segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A I REPÚBLICA NA GÉNESE DA BANDA DESENHADA PORTUGUESA E NO OLHAR DO SÉCULO XXI – UMA EXPOSIÇÃO NO CNBDI QUE SERÁ EXPOSIÇÃO CENTRAL DO FIBDA DESTE ANO

O CNBDI – Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (e por via dele, a Câmara Municipal da Amadora) tem patente até amanhã a exposição A I REPÚBLICA NA GÉNESE DA BANDA DESENHADA E NO OLHAR DO SÉCULO XXI. A exposição encerra amanhã, dia 5, com o programa que se transcreve abaixo e vai desdobrar-se em mais dois formatos: de 22 de Outubro a 7 de Novembro será a exposição central do 21º FIBDA e até Agosto de 2011 estará disponível para itinerar e percorrer o território nacional.

A propósito desta exposição foi editado “A República – Jornal de Banda Desenhada”, edição da C.M.A., de Maio de 2010, com coordenação editorial de Cristina Gouveia, design de Henrique Cayatte, colaborações várias, com tiragem de 1.000 exemplares e do qual saíram 2 números.

Bem, isto que vou dizer não é sobre BD, mas tenho que o dizer:

O que a mim me espanta nesta roda-viva de comemorações do centenário da República, é o festejar-se, pelo actual regime, dito democrático representativo, a instauração de uma ditadura que, sob a designação de República, governou este país durante quase 16 anos. Considero que a haver República, ela só se iniciou em 25 de Abril de 1974. Aquilo a que chamamos 1ª República, foi de facto uma ditadura do então Partido Republicano (depois reconvertido em Partido Democrático). Essa ditadura, mudou, por exemplo, a bandeira, contra as opiniões maioritárias do país – opiniões dos “esclarecidos”, claro, porque o resto da população (os outros 80%) nem sequer percebeu bem o que se estava a passar. E esta “maioria” queria apenas que se tirasse a coroa da bandeira azul e branca. As cores vermelho/verde eram as cores da Carbonária, a que pertencia grande parte de elite política do Partido Republicano/Democrático, por muitas explicações de "significados" que depois se arranjaram para elas. Basta ainda dizer que a “democracia” implantada a 5 de Outubro, na legislação que o Partido Republicano/Democrático aprovou, foram proibidos de votar todos os analfabetos e… as mulheres, ou seja, os tais 80% que refiro acima. Para esclarecer isto, é preciso dizer que a legislação da Monarquia não fazia estas restrições, pura e simplesmente não as referia.

É claro que existiram algumas coisas positivas, mas o facto é que se tratou de uma época de ditadura, a que se seguiu outra ditadura, esta pessoal entre 1933 e 1974 e, quanto a mim, só nesta última data é que se implantou uma República neste país.

A propósito das “Comemorações”, leiam, se fazem favor, o texto de Vasco Pulido Valente (historiador especialista no período em questão), publicado no Público de 2 de Outubro, que transcrevemos no final deste post.
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CONVITE DO CNBDI
 
Com o intuito de assinalar o dia da Implantação da República e o encerramento da exposição A I República na Génese da BD e no Olhar do Século XXI, o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem organiza, em parceria com a Junta de Freguesia da Venteira, uma iniciativa comemorativa do 5 de Outubro de 1910, com o seguinte programa:

- 15h - Homenagem a Vitorino Gonçalves dos Santos, um dos heróis da Rotunda, e pai de Fernando Piteira Santos (professor, escritor, jornalista e editor) com descerramento de uma placa no local da sua antiga casa (Rua Diogo Bernardes nº 34)

- 15.30h - “A Venteira e a I República”, apresentação histórica feita por João Castela Cravo sobre os três ilustres republicanos da Amadora: Alfredo Roque Gameiro, Delfim Guimarães e Vitorino Gonçalves dos Santos (Casa Roque Gameiro)

- 17h - Visita guiada à exposição do CNBDI, com intervenções dos vários investigadores de Caricatura, BD, Cinema de Animação e História Local que nela participam.

Contamos com a sua presença.

PARA MAIS INFORMAÇÕES:

AMADORA BD - Festival Internacional de Banda Desenhada

Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem

Av. do Brasil, 52 A, 2700-134 Amadora, Portugal Telef: (+351) 21.436.90.57 - Ext: 5520 - Fax: (+351) 21.496.23.53 amadorabd@cm-amadora.pt - http://www.amadorabd.com/

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A REPÚBLICA - JORNAL DE BANDA DESENHADA












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Jornal Público, 2 de Outubro 2010

in rúbrica "Opinião", por Vasco Pulido Valente

A República foi feita pela chamada "geração de 90" (1890), a chamada "geração do Ultimatum, educada pelo "caso Dreyfus" e, depois, pela radicalização da República Francesa de Waldeck-Rousseau, de Combes e do "Bloc des Gauches" (que, de resto, só acabou em 1909).
Estes beneméritos (Afonso Costa, António José d'Almeida, França Borges e outros companheiros de caminho) escolheram deliberadamente a violência para liquidar a Monarquia. O Mundo, órgão oficio do jacobinismo indígena, explicava: "Partidos como o republicano precisam de violência", porque sem violência e "uma perseguição acintosa e clamorosa" não se cria "o ambiente indispensável à conquista do poder". Na fase final (1903-1910), o republicanismo, no seu princípio e na sua natureza, não passou da violência, que a vitória do "5 de Outubro" generalizou a todo o país.

Não admira que a República nunca se tenha conseguido consolidar. De facto, nunca chegou a ser um regime. Era um "estado de coisas", regularmente interrompido por golpes militares, insurreições de massa e uma verdadeira guerra civil. Em pouco mais de 15 anos morreu muita gente: em combate, executada na praça pública pelo "povo" em fúria ou assassinada por quadrilhas partidárias, como em 1921 o primeiro-ministro António Granjo, pela quadrilha do "Dente de Ouro". O número de presos políticos, que raramente ficou por menos de um milhar, subiu em alguns momentos a mais de 3000. Como dizia Salazar, "simultânea ou sucessivamente" meio Portugal acabou por ir parar às democráticas cadeias da República, a maior parte das vezes sem saber porquê.

E em 2010, a questão é esta: como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista em que reinavam "carbonários", vigilantes de vário género e pêlo e a "formiga branca" do jacobinismo? Como é possível pedir a uma cultura politica assente nos "direitos do homem e do cidadão" que preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos uma vasta e indeterminada multidão de "suspeitos" (anarquistas, anarco-sindicalistas, monárquicos, moderados e por aí fora)? Como é possível ao Estado da tolerância e da aceitação do "outro" mostrar agora o seu respeito por uma ideologia cuja essência era a erradicação do catolicismo? E, principalmente, como é possível ignorar que a Monarquia, apesar da sua decadência e da sua inoperância, fora um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês, que o "5 de Outubro" trouxe a Portugal?

(Adaptação do prefácio à 6.ª edição do meu livro O Poder eo Povo).

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