segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

JOBAT NO LOULETANO – MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (142-143) – NA PISTA DE UM SONHO (4 e 5) por José Batista


O Louletano, 14 | Julho | 2008

NA PISTA DE UM SONHO – 4 
Por José Batista

Os Quadros a óleo que ornavam o Salão Nobre do Palácio do Governador-Geral, tinham, até ao antecessor de Peixoto Correia, sido pintados na metrópole, pois não havia na então província da Guiné artista plástico qualificado que os pudesse executar. A presença de Augusto Trigo, com o mérito artístico que lhe era reconhecido, alterou a partir daí a necessidade de os mandar pintar no continente.

Bissau (anos 1960) - O Palácio do Governador-Geral

Assim sendo, posaram para ele, além do governador acima citado, Vasco Rodrigues e Arnaldo Schultz. António de Spínola, que substituiu este último, já não chegou a ser retratado, e bem assim o seguinte, Betencourt Rodrigues, o Governador-Geral na altura da eclosão do 25 de Abril.

A riqueza paisagística bem como os usos e costumes da Guiné, abundantes e variados, ofereceram a Augusto Trigo a oportunidade de os vazar em vários suportes, tais como o óleo, a aguarela e em múltiplos desenhos executados a bico de pena, expostos nas várias exposições em que participou, tanto na província como no continente. Os aqui apresentados, ilustrando estes textos, são apenas esboços tirados do natural, mas permitem, pela frescura e leveza do traço, aquilatar o nível alcançado pelo artista guineense.

Exposição de aguarelas e óleos no Museu da Guiné, em Bissau (1964), patro­cinada pela Repartição de Turismo de Bissau, com participação do Governo de então, sendo Governador-Geral o Comandante da Marinha Vasco Rodrigues.

A sua primeira exposição realizou-se no Museu da Guiné em Bissau, em 1964 – edifício que ficou bastante danificado devido aos confrontos armados que depuseram Nino Vieira em 1999 –, patrocinada pela Repartição de Turismo da Guiné, sendo Gover­nador-Geral o Comandante da Marinha Vasco Rodrigues, cuja temática versou unicamente áreas referentes a essa província, e a cujo evento assistiram as mais altas individualidades civis e militares da Guiné. Os trabalhos aí apresentados, dado o seu elevado nível artístico, foram na sua totalidade adquiridos tanto por elementos do governo da província como particulares que visitaram essa primeira exposição do artista.

O Museu da Guiné-Bissau - anos 1960

Estado actual do edifício...

O seu enorme êxito abriu caminho a uma outra, no ano seguinte – 1965 – realizada em Lisboa, nos salões do SNI, Secretariado Nacional da Informação, organizada pela Agência Geral do Ultra­mar e com o patrocínio da Liga dos Amigos da Guiné, instituição sediada nesta província, a qual contou com a presença do artista que propositadamente se deslocou a Lisboa para nela participar. A próxima terá lugar na Guiné, em 1972, já com as forças armadas independentistas a pressionar fortemente a soberania Portuguesa. Teve lugar no período do General António de Spínola, o qual ou chegou atrasado à inauguração ou esta abriu um pouco mais cedo que o previsto, pois que a maioria dos quadros expostos já ostentava – para sua irritante surpresa, quando chegou –, a marcação de reservados ou vendidos. Para satisfazer o apetite artístico do general e assim desbloquear a embaraçosa situação criada, o artista teve de recorrer aos quadros de reserva que por falta de espaço ou por outro qualquer motivo pessoal não tinha exposto, desfazendo-se, assim, de alguns que porventura teria guardado para si, como soi acontecer com a maioria dos pintores. »»

Vinhetas da série humorística inédita e inaca­bada, " A Vaca Sagrada de Mulei Molusco", ilustrada por Augusto Trigo na Guiné, em 1965.

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O Louletano, 21 | Julho | 2008

NA PISTA DE UM SONHO – 5 
Por José Batista

Esta exposição (1972) – na qual Spínola por um triz não encontrava quadros disponíveis – contou com a participação de dois elementos das Forças Armadas, sediados em missão de serviço na província, os quais apresentaram quadros de sua autoria, num estilo modernista e fora da temática guineense que Augusto Trigo retratava nas obras expostas.

O verismo e apuro da sua pintura fez dele o repórter gráfico por excelência dos costumes e paisagens locais, enriquecendo sobremaneira o património cultural da província que o viu nascer, deixando em várias zonas da Guiné o testemunho da sua arte e sensibilidade artística.

É o caso do mural de 3,5x2,5 m, que nesse fim de ano pintou perto da fronteira com o Senegal, retratando o costume local de uma dança de "Felupes", uma das tribos da Guiné, e que, embora deteriorado pela humidade salina do mar e dos maus tratos da violência armada de que foi testemunha e vítima – isto para não falar nos retoques de mau gosto que lhe fizeram –, ainda hoje se pode apreciar.

Em 1973 pressentia-se, no ambiente da Guiné, que algo poderia de um momento para o outro alterar a pacatez e monotonia da vida local. A luta armada intensificava-se, de parte a parte, trazendo algum desconforto ao dia a dia do comum dos habitantes da província. O Gabinete de Informação e Turismo, onde Augusto Trigo estava sediado, era também ocupado por um oficial da metrópole que mais tarde se destacaria como mentor operacional do Movimento dos Capitães, no 25 de Abril do ano seguinte: Otelo Saraiva de Carvalho, provando, se alguém ainda o duvidasse, que o mundo é na realidade uma aldeia muito pequena!

Exposição realizada em 1966, no SNI, vendo-se entre outros, à direita, de costas, o mestre Martins Correia a conversar com Augusto Trigo, e à esquerda, na foto, Jaime Pinto Bull, antigo Secretário-Geral do Governador.

Um acontecimento incomum tinha chocado por essa altura a brandura dos costumes e mentalidades dos habitantes dessa província. Um pequeno grupo de militares tinha caído numa emboscada e sido chacinado pelos chamados terroristas de então, sendo um deles o Capitão Passos Ramos, da arma de Artilharia, com o qual privei na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, em 57/58. Foi dos melhores oficiais que conheci, Homem probo, recto e afável, profundamente humano, íntegro e fraterno. Também por aqui se vê que o mundo é de facto pequeno.

O livro "Portugal e o Futuro", do General Spínola, tinha agitado na metrópole as mornas águas deste tépido e manso país de brandos costumes. O reflexo dessa agitação propagou-se como lume em erva seca por todo o torrão Português da altura. Certo fim de tarde, quando Augusto Trigo se preparava para sair devido a um convite que lhe fora feito pelo Secretário-Geral do Governador, dois mísseis cruzaram sibilando o céu de Bissau, algo que nunca tinha acontecido até então, alertando que o clima bélico se estava a complicar nesse território ultramarino. Foi-lhe recomendado que não saísse de casa e a tarefa adiada para o dia seguinte. A série ilustrada "Turu-Bã" foi desenhada nessa altura, umas páginas em casa, outras no Gabinete de Turismo. Ilustrou também, um livro escolar para a segunda classe, o qual continha nas suas páginas uma BD com seis vinhetas, uma historieta moralista intitulada "O Leopardo, a Gazela e o Caçador", cujo livro foi seguidamente publicado com larga temática dedicada à província. »»

Vinhetas da série humorística inédita e inaca­bada, " A Vaca Sagrada de Mulei Molusco", ilustrada por Augusto Trigo na Guiné, em 1965.

Planta de Bissau (anos 1960)

Vista aérea de Bissau (anos 1960)

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