segunda-feira, 9 de abril de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE - MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (XXXV) – O IMPÉRIO EDITORIAL DA AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS 1.13


9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA
(XXXV)

O Louletano, 23 a 29 de Novembro 2004

O IMPÉRIO EDITORIAL DA AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS – 1.13

Com o n.° 511, terminava a 3ª fase de "O Mundo de Aventuras" MA, chegara ao fim a publicação dc BD's em continuidade nas edições da APR.

O n.° 512 (15/06/59), inicia a quarta e última fase da primeira série, com 32 páginas interiores, a preto e branco, capa envernizada em quadricomia, formato 14,00 x 21,50 cm, com somente histórias completas, ao preço de 2,50, sendo essa série uma das mais longas da história do M.A. A partir do n.° 845 (02/12/65), seria acrescido de mais oito páginas – 40 no total – mantendo o mesmo preço de capa (2$50), o qual só depois do n.° 1148 (23/09/71) passou para 3$00. Formato e preço manter-se-iam, até ao n.° 1252 (20/09/73), porém a minha permanência na APR já havia terminado em meados de 1972.

Referimos, na passada semana, os nomes de Júlio Amaro, António Martins, Zé Neto e Afonso Tomás, como desenhadores, gráficos e capistas, os quais integraram a redacção em meados da década de sessenta. O primeiro, no término da sua colaboração com a APR perto dos anos 70, abriu uma galeria em Portimão onde se revelou um explêndido aguarelista e pintor. António Martins enveredou pelo grafismo e ilustração em jornais e revistas do grupo Expresso. Foi, na APR, autor de inúmeras capas na área da BD e do livro, onde cabalmente demonstrou as suas capacidade e versatilidade artísticas. Zé Neto, jovem ainda, revelou excepcionais qualidades no campo da ilustração, só não integralmente evidenciadas por entretanto a APR, como editora, ter encerrado as suas portas. Sem editor que lhe publique os originais, nenhum autor de texto ou ilustração tem possibilidade de se afirmar, por melhor que seja.

A.Tomás ilustrou, na redacção da APR, inúmeras capas para livros de diversas colecções que a editora publicava. E por último, embora não fazendo parte dos colaboradores internos, uma referência a José Manuel Soares, pintor e aguarelista de renome, várias vezes medalhado pela Sociedade Nacional de Belas-Artes, hoje retirado por doença. Foi autor de inúmeras capas do MA, Salgari, Tigre e de outras publicações, e também dos originais das "Aventuras do Zeca", de parceria com Raul de Oliveira Cosme, autor do argumento.

Embora inserindo apenas histórias completas, esta 4ª fase atravessou alguns períodos difíceis, que não propriamente, a meu ver, provocados pela pouca qualidade dos personagens publicados – o melhor da King e de outros fornecedores –, mas da sintética tradução a que eram sujeitos. Números havia, do MA, em que a leitura oferecida em 40 páginas não excederia os 5 minutos, decepcionando os leitores. Em muitas das suas páginas as legendas eram, pela escassez de texto, apenas um "Toma!", "Já vais ver!"; "Eu já te arranjo!"; "Ai! Não queres mais?", além de outras na mesma extensão e género, – perfeitamente dispensáveis e nada acrescentando à ilustração.

Como coordenador do material a ser publicado, o fracasso desse semanário, também me atingia, mas longe estava de sugerir que o mesmo se devia a uma minguada e adulterada tradução, área alheia às minhas responsabilidades. Inquieto com a quebra do volume de vendas, ou melhor, com o aumento das sobras, Mário de Aguiar, (MdA) chamou os que, em seu entender, seriam responsáveis por tal desacerto: eu, coordenador, e José de Oliveira Cosme (JOC), director e tradutor. Este bem tentou advertir que talvez a causa estivesse no material seleccionado, ao que MdA de pronto ripostou: – Eu creio que não, Cosme. Então O Cisco Kid, O Mandrake, O Fantasma – e enunciou outros mais – sempre foram personagens vendáveis, agora é que deixaram de o ser? O problema não reside aí, Cosme!

