domingo, 8 de abril de 2012

BDpress #332: BIOGRAFIA DESENHADA DE FERNANDO PESSOA E ADAPTAÇÃO DE POEMAS SEUS PARA bd – UM LIVRO DE LAURA PEREZ VERNETTI EDITADO EM BARCELONA

Q.I. (Caderno semanal do D.N.) - BANDA DESENHADA, 31 Março 2012

PESSOA SERVIDO EM BD ESPANHOLA 
DA GERAÇÃO DA REVISTA 'EL VIBORA' PROVA QUE OS VERSOS PESSOANOS TAMBÉM SE ADAPTAM AO RITMO 
DA PRANCHA DESENHADA

Por Fernando Madaíl

'Pessoa & Cia'
de Laura Perez Vernetti
Editora Luces de Galibo, Barcelona 2011
48 paginas
€ 19,00 - na amazon.es

A ATENTA BIOGRAFIA DO POETA A PRETO E BRANCO NA PRIMEIRA PARTE

POEMAS E 'LIVRO DO DESASSOSSEGO' SURGEM EM VÁRIAS PÁGINAS COLORIDAS

UM INESGOTÁVEL baú inspirador: dois filmes de João Botelho (1), telas assinadas por Júlio Pomar ou por Costa Pinheiro, peças de teatro com encenação de António Pedro, de Ricardo Pais ou de João Brites (2), um sem-fim de potenciais herdeiros nos versos, mais seguidores ainda a reclamarem-se do seu caleidoscópico imaginário. E, agora, o sempre surpreendente universo pessoano até está plasmado numa BD espanhola concebida por Laura Pérez Vernetti (nasceu em Barcelona, em 1958), intitulada Pessoa & Cia, que tem 44 pranchas desenhadas e chancela da editora catalã Luces de Gálibo.

A desenhadora, que já tinha adaptado para a banda desenhada obras de autores como Guy de Maupassant, Franz Kafka ou Jorge Luis Borges, divide o livro em duas partes: começa com uma biografia atenta onde nem sequer falta a referência ao pai de Fernando Pessoa como crítico musical do DN nem a loucura da sua avó, narrada a preto e branco; depois, apresenta poemas dos heterónimos Álvaro de Campos (Nuvens), Ricardo Reis (Vem sentar-te comigo, Lídia), Alberto Caeiro (Hoje de manhã saí muito cedo e O amor é uma companhia) e três extratos do Livro do Desassossego, do semi-heterónimo Bernardo Soares, em páginas coloridas. Há, desde logo, uma evidência: os versos do mais universal e intemporal poeta português, se permitem qualquer versão cantada, seja em pop ou em ópera, também parecem talhados para o ritmo visual de uma prancha de BD.

Mas se, noutras novelas gráficas, Laura cultivou uma linha mais delicada ou mais erótica, em Pessoa & Cia optou por um traço duro, umas vezes, grotesco, outras quase naif, mas muito herdeiro da estética das revistas da época da movida espanhola (3), como a barcelonesa El Víbora (4) – onde, além de Javier Mariscal, famoso sobretudo como o criador da mascote Cobi, que identificou os Jogos Olímpicos de Barcelona, ou de Daniel Torres, autor das aventuras do explorador espacial Roco Vargas, que começaram com o álbum Triton (5), também se lançou nesta revista Laura Pérez Vernetti, que publicou no fanzine entre 1981 e 1991. O estilo, anguloso e agressivo, é capaz de não despertar a atenção dos apreciadores das Histórias aos Quadradinhos de desenho mais clássico e delicado, menos caricatural e expressionista.

E, no entanto, sendo uma obra indispensável para a biblioteca dos pessoanos, este título pode entusiasmar também os meros apreciadores de poesia, os simples interessados em banda desenhada, os curiosos em geral. Para além da forma como é abordada a biografia, com o desenho inicial a mostrar logo um bizarro bebé de bigode – para ilustrar a legenda "Fernando Pessoa nasceu a 13 de junho de 1888 numa casa da Praça de São Carlos, em frente da ópera de Lisboa" – e curiosas citações visuais com que Laura delineou cada um dos heterónimos, há ainda o interesse do leitor comparar a sua visão pessoal dos versos que leu, com a imagem que ganharam na mão da desenhadora – por exemplo em "Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol (Também estive ao sol; ou supus que estive)". Depois, há ainda algumas referências que remetem para um outro imaginário mais vasto, pois, como garante logo no prólogo o poeta Jesús Aguado (nasceu em Madrid, em 1961), "Pessoa é o grande hipnotizador do século XX".

