quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

JOBAT NO LOULETANO — 9ª ARTE — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (LXXXVI e LXXXV) — JOSÉ RUY SOBRE EDUARDO TEIXEIRA COELHO (4 e 5)


Vinheta de Ragnar, o Viking - ver pranchas mais abaixo


NONA ARTE 
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(LXXXIV – LXXXV)

O Louletano, 13 de Dezembro de 2005 

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO (4)
Recordações de tertúlia confidenciadas por José Ruy 

Um dia o mestre Rodrigues Alves, grande amigo comum, conven­ceu o Eduardo Coelho a fazer uns desenhos e a enviá-los à «King Features Syndicate», uma importante agência americana com vasta rede de distribuição de Banda Desenhada. O nosso amigo fez algumas páginas duma história com leões, de que é profundo conhecedor, enrolou-as e lá as mandou para a América. Passado tempo recebeu um largo embrulho, cuidadosamente embalado por forte cartão, que evitava o perigo de se dobrar. Envolvia-o um papel com alcatrão no seu fabrico, à prova de humidade. Dentro, os desenhos do Coelho, devolvidos pela «King Features», acompanhados de uma amável carta tecendo os melhores elogios ao trabalho, mas dizendo que lhes era impossível negociar histó­rias a tão grande distância. Se ele quisesse ir para lá, tinha uma porta aberta.

O Coelho não foi. Iria mais tarde mas por outra porta... Afinal para ele todas as portas estão abertas. E até aqui em Portugal de 1981, há esta revista (1) de tão grata tradição, que se orgulha de publicar histórias do grande artista. Sim, que a melhor, a única homenagem que se pode fazer a um artista da Banda Desenhada, é publicar-lhe a sua obra, pois os artistas para poderem viver do seu trabalho, precisam de receber dinheiro. A Banda Desenhada tem o seu estatuto: é um trabalho que não pode ser pago por uma só inserção. O esforço na preparação e estudo, só terá alguma compensação, pelas várias vendas em múltiplos jornais e revistas. É assim em todo o mundo. E cá em Portugal é necessário esclarecer alguns editores de que os nossos trabalhos já publicados, não devem ser tratados como material em segunda mão.

Era vulgar, à noite, enquanto Eduardo Coelho desenhava em sua casa o "Caminho do Oriente», eu acompanhá-lo, servindo-lhe de modelo, vendo os seus livros de arte, conversando de estilos, de História do Mundo, de música clássica, das nossas histórias...

Quantas vezes, verificava que o último carro eléctrico para minha casa estava perdido, então, apontava para o primeiro, às 5 da manhã.

Ele aproveitava para ir trabalhando, eu continuava a acompanhá-lo, instruindo-me, ávido da vida. Quando o Coelho me queria dar algum exemplo sobre desenhos, nunca o fazia sobre a sua própria obra. Baseava-se sempre no trabalho de outros artistas.

Uma vez, no fim de um longo serão, o Eduardo Coelho terminou mais duas páginas do «Caminho do Oriente», em cima da hora em relação à sua publicação no jornal «O Mosquito». Meteu-se num táxi e mandou seguir a toda a pressa para a redacção, Travessa de S. Pedro, n.° 9. Aí chegado, pagou rapidamente ao motorista, lançou-se para a escada alcançando o corredor que levava à recepção... e deu então por falta dos desenhos que haviam ficado esquecidos no táxi. Ainda correu para fora, mas em vão. O táxi desaparecera na rua D. Pedro V. E o Coelho tomou outro táxi à pressa, para casa, a repetir as páginas perdidas, noutro longo serão. »»

(1) Mundo de Aventuras



O CAMINHO DO ORIENTE – Episódio VI, de Raul Correia (arg.) e Eduardo Teixeira Coelho (des.). Pranchas digitalizadas do Volume 11 da Antologia da BD Portuguesa, das Edições Futura, 1983.
Este episódio foi inicialmente publicado n’O Mosquito, do nº 905 (25/2/1948) ao nº 941 (30/6/1948)

