quarta-feira, 4 de abril de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE - MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (XXXIII e XXXIV) – O IMPÉRIO EDITORIAL DA AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS 1.11 e 1.12



9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA
(XXXIII - XXXIV)

O Louletano, 9 a 15 de Novembro 2004

O Império editorial da Agência Portuguesa de Revistas – 1.11

Continuando a "visita guiada" à redacção da APR nesses recuados anos de 1954/55, faremos, ainda que atraco largo, o esboço dos restantes elementos que a compunham.

Para além de capas e ilustrações avulsas, José Antunes, - profundo conhecedor de BD e excelente profissional gráfico -, ilustrou várias histórias publicadas no "Mundo de Aventuras", entre elas "Trinca Fortes", "O Lidador" e "Toni Tormenta". Saído da APR, talvez no final da década de cinquenta, colaborou com quase todas as editoras nacionais, como ilustrador, capista, director artístico ou responsável gráfico.

De Alfredo Silva pouco se pode dizer. Embora fosse quem me introduziu na área gráfica da edição, poucos meses privei com ele. Soube que tinha sido pintor de letras, em vidro e em pano, numa das muitas oficinas que em Lisboa havia. Recordo-me de uma que durante anos laborou perto do Largo de St." Bárbara. Constou que, saído da APR em finais de 54, foi colaborar com Roussado Pinto e Victor Peon, na Fomento de Publicações, e mais tarde, finda esta, com o primeiro na Palirex, na Amadora.

Um dos mais notórios elementos da redacção - pela ousada facúndia e postura de galã de serviço - chamava-se Santos Neves. Substituiu, nas edições de BD, o Alfredo Silva, quando este saiu. Chamavamos-lhe, na intimidade, "o sedutor da casaca", não talvez porque o fosse, mas porque admirável e intencionalmente lhe vestia a pele. Andaria na casa dos trinta, e sempre impecavelmente trajado. Fazia traduções e escrevia pequenas histórias de texto, e foi ele, sob a batuta de Mário de Aguiar, quem iniciou a publicação do Condor Semanal e da Colecção Tigre. Foi também de sua autoria, retirado do guião do filme, o texto de "Ulisses" publicado no Condor Mensal n.° 57, que, agora revisto, tem saído nestas páginas. Quando regressei à APR, em meados de 1957, Santos Neves já não fazia parte do quadro de colaboradores da empresa.

Outro dos elementos da redacção, - colaborador da Plateia e Colecção Cinema, de parceria com Fernando Esteves -, era Rolo Duarte e teria entre os 25 e os 30 anos, ao tempo. De estatura média e porte sereno, educado e culto, quase se não fazia notado. Creio que a minha ruidosa e juvenil exuberância o incomodou algumas vezes. Com o começo das emissões da RTP, dedicou-se a esse novo meio de comunicação social e abandonou a APR.

Fernando Esteves, ao qual já anteriormente nos referimos, foi talvez o elemento da redacção que, pelo seu tipo inesquecível, mais me fascinou. Era - e creio que ainda entre nós - de minguada estatura, parco de carnes, cabelo encaracolado, olhos miúdos num rosto de criança madura. Admirava-lhe o especial cuidado com o brilho dos sapatos - muitas vezes mantido a cuspo e papel de jornal - a rala barba eternamente por fazer, não destuando da descuidada indumentária. De minguada beata entre os dedos, sobressaía, nele, o olhar pisco, melancólico, perdido e vagabundo, desapegado a preconceitos e convencionais grilhetas sociais. Era e continuará a ser uma figura simpática e fascinante; talvez um dos muitos a quem o êxito, distraído, passou de lado, não fazendo jus à sua perspicaz capacidade de observação e profissionalismo na área da escrita.

José de Oliveira Cosme, director do Mundo de Aventuras e de outras publicações de BD da APR, era, nesse período, um colaborador externo, pois que sendo simultaneamente um ho-mem da rádio, os afazeres exteriores à APR não lhe permitiriam permanência diária na redacção. Ia porém lá todas as semanas buscar material para traduzir, livros e BD, receber a sua colaboração, e trocar impressões acerca das publicações em que o seu nome vinha como director.

