de Revistas - APR - lança o Condor (semanal), também com 32 páginas, mas apenas com metade do formato daquela, após a saída de Roussado Pinto e Vítor Péon da editora. Recordo ter retocado alguns dos primeiros números, montados - adaptação das vinhetas ao formato da revista - por Alfredo Silva e Santos Neves - S.N., que este último traduzia. Vez por outra, se o material em BD não preenchia a totalidade do miolo - as 30 pág. interiores - S.N. também escrevia uma história de texto, assinando com o pseudónimo de Charles Richard, ou outro dos vários que usava embora, na ficha técnica viesse referenciado que o texto era de José de Oliveira Cosme.

Tais indicações, como director, editor, etc, etc.... funcionavam mais como formas legais, que efectivas, pois por norma, quem na realidade dirigia a revista era quem seleccionava o material e coordenava as várias fases da sua feitura, inclusivé, até à impressão.

Foi também por essa altura que, por iniciativa de Mário de Aguiar - M.de A., foi lançada a colecção Tigre, formato um pouco maior que o Condor mensal, com capa em quadricomia - 4 cores - com 64 páginas e lombada, periodicidade mensal, e ao preço de 4 escudos.

Recordo, em Janeiro de 1954, a reunião onde M. de A. expôs a ideia, pedindo a cada um dos elementos da redacção que sugerisse um nome para a nova publicação. Por casualidade, foi o por mim referido - Tigre - que preferiu. Na altura escrevia um pequeno diário onde narrei o acontecimento (da revista), por isso o relembro. As primeiras sete capas são da autoria de Filipe Figueiredo - F.F. e, no seu n° 1, foi publicada uma aventura de Johnny Hazard / O Roubo do Ceptro e também um conto de S.N. com duas ilustrações de F.F..

Aproveitando a circulação das carrinhas - forgonetas - que distribuiam as publicações pelos locais de venda, em Lisboa, M. de A. pediu a Filipe Figueiredo que pintasse uns painéis publicitários à referida colecção, com a reprodução das capas, nos quais também participei. Foram executados no 1° andar da empresa, durante alguns serões, e afixados na parte superior dos ditos carros. A colecção e a publicidade a ela feita, nas ruas da cidade foram, como chamariz, um êxito absoluto. M. de A. receava que o preço, elevado para a época, fosse um óbice à aceitação da revista, mas tal não aconteceu.

Outra das novidades desse fim de ano de 1954, foi a edição do único (até meados dos anos 60) albúm de "O Mundo de Aventuras", com 84 páginas, capas a cores, e ao preço de 7$50.

Alfredo Silva, já ausente da APR, não colaborou na sua feitura. Quem seleccionou o material de BD e dirigiu o grafismo da publicação foi Fernando Esteves que, creio, também o traduziu. Rolo Duarte colaborou com alguns pequenos textos, F.F. ilustrou a capa, cabendo-me o retoque e a colagem de legendas, os cabeçalhos, bem como a ilustração do conto "O homem que não usava armas", a primeira de minha autoria publicada em qualquer revista.

Certamente que, se Carlos Alberto - C.A. na altura já fizesse parte dos colaboradores privativos da APR, - como M. de A. gostava de chamar aos desenhadores internos da empresa -, seria ele quem ilustraria a capa desse album, dado o nível de execução artística que entre os dois havia, pois C.A. esteve para a APR tal como Vítor Péon para a 2a fase do "Mundo de Aventuras", ETCoelho para o "O Mosquito" e Fernando Bento para "O Diabrete" e "O Cavaleiro Andante", seu natural sucedâneo.

Vez por outra, iludindo a revisão, algumas gralhas surpreendem-nos desvirtuando o texto. No último "9ª. Arte", a palavra "encomiasticamente" foi a mais notória. As nossas desculpas.

Legenda da imagem:

Capa do primeiro número da "Colecção Tigre", desenhada por Filipe Figueiredo, com também ilustrações suas num conto de texto, no interior

Capa do primeiro número da "Colecção Tigre", desenhada por Filipe Figueiredo, com também ilustrações suas num conto de texto, no interior



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O Louletano, 6 a 11 de Outubro 2004

O IMPÉRIO EDITORIAL 
DA AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS - 1.6

Por norma, as publicações de BD iniciavam-se com relativa antecedência em relação à data de saída, nunca menos de um mês, raríssimas vezes dois, pois era ponto de honra da APR colocar as publicações em casa do cliente - locais de venda - no dia anterior ao estipulado como data de saída.