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O Louletano, 20 de Dezembro de 2005

O ARTISTA, O MESTRE, O COMPANHEIRO, O AMIGO (4)
Recordações de tertúlia confidenciadas por José Ruy 

O mestre João Rodrigues Alves, nosso amigo comum, e de quem já tenho falado, foi um dia ao atelier e experimentou uns novos lápis de pastel que o Coelho tinha descoberto numa papelaria. O material de desenho nessa altura era difícil de encontrar pois a guerra terminara havia pouco, e os fornecimentos não estavam ainda restabelecidos. Então Coelho ofereceu ao Rodrigues Alves os lápis e embrulhou-os num papel que apanhou à mão. O Rodrigues Alves soltou um grito de aviso: - Cuidado! isso são desenhos!

O Coelho olha melhor as cos­tas do papel e vê realmente uns croquins de elefantes que ele havia feito nessa semana. – Ah, não têm importância, não prestam. E com­pletou o embrulho. Claro que o Rodrigues Alves ao chegar a casa foi a correr desdobrar os magnífi­cos esboços passado-os a ferro e guardando-os religiosamente. Quem acompanhou a evolu­ção da carreira deste ilustrador na década de quarenta, reparou por certo, nos vários pseudónimos que o artista jocosamente usava para assinar os seus desenhos. Foram eles: «I.P. Serafim», que significava «Inocêncio da Purificação Serafim», «Filadelfo Postigo», «Ermengardo Pantu­fa», «Carnano», «Tòu-Tchai», um nome chinês que em português quer dizer «Canivete». No grupo que aparecia no «Mosquito» havia um rapaz chinês, de Macau, também pintor, que por vezes fazia da redacção seu atelier. Era o Sena Fernandes. E contava-nos longas histórias da China ensinando-nos chinês.

Foi nessa altura que eu andei entusiasma­do a aprender essa língua. Ainda tenho os respectivos livros de ensino e os dicionários. 

Ora estes pseudónimos eram a resposta à insistência das pessoas mais íntimas para que assinasse a sua obra já de tão alto nível. Demasiada modéstia? Sentido de humor? Sim, era na realidade uma parte resul­tante do seu bom humor. No entan­to nas Edições «Chicos» em Es­panha, ele nào se importava que publicassem o seu nome nas home­nagens justíssi­mas que lhe fize­ram, e até assina­va com E.T. Coe­lho. Claro que tudo na vida de Eduardo Coelho tem a sua razão, e neste ponto ele tinha uma bem forte para não assinar o seu trabalho nessa época. Razào que mesmo agora, nào me sinto autorizado a revelá-la. 

Por fim, o artista decidiu-se a utilizar as iniciais do seu nome, o que deu curiosairiente ETC. Ao chegar a França, e assinando assim, arrajou um novo pseudónimo, «Etcheveri». Mas pode o Eduardo Coelho não assinar, ou usar mil pseu­dónimos, que o seu inconfundível trabalho será reconhecido entre os de quaisquer artistas. Ele é na verdade como escreveu o grande desenhador espanhol Emílio Freixas, o «poeta da linha».

Ragnar, le Viking [4º episódio]. "Vaillant" nº 691 de 10 de Agosto de 1958 – 66,40 x 51,70cm

Ragnar, le Viking [4º episódio]. “Vaillant” nº 695, de 7 de Setembro de 1958 – 65,60 x 51,70cm

Ragnar, le Viking [4º episódio]. “Vaillant" nº 707, de 30 de Novembro de 1958 – 66,30 x 52,20cm

Pranchas digitalizadas de ETCoelho, a Arte e a Vida, de A.Dias de Deus e Leonardo De Sá. 
Edições Época de Ouro, 1998


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11 e 12

Baseado no conto de Eça de Queiroz 
Desenhos de Eduardo Teixeira Coelho


 
(Continua)

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