quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

JOBAT NO LOULETANO — 9ª ARTE — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (LXXXII e LXXXIII) — JOSÉ RUY SOBRE EDUARDO TEIXEIRA COELHO (2 e 3)

Esboço de ETCoelho
reproduzido de ETCoelho - A Arte e a Vida, de Leonardo De Sá e António Dias de Deus, 
Edições Nonarte, 1998


NONA ARTE 
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(LXXXII – LXXXIII)

O Louletano, 29 de Novembro de 2005 

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO (3) 
Recordações de tertúlia confidenciadas por José Ruy 

O Princípio da sua carreira em Portugal

Recordar a minha convivência com Eduardo Teixeira Coelho é reviver aminha própria juventude, uma parte da minha vida. Olho para trás... E reconheço, só por isso, que mereceu a pena.

Todas as pessoas que vivem intensa­mente para um trabalho que os realiza, sem horas de repouso ou para refeição, necessitam por vezes de uma válvula de escape para extravasar a sua energia acu­mulada durante horas a fio, em busca, em estudo, sacrificando todo o resto.

Era uma tertúlia especial, a que se reunia no atelier da Calçada da Estrela. Uns desenhavam ou pintavam. Outros serviam de modelo. No fim todos se sentiam felizes, pois amavam o seu trabalho. Ficava num quarto independente por cima duma tasca com carvoaria, como era usual nessa época. Existia aí um cepo de árvore onde o carvoeiro rachava os cavaquitos de lenha que também vendia. Esse cepo era cobiçado pelo Coelho, que um dia, a troco de uns escudos, o levou para o atelier. Mal sabia ele (o cepo) as mirabolantes peripécias por que iria passar.

O cepo servia para pedestal dos modelos, para que ficassem a um nível superior, facilitando a visãodos artistas. Colocado de lado também servia de «cavalo» aos supostos cavaleiros, para as cenas de cowboys.

Era costume o Coelho aos fins da tarde ir desenhar modelo. Sobre o cepo, o irmão do Vasco Hogan, o grande pintor (nessa altura ele ja era grande pintor, mas as «pessoas entendidas» não o viam...) que prati­cava atletismo e servia para as figuras bem musculadas que apareciam nos desenhos do Coelho publicados no «Mosquito».

Estava em curso uma história com índios, e o modelo precisava de estar nu. Súbito, batem à porta. Paragem no trabalho, o modelo a vestir-se à pressa, o Coelho a ir abrir... era o padeiro. Nessa época havia distribuição de pão ao domicílio, duma fornada ao fim da tarde.

– Não é aqui, é na porta ao lado – disse o Coelho, contrariado com a interrupção. Voltou-se ao trabalho.

No dia seguinte à mesma hora, continuava a sessão de modelo, batem outra vez à porta. Repetição da cena do modelo a vestir-se, o Coelho a ir abrir... era de novo o padeiro.

– É na porta ao lado!

Dois dias depois, o modelo sentado no cepo segurando uma lança, o Coelho a desenhar, bem como o Hogan e o Rodrigues Alves, cada um do seu ângulo aproveitando as poses. Ouviram-se passos na escada que pararam ao pé da porta, e nitidamente o ruído dum cesto apousar pesada­mente no chão. Acto contínuo batem à porta. Houve um entre olhar mudo entre os presentes. O Coelho esboça o gesto de se levan­tar, mas o irmão do Hogan ergue-se da pose e diz: – Deixa, eu vou lá.

Agarra no cepo que pesava mais de vinte quilos e bruscamente atira-o contra a porta que estremece toda, e depois cai no chão fazendo barulho tremendo. Rapidamente abre a, porta e aparece o pobre padeiro, mal refeito do susto que apanhara, a olhar atónito para o irmão do Hogan nú na sua frente que lhe diz com a voz mais calma e amável deste mundo: – É na porta ao lado, se faz favor!...

O padeiro não voltou a enganar-se na porta, e naquela tarde ninguém conseguiu desenhar mais. O mestre Rodrigues Alves então, soltando enormes gargalhadas sentava-se no chão para poder rir até às lágrimas. Claro que os vizinhos não gostavam nada destas tropelias e volta não volta estavam a reclamar.

Então para os aborrecer, chegou-se a pagar vinte escudos a uns cegos que costumavam passar na rua, tocando e cantando (mas muito mal, coitados) para ficarem à porta do prédio a «tocar» durante uma hora. Mas antes saía tudo do atelier... pudera!