Legenda da ilustração:
Primeira página da BD "Toni Tormenta", de José Antunes, publicada no "Mundo de Aventuras" N° 437, de 2 de Janeiro de 1958

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O Louletano, 16 a 22 de Novembro 2004

O Império editorial da Agência Portuguesa de Revistas – 1.12

Quando em meados de 1957 regressei à APR, novas caras faziam parte da redacção, entre elas Vitoriano Rosa, Costa Pereira, Raul Cosme e José de Oliveira Cosme. Da equipa anterior ainda permane¬ciam Fernando Esteves, Rolo Duarte, Carlos Alberto e José Antunes.

O local da redacção situava-se agora na última sala, do lado esquerdo do edifício, ampla e bem iluminada com luz natural, servida por duas igualmente amplas janelas, as quais davam para uma horta lateral, do lado sul. Só nos anos 60, com a abertura de uma via de acesso à Possidónio da Silva, o muro do final do beco foi derrubado. A sala da nova redacção, executada em madeira como todas as divisões do vasto armazém, não existia em 1955.

Era Raul Cosme, filho do director, J.O. Cosme, quem em 1957 coordenava as revistas de BD que a empresa editava. Os originais de "Ulisses", por mim desenhados em 1955, foram publicados no Condor Mensal n.° 57, aquando da minha ausência na empresa, em 1956.

Nessa altura, e ainda durante vários anos, a tira diária, normalmente constituída por 3 vinhetas, custava à empresa 45$00, ou seja, a 15$00 por ilustração, e foi exactamente esse o valor pago por cada uma das vinhetas da BD "Ulisses", que hoje termina, não condizente com os 30$00 que a APR estipulara para cada ilustração original. Assim, o Condor Mensal 57 custou à empresa exactamente o mesmo que outro qualquer material já publicado, com claro prejuízo para o ilustrador.

Por outro lado, embora os leitores o ignorassem, a assinatura das ilustrações quase só era permitida aos desenhadores com obra feita, tipo Vítor Peon ou Carlos Alberto. A esse respeito, a direcção do Mosquito mostrou muito mais consideração e apreço por aqueles que nesse bi-semanário iniciaram a publicação dos seus desenhos. Se bem repararmos, raríssimas das inúmeras capas de CA, foram por si assinadas.

Dada a enorme quantidade de personagens de BD utilizados pela APR, e para manter na sua posse a exclusividade das mesmas, novas revistas foram criadas de acordo com vários temas específicos: Guerra, Espaço, Policial e Selecções, todas elas por mim propostas e aceites por Mário de Aguiar. Assim se anulava a pressão dos fornecedores em face da retenção de muitos títulos e, por outro lado, saturava-se o mercado de modo a evitar que as mesmas fossem publicadas por outras editoras. Quando tal acontecia, e por vezes aconteceu, os nomes das personagens eram alteradas.

Entre os anos 60/72, vários novos elementos foram agregados aos já existentes na redacção, entre eles Júlio Amaro, Jorge Mendonça, Edgar, Rosa, Lídia, Alice, Crespo, António Martins e Zé Neto, alguns deles por breves períodos e sem qualquer relevância na área da ilustração.

No final da década de 50, o figurino das histórias em continuação parecia esgotado. Nem mesmo a coordenação das histórias agrupadas, de modo a terem todas início no principio do ano e terminarem no fim do semestre. Todavia, nem essa alteração conseguiu cativar o interesse dos leitores do Mundo de Aventuras. Ignoro quantos anos se publicaram em volumes, sendo que o último deles, com início no n.° 437, terminou no n.° 462, englobando o 1º semestre de 1958.

Foi porém nesse último volume, a partir do n.° 446, que pequenas histórias completas, juntamente com várias em continuação, começaram a ser publicadas nesse semanário. A 3 ª fase da 1a série - a 1ª fase corresponde aos primeiros 44 números, formato tablóide, e a segunda, do n.° 45 ao 462 (17/07/58), iniciada por Roussado Pinto - iniciar-se-ia no n° 463, com formato mais reduzido (18,5x26,5), com as habituais 16pág., por vezes a 4 cores, e termi-naria apenas com histórias em continuação, no n.° 511(26/06/59), impressa na litografia Salles.

Legenda da ilustração:
Um dos "Mundo de Aventuras", - quarta fase, primeira série - em que se começaram a publicar pequenas histórias completas, por número


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ULISSES (XXX e XXXI)
Texto e desenhos de Jobat

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