segunda-feira, 30 de abril de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE – MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (XL e XLI) – NO CENTENÁRIO DE RAUL CORREIA (5 e 6) – por Jorge Magalhães


Terry e os piratas, de George Wunder


9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA
(XL - XLI)


O Louletano, 5 a 10 de Janeiro de 2005

NO CENTENÁRIO DE RAUL CORREIA (5)

por Jorge Magalhães

A homenagem do Jornal do Cuto

Em meados dos anos 50, depois de uma voluntária "travessia do deserto" que se seguiu ao desaparecimento d'O Mosquito, a sua pena reapareceu inesperadamente n'O Pimpão, modesto e efémero jornal que tentou re­viver a ima­gem do Avozinho (talvez à espera de colher alguns benefícios). Mas o públi­co d'O Pim­pão era ou­tro... e os tem­pos também tinham mu­dado, anteci­pando o mo­vimento de li­berdade juvenil, sem tutelas paternalistas, por mais bem intencionadas que fossem, a que se assistiu nos anos 60. Ou seja, a relação dos jovens com os jornais que liam e cuja orientação seguiam, tomou-se menos unilateral, operando-se o fenómeno inverso. Os hábitos e as tendências juvenis influenciaram radi­calmente a cultura ocidental, originan­do o movimento pop, com profundas im­plicações em todos os mass media e até na identidade dos heróis de BD. 

Nos anos 70, em que essa corrente co­meçou a mudar de rumo, o Jornal do Cuto, dirigido por Roussado Pinto, enveredou com outro fôlego pela senda da nostalgia, reeditando praticamente o melhor d’O Mosquito. Raul Correia, cuja prosa resistira com brio à passagem dos anos, teve assim uma espécie de tardia consagração, que a sua modéstia encarou com humildade e surpresa. Alguns artigos em que desfiou saudosamente memórias esparsas e um livro de versos ilustrado a pre­ceito por Jobat (o mesmo José Baptista que orienta esta ru­brica), culminaram esse novo ciclo e a fervorosa ho­menagem que Roussado Pin­to (outro antigo Colaborador d’O Mosquito) quis prestar ao seu mestre e amigo, prolongando-a na co­lecção Gaio de Ouro, onde fo­ram reeditadas três longas no­velas: "Os Ca­valeiros da Espada", "O Filho da Selva" e "O Sete de Espadas".

Mas as obras que o Jornal do Cuto e posteriormente o Mundo de Aventuras (que eu nessa altura co­ordenava) deram à estampa não fo­ram um verdadeiro regresso de Raul Correia às lides novelísticas. Insta­do algumas vezes por mim a escre­ver mais narrativas de aventuras, declinou sempre o convite, por causa dos laços profissionais que manti­nha com os Amigos do Livro. A sua faceta de tradutor, em que teve acti­vidade absorvente – segundo reve­lou numa entrevista, traduziu mais de 600 livros de todos os géneros, incluindo 24 volumes das aventuras de Tarzan para a Portugal Press e diversos romances de Zane Grey para a Agência Portuguesa de Revistas, sem contar as centenas de histórias aos quadradinhos publicadas em diversas revistas como Mosquito, Colecção de Aventuras, Pimpão, Mundo de Aventuras, Ciclone, Condor Popular, Jornal do Cuto e muitas mais –, dominava nessa época a faceta criativa, por razões puramente eco­nómicas, embora fosse um trabalho que, nalguns casos, lhe dava também intenso prazer. 

