sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

BDpress #343: O REGRESSO DA MARCA DE JACOBS – Eurico de Barros no D.N.



O REGRESSO DA MARCA DE JACOBS 

DUAS NOVAS BIOGRAFIAS, VENDAS COLOSSAIS DOS ÁLBUNS, 
EXPOSIÇÕES, 'MERCHANDISING'. 

O 'PAI' DE BLAKE E MORTIMER NUNCA FOI TÃO CELEBRADO E APRECIADO 

Edgard Félix Pierre Jacobs 
(Bruxelas, 30 de Março de 1904 - 20 de Fevereiro de 1987)

Diário de Notícias, Sábado, 19 de Janeiro de 2013 

Eurico de Barros 

A história é conhecida no mundo da banda desenhada, e foi contada em pormenor por Benoit Mouchart (1) e François Rivière (2) na sua biografia do criador de Blake e Mortimer, La Damnation d'Edgar P. Jacobs. Nos anos 50, Hergé começou a considerar o seu amigo e colaborador Jacobs como um rival direto, face às vendas impressionantes dos álbuns das aventuras de Blake e Mortimer. Falando certo dia com Raymond Leblanc (3), editor da revista Tintin belga e proprietário das Edições Le Lombard, Hergé disse-lhe: "Um álbum de Blake e Mortimer vendido é um álbum de Tintin que eu não venderei."

Segundo contam Mouchart e Rivière, "sem nunca abrir um conflito com Jacobs, o artista (?) [Hergé] fará pesar toda a sua influência para que as Edições Le Lombard não privilegiem em excesso, na sua estratégia de marketing, os álbuns [de Edgar P. Jacobs]". Mais tarde, em finais dos anos 70, desagradado com a forma deselegante como Guy Leblanc, filho e herdeiro de Raymond Leblanc, que tinha sucedido ao pai à frente da Le Lombard, o tratava, aborrecido com a falta de qualidade gráfica das reedições dos álbuns de Blake e Mortimer, com o fraco dinamismo comercial da editora e com a recusa desta da sua proposta de uma edição da coleção em formato grande, Jacobs tentou negociar a sua publicação na Casterman, que na altura publicava as aventuras de Tintin. Hergé terá então, pela calada, boicotado os esforços de Jacobs para se ver editado na Casterman, o que o antigo diretor de edições desta casa, questionado por Mouchart e Rivière, embora não o admitisse, também não o desmentiu.

Foi nessa altura, em 1979, que Edgar P. Jacobs fundou a sua própria editora, as Edições Blake e Mortimer, contando com o precioso apoio de um seu amigo e grande admirador Claude Lefrancq, um editor de discos de blues e proprietário de uma loja de aparelhagem de alta-fidelidade da qual Jacobs, fino melómano, era cliente. A Jacobs e a Lefrancq juntou-se outro amigo seu, Christian Vanderaeghe, e o pai de Blake e Mortimer pôde assim, finalmente, controlar melhor as suas criações do ponto de vista editorial e comercial. Com bons resultados, porque, como escrevem Mouchart e Rivière, "para grande surpresa de Jacobs estas reedições vão-lhe permitir multiplicar por dez o montante dos seus direitos de autor. O incrível sucesso destes álbuns antigos deu ao desenhador a prova de que ele estava à espera para confirmar a evidente falta de motivação da Le Lombard na promoção de Blake e Mortimer"

Se as aventuras de Tintin continuam a vender-se abundantemente depois da morte do seu criador, que não quis deixar sucessor para continuar a personagem, também as de Blake e Mortimer, agora escritas e desenhadas pelas equipas de sucessores de Edgar P. Jacobs (que morreu em 1987), estão prósperas. E estas novas aventuras estão a fazer uma nova geração de leitores descobrir os álbuns de Blake e Mortimer desenhados por Jacobs, gerando números de vendas (na casa das centenas de milhares de volumes), e lucros (na casa das dezenas de milhões de euros) que talvez incomodassem Hergé, se ele fosse vivo. Além de um interesse renovado pela imortal criação em banda desenhada de Edgar P. Jacobs, os novos álbuns de Blake e Mortimer, de que O Julgamento dos Cinco Lordes é o mais recente, vieram também reavivar a curiosidade pela figura e pela biografia do próprio Jacobs, bem como concretizar um desejo que o artista (?) não conseguiu realizar em vida. A edição, em formato grande e com aparato crítico, das aventuras completas de Blake e Mortimer, iniciada em dezembro do ano passado pela Hachette, mas que infelizmente não estará disponível em Portugal.

