segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

JOBAT NO LOULETANO — 9ª ARTE — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (LXXXVI e LXXXVII) — JOSÉ RUY SOBRE EDUARDO TEIXEIRA COELHO (6 e 7)




NONA ARTE 
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(LXXXVI – LXXXVII)

O Louletano, 16 de Abril de 2007

Caros Leitores

Devido a questões técnicas surgidas pela alteração de jornal para revista mensal, e a problemas de saúde, não nos foi possível a publicação desta secção a partir de Janeiro de 2006, pelo que retomamos hoje a publi­cação no ponto em que a suspendemos. Todavia, por falha técnica de revisão, repetimos a página publicada na passada semana tal como a tínhamos idealizado. As nossas desculpas pela indesejada interrupção. J.B.

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO (6)

Recordações de Tertúlia confidenciadas por José Ruy

Uma das figuras mais válidas da tertúlia era um jovem escritor de contos e novelas cheios de interesse. Tal como o Coelho, usava tam­bém outros nomes: «J. Montes de Oca», «Juan L.Guanche», «Peter Tenerife»... era o Padinha.

A força dos seus escritos, es­tava na verdade que emanava da sua experiência, pois entre outras coisas, havia ser­vido na Legião Estrangeira, tinha sido frade e era na altura um pacato empregado de uma companhia de na­vegação.

O Padinha alter­nava as suas novelas com as do grande Raul Correia e ou­tros colaboradores. Uma dessas novelas era passada no norte de Africa.

No nosso grupo havia também um rapaz que nascera em Casablanca e sabia árabe. A pe­dido do Coelho, escreveu-lhe uma frase nesse dialecto para incluir numa ilustração.

Na semana se­guinte, fala para «O Mosquito» um senhor a dizer que não tinham vergonha de publicar uma coisa daquelas num jornal infantil... é que a frase em árabe significava um palavrão. Claro que o Vieira ia mesmo apanhando. Mais tarde consegui adquirir um dicionário árabe para não cairmos em situações idênticas.

Quando Coelho casou, convidou o Hogan para ir a sua casa jantar. Deu-lhe a morada, recomendando atenção, pois a escada tinha direito, frente e esquerdo. E o nosso Hogan lá foi. Tocou à campainha, veio uma pequena abrir, a quem perguntou pelo Coelho e ela mandou-o entrar deixando-o sozinho na sala.

A casa, recheada de móveis an­tigos, parecia um ovo. Nas paredes retratos de senhores com grandes bigodes; sobre mesinhas de xarão, flores embalsemadas dentro de re­domas; no chão, uma pele de tigre espalmada, cuja cabeça parecia olhá-lo com os seus olhos de vidro.

 

A demonslrar o sentido de humor de Coelho, aqui mostramos o desenho original - em cima [à esquerda neste post] - que serviu para a vinheta de abertura no Almanaque do "Mosquito" 1945. Repare-se junto ao nome do grande escritor e poeta Raul Correia, por quem ele tinha uma especial simpatia, a figura brincalhona que o E.T.C. fez. Claro que como podem verificar - em baixo [à direita neste post] - este boneco foi apagado na impressão.

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O Louletano, 23 de Abril de 2007 

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO (7) 
Recordações de Tertúlia confidenciadas por José Ruy 

O Hogan estava de boca aberta. E depois de se abismar a olhar os reposteiros bafientos e os pisa-papéis que nevavam dentro quando agitados, uma dúvida lhe assaltou o espírito: aquela não era a casa do E.T. Coelho. Não podia ser. O tempo passava e ninguém aparecia. Tossiu alto para se fazer lembrado, mas nada. Viu que passava muito da hora combinada para o jantar e alarmou-se. Bateu com os nós dos dedos na ombreira da porta do corredor, chamou quase a gritar. O Hogan estava tão impaciente que ao surgir por fim uma senhora, dirigiu-se-Ihe à queima-roupa: - Desculpe, eu estou enganado, não é a casa de Eduardo Coelho, pois não?! Boa noite... e dirigiu-se para a porta da rua para onde saiu ante a surpresa da dona da casa. No prédio ao lado, o E.T. Coelho e a esposa terminavam o jantar, julgando que o amigo tivesse faltado ao convite. Foi uma risota quando ele contou o que lhe acontecera...

O E.T. Coelho fa­zia os seus vigorosos estudos de cavalos no quartel militar de Lanceiros. Eu dese­nhava-os na Escola do Exér­cito, onde conseguira uma au­torização especial. Algumas vezes ía­mos os dois aí desenhar os belos exemplares que treinavam para concursos hípicos. Era um trabalho exaustivo, fixando movimentos de saltos, em corrida... e até de quedas, com meia dúzia de traços, em poucos segundos.

Uma tarde saímos de uma dessas sessões de desenho, e como era nosso hábito fomos até ao «Século Ilustrado» onde trabalha o Rodrigues Alves. Como de costume todos nos rodearam na sala para verem os croquis: o Baltazar, o Domingos Saraiva, o Meco.

O mestre Alves sempre efusivo apreciava os desenhos com adjectivos, terminando sempre com uma frase muito sua: - Vocês são umas feras!

Nesse dia ele voltou-se para os colegas do jornal e exclamou: - Os desenhos do E.T. Coelho são tão reais, que até cheiram a cavalo! Todos concordaram. Realmente havia um cheiro a cavalo na sala. Éramos nós, que tínhamos impregnado nas roupas o odor peculiar dos cavalos. Usávamos os mesmos fatos próprios destinados a essas sessões. Claro que ao explicarmos a origem do cheiro, houve gargalhada geral.

Esboços de Eduardo Teixeira Coelho tirados do natural

Digitalizado de ETCoelho, a Arte e a Vida, de A.Dias de Deus e Leonardo De Sá. 
Edições Época de Ouro, 1998

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13 e 14

Baseado no conto de Eça de Queiroz 
Desenhos de Eduardo Teixeira Coelho



(Continua...)

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