segunda-feira, 28 de abril de 2014

JOBAT NO LOULETANO – MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (165-166) – JESUS BLASCO – CUTO – HERÓI DE UMA GERAÇÃO (2 e 3)


MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (165-166)

O Louletano, 16 | Fevereiro | 2009 


No país dos "gangsters"

Na sua primeira aventura realista, "O Ardina Detective", Cuto — the portuguese kid, como foi baptizado n'O Mos­quito — era um vendedor de jornais, sem família nem lar, vivendo pelos seus próprios meios em Nova Iorque, onde enfrentava sozinho uma quadrilha de gangsters chefiada pelo impiedoso Bracon.

Vinheta de Cuto, "O Ardina Detective" 

O desenho de Blasco, ainda de pendor caricatural, agradou imediatamente aos leitores. Apesar de incipiente e imperfeito, revelava já, nalguns enquadramentos felizes e no emprego das sombras, o embrião de uma técnica que havia de distinguir o seu autor e torná-lo conhecido no estrangeiro, como vaticinou certa vez ao pai de Blasco o editor da revista Boliche.

Outro acerto do desenhador barcelonês consistiu na impecá­vel construção dos seus guiões, que renovaram o estilo e a dinâ­mica das histórias da época — em contraste com as HQ inglesas que se publicavam n'O Mosquito —, influenciando grande número de desenhadores espanhóis, entre os quais os seus irmãos mais no­vos Alejandro, Adriano, Pilar e Augusto, que com ele colaboraram assiduamente, sobretudo os dois primeiros.

A atmosfera de policial negro e violento de "O Ardina Detective" — com um Cuto que se esquiva às balas, pulando de telhado em telhado, invulnerável e ágil como um gato — já funcionava como metáfora das obsessões do seu autor pela violência e a morte, temas que Jesús Blasco exploraria de forma metódica nas histórias seguintes.

A ilha do Grande Senhor

A partir da segunda aventura de Cuto, "Sem Rumo" (publicada entre os n°s 524 e 565 d'O Mosquito), acentua-se a predilecção de Blasco pelas intrigas extraordinárias, a acção épica (cujo expoente mais alto é "Tragédia no Oriente"), os ambientes exóticos e as personagens enigmáticas, que aparecem e desaparecem como fumo.

Depois de ter vencido, num alarde de agilidade e coragem, o bando de Bracon e recuperado os planos de uma arma secreta — feito que lhe valeu uma recompensa de 10.000 dólares, oferecida pelo município de Nova Iorque — Cuto regressa a Portugal. Mas, após um breve descanso, ei-lo que embarca, ao encontro de novas aventuras, num velho cargueiro, cujo coman­dante é uma espécie de louco furioso. A tripulação amotina-se e abandona o navio. Escapando por um triz à fúria homicida do capitão, Cuto e umajovem passageira fogem também, num bote de borracha, e vão parar a uma remota ilha do Pacífico, onde vivem uma experiência aterradora à mercê do Grande Senhor, um estranho e diabólico vilão de aparência oriental, que usa um grande ponto de interrogação sobre o peitilho en­gomado da sua camisa e, tal como o Dr. Moreau (personagem de um célebre livro de H.G. Wells), faz da sua ilha palco de manipulações genéticas. »»

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O Louletano, 02 | Março | 2009 


Cuto é atacado por animais selvagens, combate com hin­dus belicosos e, nas entranhas do misterioso covil do Grande Senhor, assiste a um morticínio provocado por uma horda de monstruosos humanóides (numa magistral elipse de Blasco, que descreve todo o horror da cena através somente do ar apavorado de Cuto).

O cata­clismo final de "Sem Rumo" — o primeiro de muitos com que Jesús Blasco re­mata as "his­torietas" de Cuto —, um maremoto que arrasa a ilha e sepul­ta o Grande Senhor e os seus acólitos no fundo do oceano, representa o fim de um pesadelo que, nas aventuras seguintes, continuará a assumir novas formas. Mas o nosso herói, sempre bem-humorado, graceja que, se a ilha não tivesse sido tragada pelo mar, ele ficaria conhecido para a posteridade como "Cuto, o descobridor..."

O Grande Senhor faz parte de uma curiosa galeria de génios do mal, que Blasco retrata magistralmente ao longo das aventuras de Cuto — aristocrática linhagem de personagens cabalísticas, cujo carácter e inteligência (satânicos) refinam o paladar da intriga—e que culmina numa antológica figura de vilão: o Mago Branco, de "Tragédia no Oriente".

De desportista a herói da aviação

Seguidamente, vamos encontrar Cuto envolvido em peripécias menos dramáticas, que metem tramóias com corridas de cavalos e uma amazona furibunda que o ameaça com um chicote, porque a sua presença lhe pareceu suspei­ta. A aventura, publicada do n° 566 ao 575 d'O Mosquito, intitulava-se "Bandidos e Cavalos" e, tal como "Cuto Desportista", ou Cuto amante dos desportos de Inverno, dada à estampa no Almanaque O Mosquito e A Formiga — a grande novidade do Natal de 1944 —, era apenas o pró­logo de uma aventura maior e melhor. Em "El Pájaro Azul" (aventura publicada apenas em Espanha, em forma de álbum, com 46 páginas), Cuto, transformado num "ás" da aviação, trava conhe­cimento com o Dr. F. Moreno, inventor de um avião de raio de acção ilimitado, cujos planos são cobiçados por uma potência estrangeira, vagamente oriental. Graças a Cuto, o Dr. Moreno consegue levar a cabo o seu inven­to e triunfar dos espiões que raptaram a sua noiva e pretendiam destruir o seu avião, o aero­dinâmico Pássaro Azul. »»

Vinheta de Cuto na série "El Pájaro Azul" 



Capa do álbum "El Pájaro Azul", série não publicada em Portugal


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CUTO EM NÁPOLES (6 e 7)


(Continua...)

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