Além de um tratamento editorial e gráfico muito cuidado, cada um dos álbuns contém um suplemento de 16 páginas repleto de informação específica. E isto sem falar no merchandising variado das figuras de Blake e Mortimer, que inclui, entre outros produtos, coleções de miniaturas dos automóveis da série, T-shirts ou edições gráficas, como é o caso do conjunto de serigrafias Blake et Mortimer-Une Journée à Bruxelles, de André Julliard, um dos desenhadores da série na era "pós-Jacobs". Blake e Mortimer passaram a ser também uma marca, coisa que, em vida, Edgar P. Jacobs nunca teria imaginado poder vir a suceder.

Tudo isto é a consequência lógica de, desde 1996, ano do lançamento de O Caso Francis Blake, de Jean Van Hamme e Ted Benoit, o primeiro álbum da era "pós-Jacobs" as aventuras de Blake e Mortimer figurarem sempre nas listas anuais dos álbuns mais vendidos de banda desenhada, e estes novos álbuns terem potenciado as vendas dos antigos, criados por Jacobs.

Como escreve Stéphane Thomas, biógrafo de Edgar P. Jacobs, na revista L'Immanquable no quadro de um dossier especial dedicado ao artista (?) e a Blake e Mortimer, "a comunidade dos fãs nunca esteve tão ativa como agora, e as manifestações celebrando a obra de E. P. Jacobs nunca foram tão numerosas. (Não se passa um ano sem que um álbum – ou um aniversário – não seja celebrado numa exposição ou por ocasião de um festival) E isto mesmo considerando que a qualidade dos álbuns "pós-Jacobs" tem oscilado.

Apesar da sua qualidade gráfica, do rigor da reconstituição de época e da habilidade do argumento, O Julgamento dos Cinco Lordes é uma das entradas menos conseguidas desta nova série de aventuras baseadas nas personagens criadas por Edgar P. Jacobs. A história não tem os elementos de ficção científica tradicionais nas histórias de Jacobs, estando mais próxima das intrigas policiais clássicas de uma Agatha Christie ou uma Dorothy L. Sayers, e põe em cena uma figura histórica, na pessoa de T. E. Lawrence, ou Lawrence da Arábia, coisa nunca vista nas aventuras de Blake e Mortimer assinadas por Jacobs, que se passam naquilo que se pode considerar um mundo paralelo com algumas semelhanças com o nosso (ver O Segredo do Espadão).

Uma das duas novas biografias de Edgar P. Jacobs, La Marque Jacobs, da autoria de Rodolphe e Alloing, tem a forma de uma banda desenhada. No final do álbum, encontramos uma entrevista de várias páginas com Rodolphe, o argumentista do álbum, que se declara ser um enorme admirador do biografado e da sua obra, e adianta que uma das razões para que ele e Alloing avançassem para uma biografia desenhada, foi a de não existir nenhuma. Apenas biografias escritas convencionais, e, mesmo assim, poucas. Além disso, e ao contrário de Hergé, sobre o qual, e sobre Tintin, já foram publicadas toneladas de livros, sejam biografias, sejam estudos de todo o cariz, "há muito poucas coisas sobre Jacobs".

Quem tiver lido quer a biografia acima mencionada, da autoria de Mouchart e Rivière, e Un Opéra de Papier, a autobiografia ilustrada de E. P. Jacobs, e folhear La Marque Jacobs, dará razão aos autores do álbum e perceberá imediatamente que estes dois títulos foram as suas fontes principais para a realização deste trabalho. Assim como outra obra de Benoit Mouchart, À L'Ombre de la Ligne Claire, sobre Jacques Van Melkebeke (4), grande amigo de Jacobs (foi nele que este se baseou para criar a personagem de Mortimer) e de Hergé, e nome muito importante da banda desenhada belga mas que ficou na sombra para a posteridade, por ter sido colaboracionista durante a ocupação da Bélgica pelos alemães na Segunda Guerra Mundial e considerado um "elemento incívico" após o final do conflito. Um labéu de que Van Melkebeke nunca se conseguiu libertar e que o prejudicou grandemente em termos profissionais.