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O Louletano, 11 a 17 de Janeiro de 2005

NO CENTENÁRIO DE RAUL CORREIA (6)

por Jorge Magalhães

Já perto do fim da sua vida (morreu em Março de 1985, com 80 anos, duas semanas depois de Roussado Pinto), os Amigos do Livro editaram uma sumptuosa "História de Jesus" e alguns volumes de contos do Avozinho, com ilustrações do pintor e desenhador Carlos Alberto Santos, que se tornou o seu mais próxi­mo colaborador e amigo na últi­ma etapa de uma longa e frutuosa carreira... em termos artísti­cos que não ma­teriais, pois en­contrei-o em 1973, na primeira visita que lhe fiz, vivendo mo­destamente num andar de Benfi­ca e trabalhando numa pequena sala mobilada com espartana simplicidade. Chefe de famí­lia com oito fi­lhos – quatro ra­pazes e quatro raparigas –, as dificuldades devem ter sido grandes, mesmo na época de maior desafogo d’O Mosquito, em que se ocupava também da gerência do hotel Avenida Palace, em Lisboa.

Os acordes finais dessa carreira foram para saudar o reapareci­mento do estóico insecto, renascido pela quarta vez em 1984, por obra e graça do também saudoso Dr. Chaves Ferreira e da Editorial Futura – embora esse voo acabasse por ser tão curto, em números redondos, como os das anteriores ressurreições. Numa breve nota de abertura, em que afloram o saudosismo e a modéstia, o 1º número dessa 5ª série traz um curioso testemunho literário daquele que, sob o familiar e poético apelido do Avozinho, foi durante muito tempo o princi­pal elo de liga­ção do seu ilus­tre ante­passado com os leitores: “Numa pequena história de ‘O Mosqui­to’ que o meu querido Amigo Roussa­do Pinto quis que eu contasse , entre os n°s 20 e 24 do seu ‘Jornal do Cuto’, lembro-me de que terminei a narrativa – muito mais emocional do que exacta nos pormenores – dizendo que o velho jornal não tinha de facto morrido... tinha apenas desaparecido como o grande Charlot no belo final de ‘O Circo’. Acrescentarei agora que aconteceu o mesmo ao pequeno Simão Infante, protagonista de um episódio a que Eduardo Teixeira Coelho e eu chamámos ‘O Caminho do Oriente’. Quis o acaso que eu não me tivesse enganado: ‘O Cir­co‘ não morreu porque é eterno, Simão Infante reapareceu há pouco e o velho ‘Mosquito’ reaparece uma vez mais.

Quis também o acaso que, ao longo de uma longa vida de quase oitenta anos, tendo exercido vários ofícios cumulati­vamente, eu me fixasse naquele que sem­pre preferi a todos os outros. Refiro-me ao ofício de escrever. Traduzi centenas de livros – uns melhores do que outros – e ‘cometi’ centenas de originais – uns piores do que outros. Mau grado os meus quase oitenta anos, continuo a escrever. Perdi sem dúvida uma certa vivacidade, ganhei talvez uma certa maturidade, mas nunca ul­trapassei e agora é tarde para sonhar – os limites do medíocre. Tanto pior, embora isso me não importe demasiadamente.

Vem todo este desarrazoado a propó­sito de ‘O Mosquito’ que recomeça a vi­ver. Para mim é todo um passado de mais de cinquenta anos que revive. Outros tem­pos? Sim, com certeza, mas espero bem que, mercê de Deus, sejam também o tem­po de agora, ligado ao passado, olhando o futuro que lhe desejo longo e próspero.”

Assim, Raul Correia e o jornal que preencheu os anos mais criativos e fecun­dos da sua vida – os anos em que a aven­tura, o humor e a poesia foram os seus motes preferidos – continuaram umbili­calmente ligados para além do tempo... e da própria memória! ■


Jornal do Cuto, onde, nos anos 70, foram republicadas as melhores séries ilustradas e de texto, do bi-semanário O Mosquito.

Quinta e última tentativa de publicação do jornal O Mosquito, nos anos 80.

Raul Correia, foto publicada n'O Mosquito, 5ª série, nº 1 - Abril 1984, no qual esta foto ilustra um entrevista de António Dias de Deus com Raul Correia que, para não alongarmos em demasia este post, republicaremos aqui amanhã na integra.

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A MALDIÇÃO BRANCA (1 - 2)
Por José Garcês



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