domingo, 29 de setembro de 2013

GAZETA DA BD (14) NA GAZETA DAS CALDAS – O CNBDI – CENTRO NACIONAL DE BANDA DESENHADA E IMAGEM



GAZETA DA BANDA DESENHADA (14)
NA GAZETA DAS CALDAS

in Gazeta das Caldas, 27 de Setembro de 2013

O CNBDI
CENTRO NACIONAL DE BANDA DESENHADA E IMAGEM
Jorge Machado-Dias

O CNBDI – Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem foi criado na Amadora, pelo então director do Festival Internacional de Banda Desenhada, Luís Vargas. Em primeiro lugar, para se desenvolverem actividades bedéfilas entre festivais, criando uma continuidade lógica, que tornasse a cidade da Amadora numa espécie de Angoulême cá do burgo – para quem não saiba, realiza-se nesta cidade francesa o maior festival de banda desenhada do mundo, durante apenas quatro dias (e não quinze como o Festival da Amadora), anualmente no final de Janeiro.

A própria designação CNBDI, é uma cópia do seu congénere francês. Mas vejamos, o Centre National de la Bande Dessinée et de l'Image, em Angoulême, foi formado sob a égide do então presidente Mitterrand e a batuta do ministro da Cultura Jack Lang, possuindo uma bedeteca, uma mediateca, e o museu de banda desenhada, tendo sido instalado num antigo edifício industrial, entretanto alvo de um projecto arquitectónico de recuperação notável, do arquitecto Roland Castro. Em 2008, o CNBDI foi extinto como tal, associando-se ao Laboratoire d'Imagerie Numérique (L.I.N.) – Laboratório de Imagem [impressa] Digitalizada –, à Escola Superior Europeia da Imagem e ao Atelier-Museu do Papel. Tudo isto para dar lugar a uma entidade muito mais abrangente, a Cité Internationale de la Bande Dessinée et de l'Image.

Bom, nada disto tem a ver com o CNBDI português, como podemos perceber. No entanto realizou-se neste o que é possível, e fazer-se alguma coisa neste campo, mesmo com alguns erros de casting à mistura, é algo de positivo. Um Centro deste género é fundamental para preservar o historial da BD portuguesa e também para incentivar as novas gerações à leitura e à prática desta disciplina. No entanto os sucessivos cortes orçamentais, por via dos problemas económico/financeiros que vivemos actualmente, têm vindo a fazer decair a actividade do CNBDI, dependente por inteiro da Câmara Municipal da Amadora, para níveis confrangedores.

Um dos erros de casting que referimos acima, e que tem dado origem às maiores polémicas: a palavra Imagem, que integra a designação do Centro e, como explica José Ruy em texto que publicámos em kuentro.blogspot.com, refere-se à fixação da banda desenhada em suportes digitais ou até mesmo o desenho animado. Este reparo tem a ver com a errada escolha de temas, por parte do CNBDI/Amadora, em pelo menos dois dos seus programas, que se pretendem tertulianos, intitulados Às Quintas Falamos de BD, primeiro aquele que se debruçou sobre Imagens da Guerra Colonial, com projecção do documentário de Diana Andringa, As Duas Faces da Guerra (31 de Maio de 2012) e o outro sobre Abril na BD - O Canto de Intervenção em Portugal e no Mundo (19 de Abril de 2013). Isto, como é lógico, não tem qualquer cabimento, mesmo que se queira falar nestas tertúlias, da relação da banda desenhada com “outras coisas”.

Contudo, o Centro teve na sua génese desenvolvimentos muito positivos, como a construção do famoso “bunker” para preservar os já cerca de 15.000 originais doados por diversos autores, – não só os clássicos nacionais, como também os modernos –, ou a constituição da bedeteca, abarcando cerca de 13.000 livros de e sobre BD. Ao longo dos muitos Festivais, autores portugueses e estrangeiros foram oferecendo livros de sua autoria que, com os adquiridos pelo próprio Centro atingiu um número considerável. Contudo a importância desta Bedeteca não o é apenas pela quantidade, mas sobretudo pelo seu conteúdo. A maior parte desses livros são hoje raridades, pois trata-se de edições de reduzidas tiragens e sem hipótese de reimpressão. Portanto, são praticamente livros únicos, consultados permanentemente e com todo o cuidado por investigadores e até editores, que dessa maneira puderam recolher para edições especiais, histórias franco-belgas há muito publicadas. Em muitos casos, nem as editoras de origem possuem hoje exemplares desses títulos.

No entanto, quando da inauguração da Biblioteca Municipal da Amadora, não havia livros de banda desenhada nas prateleiras previstas para o efeito. Então houve a brilhante ideia de ir buscar ao CNBDI dez mil livros dos treze mil lá existentes. Seria só para a inauguração da Biblioteca e que em breve voltariam para o Centro. Até porque os livros ali em exposição são raridades, e deviam estar em resguardo. Só que os ditos nunca mais regressaram ao CNBDI, até hoje. Tratou-se portanto de uma verdadeira destruição da bedeteca do CNBDI por parte da Biblioteca Municipal o que é completamente inconcebível.

Mas a actividade do CNBDI tem outras componentes, como a actividade editorial com a criação da colecção NonArte, os Catálogos das exposições, os Boletins de Informação e depois, a concepção e montagem de exposições na Galeria do Centro.

Acrescentemos que a organização do Festival de BD esteve sempre sedeada nas instalações do Centro até há poucos meses, quando se mudou para as instalações dos Recreios da Amadora, ficando no CNBDI apenas a sua directora, uma designer gráfica e uma funcionária de recepção. É, obviamente, “quase ninguém” para dar a esta instituição a actividade que necessitaria. Mas voltaremos a este tema em breve.

 O Centre National de la Bande Dessinée et de l'Image, em Angoulême

 O Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, na Amadora

O piso -1 do CNBDI. Em cima o famoso “bunker” onde se arquivam cerca de 15.000 originais de BD. Em baixo, aspecto da exposição “Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”, actualmente em cartaz.

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