segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

JOBAT NO LOULETANO — 9ª ARTE — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (LXXXVIII e LXXXIX) — JOSÉ RUY SOBRE EDUARDO TEIXEIRA COELHO (8 e 9)




NONA ARTE 
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(LXXXVIII – LXXXIX)

O Louletano, 30 de Abril de 2007

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO - 8
Recordações de Tertúlia confidenciadas por José Ruy

O Eduardo Teixeira Coelho é um artista que se adapta a quaisquer sistemas ou condições de trabalho. Uma pequena prancheta sobre os joelhos, um frasquinho de tinta-da-china colado a uma madeirinha para evitar entornar-se e ei-lo a trabalhar.

Para «O Mosquito», criou uma técnica de produzir as suas bandas desenhadas: idealizava uma história, e página a página fazia um croquis sucinto, em papel ordi­nário, ao tamanho da revista, para estudo da composição artística. Só depois desenhava as ilustrações definitivas ao dobro do formato da revista. Nos espaços destinados à inclusão das legendas, ele rascunhava a lápis a ideia do texto, com expressões cheias de comicidade. Então, com essas indicações e olhando os desenhos acabados e cobertos a tinta-da-china, o genial Raul Correia dava largas à sua imaginação, construindo um texto com o seu incomparável estilo tão rico e fluente.

Eis algumas ilustrações das «Lendas das Moiras Encantadas» publicadas na «Formiga», suplemento do Jornal «O Mosquito» N.°s 741 e 746. Era assim que ele enviava os originais ao escritor Raul Correia.


Sob o desenho 1 pode ler-se, pelo punho do artista, as bem-humoradas indicações: O grande diz- Retira-te Pepe duma cana não terás a moça.

No desenho 2: Pepe fulo «avinça» disposto a matar o grande mas o cujo é duro e a lança lasca-se.

Desenho 4: Nada podes comigo idiota, põe-te a andar. Desenho 5: A fugir eu? Quem vai cavar serás tu!

A partir daqui, Raul Correia escreveu então um maravilhoso texto em verso.

Página finalizada. In A Trilogia das Mouras, edição de Manuel Caldas, 1997

No pormenor desta outra página da mesma história, pode ler-se outro texto cheio de graça:

Pepe penetra no cujo vale o qual cujo tem à entrada uns animais cujos. Pepe passa sem nada de especial. Este Vale por muitas e des­vairadas razões vai chamar-se vale do terror cujo.

Mais uma vez se prova o saudável humor que tão bem caracteriza a maneira de ser deste grande artista.


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O Louletano, 7 de Maio de 2007

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO - 9
Recordações de Tertúlia confidenciadas por José Ruy

Esta é realmente uma verdade amarga que se repete neste nosso meio tão restrito e fechado aos artistas. Recordo o momento em que este artista chegou à conclusão de que não havia trabalho para si, aqui em Portugal. Poderá pensar-se que a ajuda com que o seu país natal contribuiu para a sua consagração, foi deixá-lo partir. Se tivesse ficado, teria como cu, durante esses 27 anos*, de ter trabalhado em publicidade, capas de livros, desenho de letras, em artes gráficas... espe­cializando-se constantemente em novas actividades, e ao conseguir essa especialização, recomeçar, por se ter acabado o mercado da actividade anterior.

Era nosso hábito rirmo-nos das «sábias» aprecia­ções de certos críticos de arte, que naquela época «botavam opinião», sem nunca terem experimentado pegar num pincel ou num lápis, a não ser para fazerem contas... recebidas. Mas eles é que sabiam. E punham uns «por cima» e outros «por baixo» conforme o seu agrado ou desagrado. Nessa altura, nem falavam na Banda Desenhada; era uma «Arte Menor».

Hoje já se aceita a B.D. Mas as situações repe­tem-se como há 37 anos*.

O Coelho costumava co­mentar sobre isso: «Quando o artista morre, a sua obra, boa ou má, fica. Dos críticos não fica nada. Tal como dos seres que morreram há mi­lénios, restam hoje os seus esqueletos, mas dos vermes que os devoravam... nem o pó!»

Por isso ele nunca expôs. Estávamos em princípios de 1947. O Artista Leitão de Barros, genro do Mestre aguarelista Roque Gameiro, organiza um grande cortejo históri­co para assinalar as comemorações do oitavo centenário da tomada de Lisboa aos mouros. Ele precisava de um bom desenhador para os trajes e maquetas das inúmeras fases e sec­ções do desfile. Tratava-se de uma evocação da História de Portugal apresentada ao vivo num monumental cortejo, onde desfilavam desde a noite dos tempos, os romanos, os árabes, as descobertas no mundo...

* Texto escrito em 1981-82

Estudo para uma figura do Cortejo Histórico. 20,1x16,4cm
e
"Uma figura do Cortejo Histórico. Desenvolvimento do título de D. Manuel (A índia)". Versão impressa.



"A charola de Santo Eloi dos ourives e a bandeira do ofício da corporação no Cortejo Histórico de Lisboa". (Desenho especial para O Século). 1947. Versão impressa.
  
"Um Pormenor do grupo da Pérsia: o andor do xá, no desenvolvimento do título de D. Manuel I, no Grande Cortejo Histórico de Lisboa". (Desenho especial para O Século). 1947. Versão impressa.

Imagens retiradas de ETCoelho - A Arte e a Vida, de António Dias de Deus e Leonardo De Sá, 
Edições Época de Ouro, 1998

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15 e 16

Baseado no conto de Eça de Queiroz 
Desenhos de Eduardo Teixeira Coelho



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