domingo, 12 de janeiro de 2014

ZÉ DAS PAPAS (39-40) – TRADIÇÃO DE NATAL, QUE AINDA RESISTE – 13/dez/2013 – RÉVEILLON – 27/dez/2013

O "Zé das Papas", de Rafael Bordallo Pinheiro

ZÉ DAS PAPAS NA GAZETA DAS CALDAS (39-40)

Gazeta das Caldas, 13 de Dezembro de 2013

TRADIÇÃO DE NATAL, QUE AINDA RESISTE

Dei por mim a pensar no Na­tal, ao ser bombardeado pelos televisivos anúncios da Popota!
Estamos em tempo de Natal, tempos difíceis para muitos dos nossos concidadãos, e lembrei-me das escolhas para a Consoada, de Álvaro Cunqueiro Mora, que nasceu em Mondofiedo, na Galiza, a 22 de dezembro de 1911 e veio a falecer em Vigo, a 28 de fevereiro de 1981 e sobre quem já escrevi algumas linhas. Escritor e cronista de enorme talento e sucesso foi o maior gastrónomo galego.

As escolhas de Cunqueiro nós, especialmente os do Norte vizinho, também as fazemos.
É o tema de hoje: o Capão, que, já em tempos, de vida con­tida, era prato de Natal.

O eleito de Cunqueiro era o de Vilalva, Villalba de Lugo, das aldeias próximas de Xermade e de Noche, de San Juan de Alba e de Goiriz, cujas gentes acode puntual com os seus capóes em dezanove de Dezembro na feira villalbesa.

O dos nossos concidadãos é o de Freamunde, que a AderSousa - Associação de Desenvolvimen­to Rural das Terras do Sousa, divulga, e cujo saber me serve de guião.

Feira do Capão de Freamunde
Maria Fernanda Alves da Costa tem 73 anos e mora em Covas, Lousada e é das vendedoras de capões mais antigas da tradicional Feira de Santa Luzia que voltou a levar milhares de pessoas a Freamunde em 2013

O Capão de Freamunde, de Paços de Ferreira, é um frango de crescimento lento, da raça Gallus Domesticus, castrado antes de atingir a maturidade sexual e que se destina exclusivamente à produção de carne. O acto de capar remonta ao tempo dos Romanos. Parece que o Cônsul Caio Cânio, que não conciliava o sono por causa do cantar dos galos, fez aprovar uma lei impeditiva da sua exis­tência em Roma. Mas houve quem teimasse em usufruir da carne dos galos, capando-os. O capão, ultrapassa em beleza, tamanho e sabor, o galo macho. O destino casto concede ao animal um ar triste e enver­gonhado, mas torna-o gordo, opulento. A textura, suculencia e sabor, dão, à carne do Capão de Freamunde uma qualidade ímpar, cuja fama se prolongou ao longo de gerações e justifica a popularidade e fama da feira dos capões que se realiza em Freamunde a 13 de Dezembro, dia de Santa Luzia. A instituição oficial verificou-se em 1719, por provisão de D. João V; mas já al­guns séculos antes a prática de capar frangos e de os comercia­lizar era tradição na "freguesia de Salvador de Friamunde de honrra de Sobrosa, Concelho de Aguiar de Souza, Comarca do Porto...". Estudiosos indicam-no como costume medieval, de que há notícia em documentos do Séc. XV, muito antes da citada provisão, e que, no fundo, visava a sua legalização e a defesa dos interesses da Confraria de San­to António, em cujo terreiro as feiras se realizavam e das quais pretendia auferir proveitos. O melhor da feira, e que lhe trouxe fama e popularidade, é o imenso mercado de aves. Se o capão é o rei da festa, o peru – que à feira também ocorre em nume­rosos bandos – é a sua vistosa e majestosa corte. Este enorme arraial de emplumados empres­ta à feira um generoso e inigua­lável colorido, o que a torna no mais alegre e garrido cartaz de quantas manifestações popula­res do género se podem fruir na região de Entre-Douro-e-Minho. Não admira, pois, que milhares de forasteiros ocorram, nesta ocasião, a Freamunde vindos de todo o Portugal e até de Espanha, sobretudo da vizinha Galiza.