Sem que tivesse dito palavra, a minha posição estava resguardada. Bem que sabia onde o gato ia às filhoses, mas só em último caso o revelaria, pois que JOC tinha um ascendente enorme sobre Mário de Aguiar por fazer parte da comissão que supervisionava a literatura em BD, para menores, proposta pela Comissão de Censura. Então, uma ideia peregrina foi proposta por J.O.C., como salvadora da situação: – Oh Mário! Se o texto para ler é curto, porque é que ao lado da história de bonecos não sai, numa coluna, a mesma, em texto corrido? Isso já resolvia o problema, não achas?

O absurdo do "remendo" apanhou-nos a ambos, MdA e eu, sem escapadela. Para este, se o problema era a minguada leitura, a proposta sugerida parecia uma solução. Para mim, o cerne da questão era o já atrás referido. Mas como dizê-lo sem concitar perigosas reacções? Sem uma ideia formada e querendo resolver o assunto. MdA atirou-me à queima roupa: – O que é que achas da ideia?

Dois pares de olhos ansiosos, cada um por razões diferentes, colocaram-me numa das mais difíceis situações vividas na APR. Concordar, era dar o aval a uma ideia absurda, que de todo condenava, pois não era essa a solução natural do problema. Sugerir que a falha era da tradução, era como desatar um saco de vespas, sem máscara protectora! Após um momento de hesitação, sem de modo algum me querer atraiçoar, exclamei: – Nunca tal aconteceu em todo o mundo, em publicações de histórias aos quadradinhos!

A resposta, clara e ambígua quanto baste, pareceu agradar aos dois. MdA. habituado a ousadias editoriais, viu na sugestão apenas mais uma a utilizar. JOC, talvez a ouvisse com um elogio que quadrava bem com a hipótese de mais uns cobres por mais texto escrito. Para mim. salva a honra do convento, esperaria que os leitores reclamassem contra essa rematada tolice, a qual teve início no n.º 747 do M.A. E assim foi. Passados alguns meses a coluna de texto desapareceu, e as histórias do "Mundo dc Aventuras" passaram a ter um novo tradutor, o "velho" Raul Correia, o Avôzinho de "O Mosquito". Não sei por quantos números. Mas lá que o M.A. recuperou, foi um facto.

A publicação durante longo lapso de tempo de apenas histórias de cow-boys, nessa 4a fase do M.A., ficou a dever-se a dois ponderáveis factores: 1º – que as referidas histórias, na sua maioria com óptimo material Cisco Kid, Matt Dillon, Matt Marriott, Buck Jones, Kansas Kid, Dick Daring, Garrett, Lance, Gringo, Sunday, Kit Carson, etc, etc, – eram as mais vendáveis; 2º – os demais personagens eram publicados nas revistas "Selecções", "Policial" e "Espaço", com periodicidade mensal.

Como já anteriormente expresso nesta coluna, MdA e António Dias terminaram a parceria na APR, ficando apenas o segundo como seu sócio maioritário no início da década de setenta. Creio que três factores – entre outros – contribuíram para uma separação que desde 1949 se mantinha coesa: o cansaço, próprio de tantos anos à frente da empresa; os surdos conflitos entre os descendentes de ambos, mormente os genros, e o desfasamento cada vez mais acentuado, talvez por ausência de inovação nas revistas há muito publi¬cadas. Após a separação, erros houve, crassos, por ingerência dos novos accionistas, inexperientes, em áreas de decisão.

Um dos mais flagrantes e notórios – raiando o absurdo pela insensatez – foi o de a numeração do MA, revista com um capital de longevidade de trinta e um anos, reiniciar a numeração a partir do número um, ignorando os 1522 publicados até aí. Dislates desta natureza, além de outros igualmente graves a nível de direcção e planificação, cavaram inexoravelmente o fosso onde a APR submergiria.

Há muito que a empresa fechou as suas portas. Até o amplo edifício – local onde os melhores anos da minha juventude, e talvez de tantos outros – transcorreram, foi derrubado. Evito passar no ex-beco 207 da Saraiva de Carvalho, pois não é impunemente que o faço. Continua porém existindo onde nenhum férreo camartelo o pode destruir. Os apontamentos expressos sobre a APR nestas colunas foram coligidos nesse diário gravado, não escrito, que vez por outra folheio. ■

Legendas das ilustrações:
'Mundo de Aventuras" da terceira fase, primeira série
Quarta e última fase da primeira série

'Mundo de Aventuras" da terceira fase, primeira série

 Quarta e última fase da primeira série série

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