Também de noite mantinha a actividade no atelier. Foi descoberta uma vez a presença de um casalinho que se entretinha a namorar no patamar ao fundo das escadas, às escuras. »» 

Ayak, le Loup Blanche, publicado em "Le Nouveau Pif" nº 1987/760, de 13 de Outubro de 1983 
Prancha reproduzida de ETCoelho - A Arte e a Vida, de Leonardo De Sá e António Dias de Deus, Edições Nonarte, 1998

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O Louletano, 6 de Dezembro de 2005 

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO (4) 
Recordações de tertúlia confidenciadas por José Ruy 

Uma noite já tarde, acabando o serão, nos preparativos para a saída alguém lembrou:

– O casalinho estará lá em baixo no namoro?

Fechou-se a luz, e pé ante pé, vai de escutar no escuro da escada. Efectivamente ouvia-se uma leve restolhada. Então com todo o cuida­do, lá vem o cepo em braços... e é largado degraus abaixo, fazendo um estrondo dos diabos. O casalinho saltou para a rua em desalinho sem saber o que se estava a passar, os vizinhos vieram às portas... e o grupo abalou calçada abaixo, rindo a bandeiras despregadas. A existência da tasca por baixo do atelier facilitava os que tinham necessidade de se «aquecerem» nas noites frias de Inverno. No intervalo de uma sessão, o que estava a servir de modelo, veste o casaco pelo avesso e diz:

– Eu já venho, vou beber um copo.

Vias o tempo passava e ele não regressava. Começaram então a chamá-lo da janela. Invariavelmente ele ia gritando lá de baixo:

– Já vou!

Mas não ia. Então um do grupo agarra num jarro de água, vai à janela e chama de novo, em altos berros.

O outro vem à Dorta da tasca e olha para cima:

– Que é? Já vou!

Nesse instante o jarro despeja-se-lhe em cima. Só assim consegui­ram que o modelo voltasse ao atelier, escorrendo água, entre as garga­lhadas e caçoada de todos. Então, despindo o casaco com o forro todo molhado, pois estava vestido do avesso, ai dizendo, meio alegre:

– Do mal, o menos...

Quando acabou de voltar as mangas e o casaco ficou do direito, o que havia deitado a água parou de rir e soltou um grito:

– Mas... é o meu casaco! Ah, malandro!

Desta vez não foi só o Rodrigues Alves a rebolar-se no chão às gargalhadas, até o dono do casaco que por fim voltou a rir da situação criada.

As ilustrações que o Coelho fazia para as novelas do Mosquito eram, em permuta, publicadas em Espanha por Consuelo Gil, responsável pelas edições «Chicos». No país vizinho esses dese­nhos em breve faziam furor e alguns artistas até, seguiam o seu estilo. O mais curioso, é que os espanhóis fizeram textos completamente diferentes para aproveitarem as ilustrações, utilizando-as em nova sequência. Tal era a solicitação dos leitores espanhóis, pedindo histórias desenhadas por E.T. Coelho, que este chegou a fazer ilustrações de propósito para «Chicos» sobre textos de Javier Olavide e outros anónimos, ilustrações nunca publicadas em Por­tugal.

Ainda o mais curioso é que Eduardo Coelho publicou em Espanha a sua primei­ra Banda Desenhada, com o título «El Hechi­cero de los Matabeles»(1) em 2 de Feverei­ro de 1944, bem como outra histó­ria «Un Ji­nete del Oeste»(2), em 5 de Julho de 1944. Só anos mais tarde estas histórias viriam a ser publiçadas no «Mosquito» após a alteração do seu formato. A sua aventura «Os Guer­reiros do Lago Verde», a primeira efectivamente pu­blicada no Mosquito, antes das outras, foi inserida no «EI Gran Chicos» sete meses depois, em Novembro de 1945. «Os Náufragos do barco sem Nome», saiu no «Mosquito» a 2 de Fevereiro de 1946 e nos «Chicos» em Julho do mesmo ano. A saga de «Sigurd, o Herói», foi publicada como homenagem a Coelho no «Chicos» de 30 de Novembro dc 1947. »»

(1) Publicada no "Mosquito". em 1946, com o título "O Feitiço do Homem Branco".
(2) Idem. com o título "O Grande Rifle Branco".

Capas da revista "Chicos" com ilustrações de ETCoelho


Pranchas reproduzidas de ETCoelho - A Arte e a Vida, de Leonardo De Sá e António Dias de Deus, Edições Nonarte, 1998

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9 e 10

Baseado no conto de Eça de Queiroz 
Desenhos de Eduardo Teixeira Coelho



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