terça-feira, 2 de abril de 2013

JOBAT NO LOULETANO — 9ª ARTE — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (C e CI) — JOSÉ RUY SOBRE EDUARDO TEIXEIRA COELHO (21 e 22)




NONA ARTE 
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(C - CI)

O Louletano, 23 de Julho de 2007 

(...Continuação)

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO - 21 
Recordações de Tertúlia confidenciadas por José Ruy 

» Uns anos mais tarde, já o meu amigo Coelho estava radi­cado em França, consegui com o E. Carradinha finalmente editar «O Mosquito» em 2ª série.

Mas os tempos eram ainda mais difíceis então. E ao fim de 30 números tive de interromper a sua publicação... e ficar anos a pagar o dinheiro que entretanto me tinham emprestado para o empreendimento. Pobrezinho mas honesto.

Capa do N° 1 de "O Mosquito", segunda série, volume 1, saído em 16 de Novembro de 1960, publicado por José Ruy, autor destas memórias

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Em fins de 1950, num dia gélido em que o E.T. Coelho - sentia mais frio por dentro do que por fora, resolveu angariar um trabalho de publicidade.

Claro, que podia ir a uma agência da especialidade e habi­litar-se a executar uns anúncios nos moldes tradicionais, mas o Coelho já naquela época não era um vulgar profissional. Passou então a vista pelas empresas que poderiam dar publicidade, debruçou-se na «Companhia de Cervejas», na altura sem concorrência, e pensou na melhor maneira de aplicar o seu potencial artístico numa publicidade até aí inédita em Portu­gal. Fez umas ilustrações a tinta da China (melhor, uns quadros à pena) e apresentou-se na direcção da Companhia, sugerindo a publicação nos jornais diários de uma sequência contando a história da cer­veja através dos tempos... dos egípcios até aos nossos dias. Recebido primeiro na rotina dos an­gariadores que sistematicamente os assediavam, os respon­sáveis debruçaram-se imediatamente no trabalho do artista. A despedida, teve honras de acompanhamento até à porta, demonstrando sem retraimento o quanto estavam gratos por ele se ter lembrado primeiro daquela Empresa.

- Sabe - disseram-lhe - todos os dias nos chegam publicistas com ideias e ofertas que não chegam a concretizar, ou que no final não correspondem em nível ao resultado prometido. O senhor pelo contrário, apresenta-nos já um trabalho pronto e uma ideia completamente inédita.

Pouco tempo depois, uma antiga marca de licores solici­tava do Coelho uma série de anúncios nos mesmos moldes, contando a história dos licores no decorrer dos tempos. Esse trabalho resultou em verdadeiras obras-primas, pequenos tratados de desenho à pena. Conseguiu o mesmo volume, o mesmo poder de expressão, o mesmo movimento e compo­sição dos grandes mestres da pintura nas suas telas a óleo. Isso apenas com um aparo, tinta da China e um papel barato de desenho, de fabrico português; bons tempos quando nós, os ilustradores portugueses, tínhamos um papel nacional que aguentava tinta da China. Agora tem de ser importado. »»

Desenho publicitário executado por E.T. Coelho para uma conhecida marca de cervejas

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O Louletano, 30 de Julho de 2007 

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO - 22 
Recordações de Tertúlia confidenciadas por José Ruy 

» Estas iniciativas, a par do seu saber, provam mais uma vez que Eduardo Teixeira Coelho é realmente um génio. O verdadeiro génio é o que consegue pôr o ovo em pé pela primeira vez, como Cristóvão Colombo. Todos os outros que vêm a seguir fazer o mesmo, só depois de terem visto como é, não passam de «partidores de ovos». O Coelho chamava-lhes «académicos», aos que sempre seguem as pisadas... de um Da Vinci, de um Rubens, de um Picasso. Fazem obras à maneira dos outros, no mesmo estilo e com a mesma técnica, mas sem personalidade própria. E quantas vezes esses seguidores se tomam mais conhecidos do que o verdadeiro Mestre, até que o tempo faça a sua justiça.