Além das óbvias referências às pinturas de Almada Negreiros e aos retratos conhecidos do poeta, às vezes até parece que Laura Pérez Vernetti está a piscar o olho a outros pintores, da nova objetividade de George Grosz e de Otto Dix ao futurismo de Giacomo Balla e de Umberto Boccione, passando pelo facilmente identificável Quarto em ArIes, de Van Gogh – como se tudo o que se celebra na História da Arte pudesse, afinal, metamorfosear-se na sua estética do feio, no seu traço tosco.

No fundo, Pessoa & Cia insere-se na melhor tradição de algum do comic undederground (que, em castelhano, se designou por linea chunga), sobretudo na vertente dos seguidores de Robert Crumb (6). E, como podem, comprovar os lusitanos desconfiados, mesma se troca nomes de poemas, percebe-se que a autora conhece bem o poeta de Mensagem e de Tabacaria.

E, após folhear esta obra, ainda se retira outra conclusão: a arca pessoana, plena de palavras e potenciadora de imagens, permite ainda que se desenhem e editem umas mil novas BD.

Notas:

(1) Conversa Acabada (1980) e Filme do Desassossego (2010). Além dos filmes de João Botelho, há ainda Mensagem, de Luis Vidal Lopes, de 1988, que nunca teve estreia comercial, e Daisy: Um filme para Fernando Pessoa, que Margarida Gil filmou, em 1991, para televisão.

(2) António Pedro encenou O Marinheiro (TUP, em 1966); Ricardo Pais baseou-se na obra do poeta em Fausto. Fernando. Fragmentos (Teatro Nacional D. Maria II, 1989) e em Turismo Infinito (Teatro Nacional S. João, 2008); João Brites fez o mesmo em Gabriel [em fuga] (O Bando, 2001) e Horas do Diabo (O Bando, 2004). Outros encenadores, de Mário Viegas a Luis Miguel Cintra, de Maria do Céu Guerra a João Mota, levaram ao palco as palavras de Pessoa.

(3) A movida, um movimento de contracultura que começou por ser madrileno, marcou os anos 80 em Espanha. Além do cinema de Pedro Almodóvar e da moda de Aghata Ruiz de la Prada, do espirito noctívago e do hedonismo da época, de revistas emblemáticas como La Luna ou Madrid Me Mata, da fotografia de nomes como Ouka Leele e do design gráfico de figuras como Juan Gatti, o movimento teve reflexos desde a literatura à música (entre muitas outras bandas, podem referir-se Alaska y los Pergamamoides, Gabinete Caligari, Loquillo y Trogloditas e Mecano).

(4) EI Víbora foi uma das mais importantes revistas que surgiram com o "boom" espanhol de BD para adultos. De periodicidade mensal, a EI Víbora enveredou pelos comics alternativos e publicou 300 números, entre 1979 e 2005, em que se revelaram ou afirmaram muitos nomes espanhóis, como Nazario, Max, Alfredo Pons, Ceesepe ou Gallardo. Ao lado da revista Makoki, propunha a ''linea chunga", também definida como "linha dura", que se opunha à "linha clara" (traço característico da BD franco-belga, criado por Hergé nos álbuns de Tintin) seguida pela revista Cairo e ao comic de espírito postmoderno da Madriz.

(5) O álbum Triton - As aventuras siderais de Roco Vargas foi editado em Portugal; em 1989, pela Meribérica

(6) Robert Crumb (nasceu em Filadélfia, em 1943), fundador e eminência da BD underground americana, e, por exemplo, autor de personagens como Fritz The Cat ou Mr. Natural e da capa do disco de Janis Joplin Cheap Thrills.

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Pranchas do livro:
 A autora no seu atelier:


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Imagens da responsabilidade do Kuentro

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