As revistas tipo albúm, com um só personagem, colecção Condor, Tigre, etc, eram mais fáceis de coordenar, sendo muito diferentes daquelas cuja variedade de material, nas quais só saía uma pá-gina por herói, num conjunto de 16, com várias ilustrações, cabeçalhos e capas, exigiam um especial cuidado para que nenhuma falha apresentasse quando impressas. O Mundo Aventuras, e especialmente o seu albúm saído em Dezembro de 1954, pela variedade de material que os preenchia, requeriam especial atenção.

Nas publicações das histórias em continuação, o material era entregue, antes de montado, tal como era fornecido pelo distribuidor, ao colaborador que o traduzia. Seleccionadas as vinhetas que preenchiam uma página, com o texto respectivo, acontecendo o mesmo com todas as personagens que a revista publicava, o material era entregue para montagem. Esta operação consistia em agrupar as vinhetas de modo a que as mesmas preenchessem a mancha da página - espaço disponível útil reservada à impressão - como se o material nele disposto assim fosse fornecido pelo distribuidor.

Vez por outra fazia-se necessário acrescentar um pouco o desenho, quando o espaço a ele reservado era superior à sua dimensão, o que exigia ser executado de acordo com a técnica que o autor lhe imprimira, de modo a que tal acrescento se não notasse. Quando o espaço a acrescentar excedia 1 cm ou mais, o recurso para evitar "remendos" indisfarçáveis era fazer uma caixa rectangular, onde uma legenda narrativa fazia a ligação entre as duas vinhetas.

São por demais conhecidas - não pelos distraídos leitores - algumas amputações, acrescentos, disfarçes e outros acéfalos abusos, os quais de tal maneira desvirtuavam o trabalho do autor que a sorte de quem os perpretava era o desconhecimento do público, de como na realidade o artísta os tinha concebido. Nalgumas edições da APR tais anormalias, lamentalvelmente, eram bastante notórias, pois pouco do material utilizado era fornecido com as dimensões que a mancha da página exigia. A maior parte dele era fornecido pelos distribuidores em tira diária - grupo de três ou quatro vinhetas publicadas diáriamente - ou em págima dominical, três a quatro tiras, em formato de página. No primeiro caso, dado o formato do jornal, as tiras por vezes tinham de ser desmontadas, o que ocasionava cortes ou pequenos acrescentos; já no segundo, muitas das páginas dominicais eram publicadas exactamente como os desenhadores as ilustravam. No entanto, tudo dependia da insconsciência ou cuidado com que o trabalho de planificação, montagem e retoque eram executados.

Seleccionado o material a ser publicado nas revistas com histórias em continuação, era pedido ao ilustrador, mediante uma alternância de personagens que as desmarcasse das anteriores, para que criasse uma capa com uma cena de acção que atraisse o leitor através do movimento, cor e beleza do desenho nela expressos.

Uma vez montadas e retocadas as páginas de BD que preencheriam a revista, seguia-se a legendagem, naquele tempo em tipografia, as quais eram recortadas e coladas nos respectivos balões. Revisado todo o material da publicação, o mesmo dava entrada na tipografia - casa impressora - com dez a quinze dias de antecedência da data de saída. Três ou quatro dias depois enviavam um ozalide da revista para possíveis correcções, as quais eram imediatamente feitas. Daí a poucos dias a revista impresa dava entrada nos armazéns da empresa para ser distribuída.

Longe estava o leitor, quando a adquiria e folheava, por quantas mãos e quantas voltas já dera aquela meia dúzia de páginas dobradas em quatro, e a cheirar a tinta fresca que por vezes lhe tingia as mãos!

Legenda da imagem:

Três exemplos de excessivos acrescentos num história de "Rip Kirby", publicado no "Mundo de Aventuras" nº 290. O enquadramento original está sinalisado pelo tracejado

Três exemplos de excessivos acrescentos num história de "Rip Kirby", publicado no "Mundo de Aventuras" nº 290. O enquadramento original está sinalisado pelo tracejado


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ULISSES (XXIV e XXV)
Texto e desenhos de Jobat




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