Pois o Coelho pôs alguns «ovos em pé» para que muitos vissem como se fazia.

Criou uma técnica, um estilo e todo um processo, que motivou na Península Ibérica uma lufada de ar fresco, quase uma corrente de ar. Podemos observar nos seus primeiros desenhos publicados na «Colecção Aventuras» e no «Engenhocas» das Edições «O Mosquito», uma preocupação maior em apresentar um bom desenho do que uma técnica «bonita», podemos rever essa época do artista. Usava pincel, nem sempre novo e a «fazer bico», pois até com material em mau estado ele tirava efeitos convenientes. Nessa altura, que abrange as ilustrações das novelas «Suniana, o rebelde» e «Jim West», no «Mosquito», vemo-lo com uma técnica segura e viril, como um Matt Clark, ilustrador americano.

O mestre Rodrigues Alves frequentava a Sociedade Nacional de Belas Artes, na Rua Barata Salgueiro, em Lisboa, onde praticava desenho nas aulas noc­turnas. Travou aí conhe­cimento e mais tarde uma grande amizade com um rapaz que também queria aperfeiçoar o seu dese­nho. Logo de inicio esse rapaz se evidenciou, e o professor achou que nada mais lhe podia ensinar. Tratava-se do Coelho. O mestre Alves levou-o a sua casa e mostrou-lhe as ilustrações dos jornais americanos. O nosso ami­go Coelho tomou con­tacto com processos de execução a preto e branco de artistas novos para si, como um Matt Clark, um Milton Caniff, Fred Harman, Rex Maxon, ou um Alex Raymond e Harold Foster. Os primeiros trabalhando a pincel, e os dois últimos com aparos metálicos utilizando o pincel apenas como apoio.

O mundo estava em guerra e os materiais de desenho, como outros importados eram de difícil aquisição. Os pincéis de Marta rareavam e eram muito caros, estragando-se rapida­mente com a tinta da China; isto levou o Coelho a trocá-los pelos aparos metálicos. Então, nas zonas de desenho que até aí ele resolvia com manchas arrojadas de negro, repre­sentando sombras, passou a trabalhá-las à ponta de aparo, preocupando-se em conseguir as meias-tintas existentes dentro das sombras, até nas mais densas. Os seus desenhos começaram a ter um aspecto diferente, devido ao material usado, o aparo, fazendo lembrar o Alex Raymond ou o Hal Foster, mas a sua base de desenho nada tinha a ver com esses desenhadores, nem mesmo a sua técnica.

Quem conhece os suplementos dominicais dos jornais americanos, de grande formato, pode verificar o encanto pro­duzido pelas páginas do Foster, que continham apenas sete ou oito desenhos, o que permitia que cada um tivesse dimensão suficiente para se apresen­tar como um quadro, rico de pormenores.

Alex Raymond, Cani­ff e outros, dispunham só de meia página ao baixo, onde incluíam cerca de 9 ou 10 desenhos. O Coelho que só conhecia 88 repro­duções já coloridas dos jornais, resolveu passar a tinta da China uma página, para ver o seu efeito a preto e branco.

Em 1948, já nos era possível ver provas a preto, impressas em papel Couche, enviadas pela «King Features Sundicate» para a Europa. Há uma grande diferença entre o ver como outro artista resolve certos problemas e aproveitar essas soluções como suas. Por influência do Coelho, tenho preterido fazer tantas vezes desenhos imperfeitos, mas conseguidos só com o meu esforço, estudando directamente os elementos.

Há 37 anos que estudo a natureza, os animais, a figura humana, e hoje continuo a usar modelos vivos para as his­tórias que faço, sem receituário.

Usar uma técnica «à Coelho» ou «à qualquer outro», é como que vestir o fato de outra pessoa, com as mangas curtas e as calças a cair...

Desenho publicitário executado por E.T.Coelho para uma conhecida marca de licores

(Continua...)

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27 e 28

Baseado no conto de Eça de Queiroz 
Desenhos de Eduardo Teixeira Coelho

 

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