João Reboredo
joaoreboredo@gmail.com

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Gazeta das Caldas, 27 de Dezembro de 2013

RÉVEILLON

Começo por endereçar aos que me vão lendo desejos de um 2014 com paz, saúde e... a felicidade possível.

Embora muitos o saibam, lembrei-me de "pôr os pontos nos ii", quanto ao significado do título destas linhas.

O Réveillon significa, nos nossos dias, a festa em que se esconjura o ano (velho e muitas vezes chato, que nos trouxe tristezas e sofrimento) e incorpora o nosso firme desejo e esperança em que melhores dias nos esperam.

É claro que me atenho à pala­vra, já que a prática – como em tempos escrevi nestas páginas – vem de antanho e os registos gregos e romanos são abundan­tes e explicativos q.b..

Réveillon foi o nome dado à refeição tomada na noite de Natal, que, por extensão, se "transferiu" para a da passa­gem do Ano.
Vamos por partes: A palavra teria a sua origem em"re-veiller ", isto é começar uma nova ve­lada ou seja refeição.

Como escreveu Grimod de La Reyniere, no Almanach des gourmands esta refeição foi imaginada para os fiéis recu­perarem as forças, cansados de uma cerimónia litúrgica, longa de quatro horas, com os seus louvores corais ao Senhor, as longas homílias da circunstância e o caminho de ida e volta à Igreja.

Hoje, o réveillon é, especial­mente, ocasião de um bom convívio, em família ou entre amigos.

O réveillon está associado a ementas especiais, proposi­tadamente confeccionadas e pode dizer-se que o réveillon de São Silvestre representa a extensão laica da Consoada.

Nestas, como noutras oca­siões gastronómicas, a França ocupa o lugar de topo com refeições em que, tradicional­mente se servem (ou serviam, na pré-crise...) ostras – das quais as mais apreciadas são as portuguesas – Champagne, foie gras, lavagante, etc.

A refeição termina invaria­velmente com as "treze sobre­mesas de Natal", número que recorda os treze convivas da última Ceia de Cristo.

Por mera curiosidade deixo-Ihes alguns exemplos de igua­rias servidas na Europa.

Na mesa dos Ingleses é obri­gatório o Christmas Pudding. 

O Christmas Pudding

Em Itália, o panpepato, originá­rio de Ferrara, é o doce convida­do do réveillon de São Silvestre, mas cada terra tem seu uso.

O Panpepato

Em Bologna, capital das pas­tas frescas, o réveillon começa por tortellini recheados com picado de porco, de pato, de salsichão, de queijo e de noz moscada. Quanto a gulosei­mas, cito a nocciala com mel e nozes, cortada em triângulos, la cassata de ricotta e chocolate, bem como torrão de amêndoas.

La Nocciala

 La cassata de ricotta e chocolate

Na Alemanha, das nossas cogitações diárias.... é a carpa que merece o título de prato ritual do réveillon.

A carpa alemã

Os outros de resistência são o peru, o pato, o leitão de javali, um assado ou mesmo Schnitzel (escalopes panados).

Certos alimentos mantêm-se tradicionais, como as maçãs, as nozes e as amêndoas - sendo as primeiras o símbolo da árvore do Conhecimento, e os frutos secos, com casca, símbolo das dificuldades da existência.

O réveillon sueco foi indis­sociável da língua marinada e fumada, servida em molho branco com manteiga, batatas, mostarda e pimenta preta, cos­tume de vários séculos. Hoje, dá-se mais relevo, como aliás na Dinamarca ao pato recheado com maçã e ameixas secas, assado e guarnecido com couve roxa, batatas caramelizadas e molho de mirtilhos; uma espécie de arroz doce ou o arroz com amêndoas coberto de compota de cerejas constituem a sobre­mesa habitual.

João Reboredo
joaoreboredo@gmail.com

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