sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE - MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (XXIII e XXIV) –O IMPÉRIO EDITORIAL DA AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS 1.2 e 1.3

Retomamos hoje a republicação das páginas de 9ª Arte - Memórias da Banda Desenhada, por Jobat, publicadas no jornal O Louletano


9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(XXIII - XXIV)


O Louletano, 31 de Agosto a 6 de Setembro de 2004

O Império Editorial 
da Agência Portuguesa de Revistas - 1.2


Levado à presença de Mário de Aguiar, este recebeu-me afável e chamou Alfredo Silva, o coordenador, na altura, d' "O Mundo de Aventuras" e de outras publicações de H.Q., para me explicar qual a tarefa da qual me ocuparia. Se pudesse, disse-me, que viesse, no dia seguinte. Não teria renumeração mensal, tipo ordenado - pois nenhum colaborador o tinha - cumpriria o horário comum da casa, mas poderia fazer a quantidade de trabalho que quisesse e pudesse, o qual era razoavelmente bem renumerado. Aceites a s condições, no dia seguinte iniciei uma colaboração de quase vinte anos.

Nessa altura, 1954, o n.° 207 da Rua Saraiva de Carvalho era um beco, sem saída, de talvez 150 metros de comprimento. A letra P, a seguir ao n.° 207, referia-se à ordem sequencial das das portas existentes nesse beco. Ladeavam-no, junto à Saraiva de Carvalho, dois amplos estabelecimentos, tipicos de bairro e alguma antiguidade: à esquerda uma mercearia; e à direita uma casa funerária. A primeira, há muito passou por diversos ramos de comércio, a casa funerária, como que a atestar que o que vende continua a ser artigo de primeira necessidade, ainda hoje mantém o mesmo ramo.

O armazém, enorme, para onde Agência Portuguesa de Revistas (APR) se tinha mudado, no início desse ano, ficava ao fundo, à direita, do respectivo beco, e ocupava todo o rés-do-chão. O pé direito do edíficio era bastante alto, e com amplas janelas, tanto no piso térreo, ao nível do beco, como no suposto primeiro andar. A entrada para a APR fazia-se por um largo portão, do lado direito do edíficio, havendo outro idêntico, à esquerda, utilizada como entrada para a cave, dado o desnível de terreno, e onde funcionava "A Textil Sedeira", a qual naquele tempo era apenas uma tinturia. O aquecimento das instalações da APR, no inverno, era fornecido pelo vapor das caldeiras da cave, através de uma instalação com serpentinas, em cada gabinete.

Creio que foi Mário de Aguiar, quem mandou fazer algumas divisões, tipo salas de escritório, em madeira, aquando da mudança para esse local, no rés-do-cão. O primeiro andar servia como desafogo e arquivo, utilizando-se o espaço por cima dos escritórios. Estes ocupavam, inicialmente, toda a frente do edíficio, numa extensão de talvez 30 metros.

Um amplo "hall" de entrada, com duas portas basculantes, com o logo da APR pintado em cada vidro, servia de corta-vento em relação ao beco. À esquerda, nesse "hall", num pequeno guichet, também em vidro, atendiam-se os clientes. O acesso ao interior fazia-se através de duas grandes meias-portas, em madeira, mesmo frente ao portão da entrada.

Uma vez transposto o "hall" para o interior, logo à esquerda, a todo o com¬primento da frente do edíficio, ficavam quatro escritórios, a saber: o primeiro, o do "guichet", dava serventia ao atendimento; no segundo funcionava a contabilidade; o seguinte, era ocupado pela redacção das publicações da altura e, por último, o da direcção, onde Mário de Aguiar e António Dias tinham cada um a sua secretária. A redacção de todas as publicações da APR, nesse tempo, era comum para todas elas, pois as divisões eram relativamente amplas.

Legendas as Imagens:

Primeira página do "Tomahawk" Tom, publicada no N° 62 de "O Mundo de Aventuras", em 19/10/1950, criação de Vítor Péon


Ângulo lateral esquerdo do edifício da APR, nos anos 60, já com saída ao fundo do beco. Veêm-se as escadinhas em primeiro plano, no lado direito da foto


Primeira página do "Tomahawk" Tom, publicada no N° 62 de "O Mundo de Aventuras", em 19/10/1950, criação de Vítor Péon.
A imagem pode ser vista no blogue As Leituras do Pedro.

