segunda-feira, 20 de maio de 2013

JOBAT NO LOULETANO (112-113) — JOSÉ RUY — RISCOS DO NATURAL (9 e 10)



NONA ARTE 
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(CXII - CXIII)

O Louletano, 05 de Novembro de 2007

CAROS LEITORES

Damos hoje o inicio a um texto de António Dias de Deus, autor de uma resenha sobre José Ruy publicada no albúm "José Ruy - Riscos do Natural" editado pela Âncora Editora.

A. Dias de Deus é "leitor e coleccionador de histórias aos quadradinhos desde muito cedo, e os seus primeiros ensaios sobre o tema datam de 1955. No entanto, só em 1973 se estrearia como ensaísta na matéria. Tem textos em suportes tão variados como os jornais Correio da Manhã, Diário Popular, revistas como Mundo de Aventuras, Cadernos da Banda Desenhada e em vários fanzines, assim como em prefácios de vários livros de Banda Desenhada. Foi autor das entradas portuguesas para The World Encyclopedia of Cartoons, publicada nos USA em 1980. Escreveu textos para as antologias das Edições Época de Ouro. Foi sobretudo na secção Especial Quadradinhos, de A Capital, que deixou a maior parte dos seus artigos, desde o início de 1979. De parceria com Leonardo De Sá, organizou as exposições Raphael Bordallo Pinheiro: aos quadradinhos e Fernando Bento: Uma Ilha de Tesouros, na Bedeteca de Lisboa"*.

Ao Autor do texto, bem como à Âncora Editora os agradecimentos do coordenador da secção "9a ARTE". Uma boa leitura para todos.

Jobat

* In "Os Comics em Portugal - uma história da banda desenhada". Cadernos da Bedeteca, Edições Cotovia e Bedeteca de Lisboa, 1997

(9)

[SOBRE O RIGOLETTO]
Por António Dias de Deus

José Ruy é um dos artistas de quadradinhos com carreira mais longa e diversificada, pois a sua arte já se estende bem para além de sessenta anos, graças à precocidade com que o então menino-litógrafo se abeirou do grafis­mo, estreando-se em público (com BD) em O Papagaio no Natal de 1994. Continuou afincadamente a desenhar e escrever para esta revista, até mesmo quando se tornou secção ou suplemento da Flama saltitando então para a maioria dos jornais infantis, até chegar a altura de ter de se acomodar aos álbuns cubóides, onde a sua produção veio a exceder em quantidade a de qualquer outro desenhador português do género.

No nosso tempo e no nosso país, José Ruy merece, mais do que qualquer outro, o titulo de artesão da BD, pelo apego e experimentação com que se agarrou à técnica das artes gráficas, com um empenho só comparável ao dos grafistas dos finais do século XIX - Nogueira da Silva, Raphael Bordallo Pinheiro, Sebastião Sanhudo, Joaquim Maria Pinto, José de Almeida e Silva, etc. Enquanto que, no século passado, poucos mais se dedicaram com tanto amor, como Cottinnelli Telmo, António Cardoso Lopes, Mário Costa, Méco, Rudy, Fernando Bento, Rodrigues Alves, Vítor da Silva, e não muito adiante, pois um artista de hoje está cada vez mais afastado das tipografias, a não ser quando se transformou num mero designer e largou por completo a BD (há excepções, claro).

Volvendo ao início, isto é, ao título deste texto, qual a razão de escolha tão estapafúrdia? É sim­ples. O Rigoletto é a melhor ópera de Verdi, quer em musicalidade, quer em conteúdo dramático. José Ruy é um "verdiano", seja pelo emprego da homofonia, seja pelo "fortíssimo" com que algumas vezes reveste a sua obra. Além disso, Rigoletto era um bobo, agente pensante de toda a acção. Tal como D. Bibas da novela de Alexandre Herculano, O Bobo, é o factor determinante do processo actuante.

Os resultados são diferentes em ambos os casos: amargura final em Rigoletto, júbilo de vingança em O Bobo. »»

Capa do álbum de "O Bobo", de José Ruy.

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O Louletano, 05 de Novembro de 2007

(10)

[SOBRE O RIGOLETTO]
Por António Dias de Deus

» Sucede que a novela de Herculano resultou para José Ruy numa viragem total do seu campo de intervenção. De agora em diante vai apostar em maior grau na história (vera ou de ficção) e na literatura sendo progressivamente afastadas as questões aventurescas, e outras diversões com que os in­gleses nos vinham ador­mecendo havia meio século e às quais cedeu o próprio Tiotónio.

Atenção! "O Bobo" foi tão só o ponto decisi­vo de viragem. Apenas isso e nada mais, o que já quer dizer muito.

No n° 508 de O Papagaio aparece pu­blicamente uma curta sequência "O Tigre! Uma Caçada na Sel­va" em 5 de Janeiro de 1945. O artista tinha apenas 14 anos, mas demonstrava já uma apurada composição, boa escolha de cores e bom estudo da fisiologia dos animais – predicados que viriam a qualificar toda a sua obra ulterior. No n° 509, surge uma capa influenciada por E.T. Coelho (à altura omnipotente com aventuras náuticas em O Mosquito, com textos de Raúl Correia ou José Padinha); curiosamente a novela pertence também a José Ruy, melodramática até derreter as pedras da calçada. No n° 510 vem mais uma novela, com ilustrações de José Ruy (ainda com 14 anos) onde a princesa encantada é mais feia que um sapo – os novíssimos desenhadores modernistas das últimas décadas ficaram definitivamente ultrapassados!

Finalmente, no n° 511 começa a história aos quadradinhos (HQ) "Piratas do Ar", que durante muito tempo se julgou ser a primeira incursão do artista neste campo, apenas pelo facto de possuir balões, com letragem, aliás, do próprio artista – que voltou a ser inovador neste aspecto - apesar da história ser uma adaptação de ideias estrangeiras.

E assim continuo en­quanto tinha 14 anos, com mais algumas ilustrações soltas. Só regressaria a O Papagaio em 1946, agora já com 16 anos, com outras ilustrações soltas e algumas HQ como "Uma Aventura nas Pampas", no n° 596, de 12 de Setembro de 1946, até ao n° 600, de 10 de Outubro desse ano. Sentia-se ainda a influência de E.T. Coelho, sobretudo na representação dos animais – jaguares e cavalos. Idem na história "Na África Setentrional", entre o 607 e o 613.

Lá para 1948, ainda em O Papagaio, José Ruy publicou a história "Homens do Mar", com a bizarria de vir escrita com "termos de marinharia" antiga. Desta extravagância o desenhador deve estar inocente e a letragem até era tipográfica.

Quando O Papagaio foi transferido para a Flama vieram as "Lendas Japonesas", obra-prima inspirada em contos de Wenceslau de Morais, além do desenhador ilustrar também contos da própria revista. »»

(Continua...)

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(9 e 10)
Argumento e desenhos de José Ruy



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