segunda-feira, 2 de setembro de 2013

JOBAT NO LOULETANO (130-131) – AUGUSTO TRIGO (6 e 7)



NONA ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA
(CXXX – CXXXI)

O Louletano, 7 de Abril de 2008

O MENINO QUE
RABISCAVA PAREDES – 4
por: José Batista

Dotado de uma destreza manual incomum, Augusto Trigo aproveitava todos os momentos livres que a tarefa de traçar e executar os malhetes que disponibilizava para, com um pequeno canivete, esculpir pequenas figurinhas em curtos blocos de pinho sem utilidade para as aulas. Isso acontecia inclusive no recreio, pois enquanto os colegas se entretinham a jogar à bola ou nou­tras brincadeiras em que a juventude é pródiga, ele, afastado dos colegas, como quem faz maroteira, de canivete em punho moldava o que a sua ingénua inspiração, o material e o tempo livre tornavam possível.

Certa feita, o vigilante notou que um volume invulgar lhe preenchia o peque­no bolso das calças e, suspeitando que o mesmo fosse um maço de tabaco, – coisa proibida aos alunos na instituição, – exigiu que lhe mostrasse o que continha. Para sua surpresa, uma pe­quena figurinha do menino Jesus, em madeira, que não o suspeito tabaco, ca­tivou a sua atenção e, tomando-a entre mãos, afastou-se rumo ao gabinete do responsável má­ximo da instituição, o Provedor.

Um ou dois dias depois, que parece­ram anos, o vigilante informou o modesto aprendiz de carpintaria que o Provedor queria falar com ele. Seria que utilizar um pequeno e inútil troço de pinho, sem pedir autoriza­ção, daria motivo para ser castigado? A situação não parecia nada risonha para o jovem escultor que pressentia o pior.

Receoso, sus­peitando que alguma pesada repreensão viesse a caminho, foi com o coração nas mãos que Augus­to Trigo enfrentou nesse dia o respon­sável máximo. Mal entrou no seu ga­binete, notou com alguma surpresa que a "prova do crime", a pequena estatueta de pinho, estava em lugar bem visível em cima da secretária. Intrigado, o Provedor mirava e remirava a peça ao mesmo tempo que o questionava de onde provinha, e mais espantado ficou quando o miúdo lhe disse que a mesma fora feita por si. O seu semblante mudou de expectante para sorridente, e o coração do pequeno desacelerou, ao mesmo tempo que um sorriso pálido e escondido lhe aflorou aos lábios receosos. O perigo passara, deduziu.

Era talvez fins de Novembro, princípios de Dezembro de 1950, e a época de armar o presépio aproximava-se. Talvez a ausência da mãe e a lembrança dos Natais passados em família induzissem a criança, que ainda o era, a recordações que ao coração adulto, distraído, quiçá insensível, pouco tocava. Quem sabe se o menino esculpido, recordando-lhe o irmãozito mais novo, distante, não amenizava a solidão que porventura sentia. »»


____________________________________________________________

O Louletano, 14 de Abril de 2008

O MENINO QUE
RABISCAVA PAREDES - 5
por: José Batista

Decorria nessa altura, organizado pala Mocidade Portuguesa, – uma instituição de juventude para-militar do chamado Estado Novo, inspirada nos "Balilas" do regime fascista de Mussolini, em Itália, – um concurso de presépios entre várias escolas, no qual algumas secções da Casa Pia tencionavam participar.

O Provedor descortinou, perante a imagem e o seu autor, a inespe­rada oportunidade da instituição que dirigia de também participar nesse concurso. Assim, ciente de que encontrara o modelador que precisava para executar as figurinhas que desejava apresentar, decidiu "castigar" o aluno de uma forma assas singular: incumbiu-o de fazer o que o pequeno Augusto Trigo realmente gostava... e sabia – algo ligado às artes – esculpir as res­tantes figurinhas que compunham o presépio!

Liberto, por "imposição de serviço", das plainas, cepilhos e demais parafernália da aula de carpintaria, ei-lo, agora ocupado, sem receio de inesperada reprimenda, à tarefa de esculpir as pecinhas do presépio com o qual essa secção da Casa Pia concorreria ao evento patrocinado pela M. P.

Não será de todo descabido imaginar que o menino Jesus – afei­çoado às crianças como sempre foi – resolvesse meter uma "cunha" ao seu Pai Celeste para que Ele, que melhor que os humanos conhecia as aspirações do pequeno, transformasse o hipotético castigo numa tarefa grata e aliciante para o ex-amedrontado jovem "escultor". Nunca um "castigo" na sua curta vida lhe soube tão bem! Depois, certamente outros caminhos se abririam para dar vazão à sua aspi­ração maior, as artes plásticas nas suas variadíssimas vertentes, e, de entre elas, o desenho, a pintura e a escultura.

Dadas as circunstancias que rodearam a sua feitura, a primei­ra imagem, talvez com oito centímetros apenas, fora esculpida em madeira de pinho vulgar, material não muito próprio para esse género de trabalho. Po­rém, para as ou­tras figurinhas, tendo em conta o curto prazo para as execu­tar e de algum modo facilitar a sua feitura, foram disponi­bilizados alguns troços de casquinha, de fibra macia, algo mais indicado para a delicada tarefa que tinha a seu cargo.

O mesmo aconteceu com as ferramentas e outros apoios pos­tos à sua disposição, desde serras eléctricas para desbastar as arestas mais toscas, tarefa essa executada por alunos mais experientes que, sob as suas indicações, com ele colaboravam e, inclusive, a ajuda de outros colegas para esculpir as figuras secundárias - burrinho, vaca e ovelhas - peças que exigiam, de acordo com o tempo disponível, uma menor capacidade criadora.

Nesse ínterim, não havia sequer tempo para o canivete embotar – nunca o esmeril dos formões fora em tão curto prazo tão solicitado – porque todas as peças, dada a sua diminuta dimensão e delicadeza de pormenores exigiam, tanto do jovem artista como do pequeno instrumento de corte, que o mesmo estivesse bem afiado para esculpir as figuras que iriam a concurso poucas semanas depois. »»


____________________________________________________________

LUZ DO ORIENTE
(6 e 7)
Jorge Magalhães (argumento) - Augusto Trigo (ilustrações)



(continua...)

____________________________________________________________

 
Locations of visitors to this page