domingo, 17 de fevereiro de 2013

CARNAVAL – PARTE II – COM O ZÉ DAS PAPAS




CARNAVAL
PARTE II 

 Gazeta das Caldas, 15 de Fevereiro de 2013 

Não gosto nem tenho por há­bito dar o dito por não dito mas, à data da publicação desta mi­nha coluna, já a caixinha que há muito invade as nossas casas, terá divulgado os folguedos carnavalescos por esse mundo!

Mantenho o tema, mas nou­tra vertente...

A designação de entrudo, com sentido de carnaval, terá aparecido no reinado de D. Afonso III (séc. XIII) e poderia sugerir um conceito histórico específico, ligado às lutas entre Cristãos e Muçulmanos.

Terá o carnaval um passado de índole religiosa, sendo essa ideia reforçada pela gastrono­mia da quadra festiva?

Foi sempre uma sátira, uma sátira ao outro, ao vizinho, ao pobre, ao rico, ao político, ao religioso, a tudo! 

Os Caretos de Podence - Macedo de Cavaleiros

Caretos de Vila Boa de Ousilhão


Falando em gastronomia a sátira encontra-se expressa nas iguarias da época, a carne de porco, cozinhada frita, cozida, assada e de todas as maneiras, também porque coincidia esta época com a das matanças de porco.

As filhós de carnaval, as fi­lhós estendidas, também cha­madas orelhas de abade, seria o escárnio dos muçulmanos contra os cristãos. 

Filhoses no carnaval do Faial

Fritando filhoses de carnaval em Valado dos Frades


Coscorões e filhoses típicos do carnaval do Faial

O uso das filhós pelo carna­val, em Lisboa, só aparece em notícia a partir do século XVIII, segundo Ernesto Veiga de Oli­veira, mas caiu em desuso.

De novo, confortavelmente "apoiado" nas Festas e Come­res de Portugal, que Maria de Lourdes Modesto escreveu com Afonso Praça e que Nuno Calvet fotografou, edição da Verbo, aventuro-me por esta realidade social.

A época carnavalesca come­çaria mesmo no Dia de Reis, 6 de Janeiro. A partir de então, os domingos eram assinalados por festas, já carnavalescas e gran­des comezainas, daí a designação de Domingos Gordos.

Em algumas regiões era en­cenada uma luta entre o gordo Entrudo e a magra Quaresma: pelas principais ruas das povo­ações desfilava um estranho cortejo, no qual participavam dois bonecos o Entrudo e a Qua­resma, protagonistas de uma luta constante, procurando o primeiro expulsar a segunda da cena.

Não custa aceitar que o En­trudo era símbolo do mal (do pecado e do diabo, portanto), ao qual se opunha, como antí­doto possível a Quaresma, inici­ada na Quarta Feira de Cinzas. 

Mergulhando na raiz profana e carnal, o verdadeiro motivo que move o Careto (de Podence, na foto) é apanhar raparigas para as poder chocalhar. Sempre que se vislumbra um rabo de saia, o Careto é impelido pelo seu vigor.

Durante alguns dias, os abusos iam subindo de tom. Na Terça Feira Gorda, a corda atingia o máximo da resistência, e aca­bava por se partir, abrindo ca­minho para a abstinência e para o jejum. 

Sobre a origem do vocábulo, ele derivará do latim introitus o que significa entrada, invasão ou assalto de carnaval; uma e outra são usadas para designar o mesmo, passando a de entru­do, com referências desde o sé­culo Xlll, a dar lugar à de carna­val, a partir do século XVI.

No final dos festejos de car­naval, com o enterro do entru­do, tradição bem popular, na qual, entre outros significados podemos encontrar o de enter­rar o mal referente à estação do Inverno.

No enterro do entrudo, tam­bém chamado enterro do baca­lhau, temos mais uma vez a gastronomia. O bacalhau, símbolo de alguma fartura, simboliza aqui, também, a satisfação e a folia vividas, que vão acabar, vão acabar porque se aproxima um período de jejum e penitência, conforme os preceitos da igreja católica. 

João Reboredo

Enterro do bacalhau, em Penacova 1932

Enterro do bacalhau...

__________________________________________________

Imagens da responsabilidade do Kuentro

__________________________________________________

 
Locations of visitors to this page