Além de terem contado também com importante testemunho de Viviane Quittelier, neta de Edgar P. Jacobs, no livro que esta acaba de dedicar ao avô, os autores de La Marque Jacobs foram também, e sintomaticamente, colher informação sobre o seu genial biografado, a livros sobre Hergé, "nos quais Jacobs está automaticamente presente", como bem frisa o argumentista, tendo em conta os laços de amizade (e de rivalidade ...) que os uniam, e o muito que o criador de Tintin deve ao criador de Blake e Mortimer em termos da sua importante colaboração nalguns dos seus álbuns, caso de O Tesouro de Rackham, o Terrível ou As Sete Bolas de Cristal.

Além de ser uma obra pioneira em termos de biografias de Edgar P. Jacobs, La Marque Jacobs viu-se, por outro lado, envolvido num conflito jurídico que opôs a sua editora, a Delcourt, com o grupo editorial Média-Participations, atual detentor dos direitos das aventuras de Blake e Mortimer (é composto pelas Edições Blake e Mortimer, e pelo Studio Jacobs, ambos propriedade das Edições Dargaud, que as adquiriram em 1995), que veio acusar em tribunal os autores, Rodolphe e Alloing, e a Delcourt, de plágio.

Motivo: o facto de La Marque Jacobs conter referências diretas "aos códigos gráficos" do universo de Blake e Mortimer, e por mostrar "a quase totalidade dos títulos" que compõem este mesmo universo, "Está-se largamente fora dos direitos de citação", segundo Claude de Saint Vincent, diretor da Média-Participations, apresentando como exemplo mais elaborado do seu ponto de vista, a capa de La Marque Jacobs, onde se podem ver uma série de referências diretas e subentendidas a personagens, motivos e álbuns de Blake e Mortimer.

Falando à RTBF, a rádio e televisão pública da Bélgica, Thierry Joor, o editor de La Marque Jacobs, defendeu os seus autores da acusação de plágio: "Há sempre um mínimo de coisas autorizadas" em obras desta natureza. "A partir do momento em que [um álbum] não está a abarrotar de informações visuais e de elementos emprestados, o direito de citação está totalmente autorizado." Segundo uma advogada questionada pela RTBF sobre esta querela, "é muito difícil fazer citações curtas em artes plásticas. É por isso que na Bélgica a lei fala em citações, porque se sabe, precisamente, que uma citação curta numa obra de carácter plástico é impossível". Além disso, o que está em causa é "uma banda desenhada que conta a vida de Jacobs. E a capa do álbum é uma piscadela de olho ao seu trabalho", conclui aquela. Finalmente, um tribunal de Paris deu razão à Delcourt, e La Marque Jacobs saiu em novembro passado.

Esta não é a primeira vez que Blake e Mortimer são objeto de uma acusação de plágio. Em 2005 as edições Albin Michel publicaram o primeiro volume de Scott & Hasting, um alegado pastiche das aventuras de Blake e Mortimer. A Média-Participations protestou e tentou chegar a um acordo com a Albin Michel. Não iria a tribunal, desde que o segundo volume da série tivesse uma tiragem de apenas 10 mil exemplares, e ela acabasse aí. A Albin Michel recusou e recorreu à lei. Perdeu a ação e teve de pagar uma indemnização de 80 mil euros à Média-Participations. E a série Scott & Hasting acabou mesmo no volume dois.

A outra nova biografia de Jacobs, La Revanche d' Edgar P. Jacobs, de Stéphane Thomas, conta na capa com um magnífico retrato do artista (?), da autoria de Ted Benoit, e vem prolongar e enriquecer quer La Damnation d'Edgar P. Jacobs, de Mouchart e Rivière, quer a própria autobiografia do autor de A Marca Amarela.