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O Louletano, 7 a 13 de Setembro de 2004

O Império Editorial 
da Agência Portuguesa de Revistas - 1.3

O início da minha colaboração com a APR deve ter acontecido entre a 2a metade de Agosto e a 1a de Setembro de 1954 e, isto pela seguinte razão: na manhã do dia em que lá fui mostrar os desenhos, tinha ido à praia, junto à Torre de Belém, ainda a areia a cercava, com um antigo colega da António Arroio, o António Rodrigues Victorino, que há perto de quatro décadas não vejo. Já levava os desenhos comigo. A deslocação, junto à citada torre, foi mais para arranjar coragem, para me decidir a ir à APR do que para ir tomar banho, pois não era, já nessa altura, praia que para isso servisse.

Recordo que resguardei os desenhos - umas 20 e tal páginas A4, de cavalinho nacional - sob uma porção de areia para me permitir aproximar da água sem o perigo de as molhar. No local, éramos praticamente apenas os dois. Distantes e distraidos, quase à beira-mar, uma súbita rajada de vento pôs a descoberto os desenhos, espalhando-os por largas dezenas de metros. Felizmente a direcção do vento empurrou-os para terra, mas nem por isso deixou de ser uma tarefa penosa andar atrás daquelas endemoninhadas folhas. Quando chegávamos junto delas, como que se levantavam, e voa¬vam para mais longe!

Uma vez reunidas - com alguma canseira - resolvi dirigir-me à Saraiva de Carvalho. É pelo tempo que na altura fazia, um dia solarengo, tal como pelas pistas que encontro n "O Mundo de Aventuras" (MA) e no "Condor Mensal", que me permito concluir o início da colaboração com a APR na data acima expressa.

Os elementos que compunham a redacção, na terceira sala à esquerda, transposta a meia porta que dava acesso ao interior do grande armazém, eram o Luís Miranda, homem ligado ao cinema, talvez coordenador da revista "Plateia" e "Colecção Cinema"; Fernando Esteves e Rolo Duarte, também colaboradores dessas revistas, e do MA; Santos Neves, tradutor de material de BD e autor de novelas de texto, publicadas no MA, e que assinava com o pseudó-nimo de Peter Adams; Filipe Figueiredo, ilustrador, e Alfredo Silva, na altura coordenador das revistas de BD, e gráfico da "Plateia" e "Colecção Cinema". A redacção contava com dois miúdos de recados, o Custódio Chaveiro e o Ulisses.

Carlos Alberto, colaborador desde o primeiro número do M.A., fazia, nessa época, parte do atelier de José David , sócio da Fotogra-vura Nacional, razão porque a história de "João dos Mares" saiu com o logo dessa empresa, a qual foi publicada com indicação de Augusto Barbosa, como autor.

Só apenas cinco anos depois, este autor ilustraria a sua segunda história de BD, "Ousadia Triunfante", nas páginas desse semanário Juvenil.

Legendas das imagens:

Capa do Mundo de Aventuras n° 284, da autoria de Carlos Alberto


Primeira página de "Ousadia Triunfante", publicada nas páginas centrais do M.A. n° 284, de 20 de Janeiro de 1955


Capa do Mundo de Aventuras n° 284, da autoria de Carlos Alberto

Primeira página de "Ousadia Triunfante", publicada nas páginas centrais do M.A. n° 284, de 20 de Janeiro de 1955.
Pode ver-se a capa referida acima e a história completa no blogue Mania dos Quadradinhos.

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ULISSES (XX e XXI)
Texto e desenhos de Jobat



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ATENÇÃO: AS IMAGENS PODEM SER VISTAS EM FORMATO MAIOR, CLICANDO EM CIMA DELAS COM O BOTÃO DIREITO DO RATO E FAZER "ABRIR IMAGEM NUM NOVO SEPARADOR"


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