quinta-feira, 23 de maio de 2013

ÀS QUINTAS FALAMOS DO CNBDI NO KUENTRO (8) — AS EXPOSIÇÕES (4) — ILUSTRAÇÃO INFANTIL + AMIGOS DO CNBDI — TEXTO DE JOSÉ RUY (7)


Foto de J.Machado-Dias, em 23 de Maio de 2013


ÀS QUINTAS FALAMOS DO CNBDI — 8

AS EXPOSIÇÕES — 4
ILUSTRAÇÃO INFANTIL
17 de Janeiro a 19 de Abril de 2003

Ilustradores representados: André Letria, Carla Pott, Danula Wojciechowska, Elsa Navarro, Fernanda Fragateiro, Jão Caetano, João Fazenda, João Vaz de Carvalho, José Manuel Saraiva, Marta Torrão e Teresa Lima

O CATÁLOGO

Contracapa e capa do Catálogo - ilustração e João Caetano




AS FOTOS 
(de Dâmaso Afonso) 
DA INAUGURAÇÃO DESTA EXPOSIÇÃO




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AMIGOS DO CNBDI (07) 
José Ruy

(...Continuação)

O famoso "bunker" fica mais ou menos no centro da galeria de exposições do CNBDI 
(foto de J. Machado-Dias, 23 de Maio de 2013)

Voltando ao conteúdo do «bunker» do CNBDI, esclareço que dentro das prateleiras dos armários de aço não repousam «apenas» os originais das pranchas das histórias em quadrinhos dos autores já referidos e publicados em revistas ou livros, encontra-se aí um outro tipo de material; referi já os esquiços do Teixeira Coelho e meus, feitos do natural principalmente no jardim zoológico, na Escola do Exército e Quartel de Lanceiros 2, bem como estudos do corpo humano nu e com roupagem, em diversos ateliês.que tivemos ou partilhámos. Para mim estes desenhos têm mais valor do que propriamente as pranchas, já que estas tendo sido impressas foram vistas pelo grande público, enquanto os croquis continuam inéditos. E falando de inéditos, há pranchas do Eduardo Teixeira Coelho que nunca foram editadas, algumas feitas de propósito para Espanha.

Estes esquiços arquivados no CNBDI de que falo, não são simples dezenas ou centenas, atingem alguns milhares.

Mas para além disto, há material litográfico do tempo de O Mosquito, peças únicas que hoje exemplificam o processo litográfico usado na altura, e que diferia muito das outras oficinas gráficas, já que a tecnologia desse célebre jornal era a mais avançada da época. Recordo-vos que a máquina offset de impressão comprada à «Roland» para imprimir O Mosquito que ia já no seu quarto ano de existência, era o último modelo lançado no fatídico ano de 1939, em que deflagrou a Segunda Guerra Mundial. Esta máquina imprimia seis mil exemplares por hora, quando no parque gráfico do nosso país, as melhores impressoras existentes conseguiam essa tiragem num dia de 8 horas de trabalho. E mais de uma vez presenciei esse ritmo ampliado para oito mil provas hora, para compensar algum atraso ocasionado pela dificuldade na chegada de originais ingleses devido ao conflito armado. Portanto o processo litográfico que usávamos, aperfeiçoado pelo António Cardoso Lopes Júnior, o Tiotónio, era também avançado. Temos, felizmente, connosco um dos primeiros impressores que estrearam essa «Roland», morador na Amadora e que mantém boa saúde para confirmar tudo o que escrevo aqui. Trata-se do técnico impressor José da Luz, ajudante na altura de seu pai, Manuel da Luz, de quem mais tarde fui colega, dos dois, no Diário de Notícias.

 José da Luz, à esquerda, durante o almoço de confraternização do aniversário d'O Mosquito, em 14 de Janeiro de 2012, num restaurante de Lisboa...

Continuando com o material técnico preservado no CNBDI: o uso do aerógrafo em publicações de grande tiragem foi iniciativa do Tiotónio, pois as outras gráficas apenas o usavam para cartazes de grande formato e com tiragens reduzidas, destinados a serem colados nas frontarias dos prédios. Quanto aos originais desenhados em papel, ou fotografias, eram reproduzidos em chapas de vidro emulsionadas à base de albumina, em negativo, e depois projetadas num ampliador para a superfície de um zinco litográfico também previamente preparado. Dessas pequenas chapas, os desenhos já então reduzidos do grande formato em que eram executados, eram tiradas provas num «papel cromo» com uma tinta altamente gordurosa e depois montadas nos «deitados» que iam imprimir na máquina Offset.

Pois no CNBDI existem estas pequenas chapas de zinco litográfico, (não confundir com as zincogravuras tipográficas) provas diretas em papel, prova em «papel cristal» para fazer os decalques nas várias chapas destinadas às cores. Podemos afirmar tratar-se de um pequeno museu relacionado com a Arte Gráfica, de que depende e sempre dependeu, a BD ou histórias em quadrinhos.

E não basta ter no seu espólio estas relíquias. Quem está atualmente (e há alguns anos) à frente da instituição tem tido o cuidado de recolher depoimentos com a explicação do seu funcionamento e para que servia cada uma dessas peças.

Sobre a máquina Offset, enviada para o Museu da Tecnologia em Coimbra, por ser exemplar único, foi mantida criminosamente desmantelada e em estado continuamente degradado, com impedimento de ser vista até hoje por qualquer técnico. O seu diretor mantém-se irredutível não deixando que se veja ao que chegou o seu desleixo e incúria, impedindo a sua recuperação até graciosa já proposta antes. Um dia esta situação verá a luz do dia, por certo num dia cinzento, mas em que todos poderão analisar ao que chega a insensibilidade de quem se considera importante por possuir a chave de um armazém que é do Estado mas que se nega a abrir.

...a máquina offset de impressão comprada à «Roland» para imprimir O Mosquito...

É um sonho, por realizar, da direção do CNBDI ter esta máquina em exposição nas suas instalações. Sobre isto escrevi já muitas linhas publicadas neste Kuentro, por deferência do seu organizador.

Só podemos de gostar de algo, se o conhecermos bem; conhecendo melhor o CNBDI, por certo muitos ficarão seus amigos. Mas há mais…

(continua)

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