Também ele grande entusiasta da arte de Jacobs, Thomas, no referido artigo para a revista L'Immanquable, faz uma síntese dos principais pontos temáticos do seu livro, concluindo: "Hoje, a arte de Jacobs parece ao mesmo tempo clássica e moderna, de onde a sua prosperidade e difusão sem precedentes. O marketing - perfeitamente eficaz e inventivo - da Média Participations não pode explicar totalmente o interesse continuo das novas gerações pela sua obra. Finalmente, aquele que veio para a banda desenhada malgré lui [recorde-se que a ópera foi o primeiro amor de Edgar P. Jacobs, que cantou profissionalmente como barítono], tornou-se num dos seus dois pilares históricos na Europa, juntamente com Hergé, o seu irmão inimigo, e, tal como ele, situa-se hoje acima da sua disciplina, já que a universalidade dos seus talentos artísticos e da sua mensagem permitiram-lhe transcender a sua época para a eternidade."

A fama de Blake e Mortimer já transbordou até para os guias de viagem, uma outra novidade que também nunca passaria pela cabeça do criador das imortais personagens. É uma iniciativa da Gallimard e da revista Geo, que editam em conjunto uma série de guias de grandes cidades do mundo. Esta nova edição do guia dedicado a Londres, lançada para coincidir com a realização dos Jogos Olímpicos, no verão do ano passado, contém 24 páginas especiais dedicadas à Londres de Blake e Mortimer, e intituladas precisamente Londres vista por Blake e Mortimer.

A capital inglesa é o cenário de algumas das aventuras mais carismáticas da dupla de heróis de Edgar P. Jacobs, nomeadamente dessa obra-prima da banda desenhada que é A Marca Amarela. Neste caderno especial, o guia põe-nos a seguir o capitão Francis Blake desde o número 10 de Downing Street, a residência oficial do primeiro-ministro inglês, e o professor Philip Mortimer desde a sede da Scotland Yard. Passamos por alguns dos lugares, artérias e marcos mais emblemáticos de Londres, como Picadilly Circus, o Hyde Park, a Torre de Londres ou Museu Britânico, que fazem parte do habitat e das aventuras do duo, ambientadas nos anos 50. Ao mesmo tempo, deliciamo-nos como todo o rigor e todo o detalhe com que Edgar P. Jacobs desenhou Londres, transformando a cidade numa personagem, em vez de a usar apenas como um mero cenário, um pano de fundo neutro. Nenhum leitor das aventuras de Blake e Mortimer pode percorrer a capital inglesa sem se recordar constantemente desta ou daquela cena, sem evocar este ou aquele pormenor. Jacobs deixou também a sua marca para todo o sempre em Londres.

(1) Benoit Mouchart (n. 1976) - é um autor e curador francês, e o diretor da programação cultural do Festival de Banda Desenhada de Angoulême.
(2) François Rivière (n. 1949) - é um critico literário, argumentista, autor, tradutor, biógrafo e argumentista francês de banda desenhada.
(3) O belga Raymond Leblanc (1915-2008) - foi o fundador e editor da revista Tintin, das Edições Le Lombard e dos Estúdios Belvision.
(4) Jacques Van Melkebeke (1904-1983) - foi um jornalista, autor e argumentista de banda desenhada belga, e grande amigo e colaborador de Hergé e Edgar P. Jacobs.

O Juramento dos Cinco Lordes - Yves Sente/André Julliard - ASA - ISBN 978-9892321080 - 14,95 euros


La Marque Jacobs - Rodolphe/Alloing - Delcourt - ISBN 978-2756024769 - 16,90 euros na amazon.fr



La Revanche d'Edgar P. Jacobs - Stéphane Thomas - Gomb-R - ISBN 978-2953895025 - 25,00 euros na amazon.fr


GEOGuide-Londres Vu par Blake et Mortimer - Vários - Gallimard Loisirs - 12,26 euros na amazon.fr





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(?) – Nota do Kuentro: resolvi assinalar a palavra “artista” para designar autores (Hergé, ou Jacobs, p. ex.), com pontos de interrogação (?), uma vez que, continuo a dizê-lo, deve-se evitar o uso desta palavra para referir um autor de BD, uma vez que a mesma está de tal maneira conspurcada pela utilização abusiva, especialmente referindo-se a “artistas da rádio”, “artistas de cinema”, etc... que parece querer-se colocar todos no mesmo “saco”.

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