segunda-feira, 13 de maio de 2013

JOBAT NO LOULETANO (110-111) — JOSÉ RUY — RISCOS DO NATURAL (7 e 8)




NONA ARTE 
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(CX - CXI)

O Louletano, 15 de Outubro de 2007 

(7)
(...Continuação) 

Fez diversas bandas desenhadas para o Cavaleiro Andante e publicações afins, a partir de 1954, como "O Bobo", "Ubirajara", "A Mensagem", "Gutenberg", "Fernão Mendes Pinto", etc. Com Ezequiel Carradinha, na al­tura jornalista desportivo no Diário Popu­lar, foi direc­tor da 2ª série de O Mosqui­to (1960), também re­produzindo aí duas histórias suas e muitas ilustrações, e editando então ainda o seu próprio mini-álbum Infante Dom Henrique. Nessa década e nas seguin­tes, José Ruy acumulou ex­periências em diferentes editoras, sobretudo como gráfico mas deixando tam­bém traços da sua passagem em quase todas as revistas infantis contemporâneas. Era ele, por detrás das maquetas de muitas publicações da Ibis, da Bertrand, da Europa-América... De vez em quando, deixou também ilustrações e bandas desenhadas.

Para me­lhor esquema­tizar a acção das suas histó­rias começou a construir peças em três dimensões a fim de estu­dar o espaço e a colocação das persona­gens - o interior de uma casa, o aspecto de um castelo, um navio ou um castro - como no caso de "As Aventuras de Quatro Lusi­tanos e Uma Porca", com argumento de Paulo Madeira Rodrigues, ou das suas próprias "Aventuras de Porto Bomvento".

A edição de um autor nacional custa mais que a de um estrangeiro, tanto em termos de direitos de autor como nas provas para a impressão. Muitas vezes os álbuns coloridos de origem franco-belga, por exemplo, são realizados através do aluguer ou do simples empréstimo dos fotolitos originais às editoras estrangeiras, o que faz cair o preço de custo.

Quando em 1981, a Meribérica propôs a edição em álbum da "Peregrinação" do Cavaleiro Andante, José Ruy modernizou e remodelou a história em novo formato. Na altura eram raros os álbuns de autores portugueses, e colocou-se a questão do preço da separação de cor e dos fotólitos para a impressão em quadricromia.

O próprio autor propôs a "solução" inesperada: ou seja, trabalhou isoladamente cada uma das três cores primárias, como fizera para o Camarada e para o Pisca-Pisca. Desse modo, não existe um único e uno original da cor global, que só é visível depois do produto impresso e acabado. O processo reduzia quatro vezes o preço da forma clássica de produção. Os álbuns seguintes para a mesma editora e depois para a Editorial Notícias foram realizados segun­do o mesmo dispositivo ímpar. As coisas só mudariam a partir das edições realizadas pela Asa e porque esta tinha oficinas próprias, com custos menores, quando foi então possível colorir "normalmente" ...

Um projecto que não logrou experimentar o odor da tinta de impressão foi o da elaboração de uma biografia da Cruz Vermelha Inter­nacional, com argumento de Jean-Jacques Surbeck.

Mesmo sem álbum, foi realizada A História da Cruz Vermelha num folheto com edições em várias línguas para distribuição em 150 países, a partir de 1985. »» 


Os dois volumes, onde a Edições ASA, em 2005, reuniu as histórias de "Porto Bomvento", quatro em cada volume no formato A5

  
   
A Capa do Número Especial de Outono de 1954, do "Cavaleiro Andante" e a reprodução das seis páginas de "Gutemberg", tal como foram publicadas naquela revista - com cor e o texto em legendas didascálicas. Estas páginas já foram reproduzidas aqui no Kuentro tal como foram publicadas n'O Louletano. A partir de hoje (pranchas 7 e 8) reproduziremos as duas versões da história, lado a lado, para se perceberem as alterações.

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O Louletano, 22 de Outubro de 2007 

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As Edições Asa publicaram diversos álbuns seus - nomeada­mente a série das Aventuras de Porto Bomvento -, como o fizeram a Editorial Futura, a Editorial Caminho, e, mais recentemente, a Âncora Editora, em reedições ou com histórias novas. Os argumentos são geralmente do próprio desenhador, caso relativamente raro entre nós. Na Editorial Notícias, adaptou nomeadamente Os Lusíadas, utilizando o texto original, de Autos de Gil Vicente, de contos de Rudyard Kipling.

Realizou também as histórias de diversas municipalidades ou instituições, com os seus respectivos apoios, por vezes com versões simultâneas em línguas estrangeiras: História de Macau, Levem-me Nesse Sonho! (com a história da Amadora, que teve recentemente uma nova versão actu­alizada), Aventura do Passado Perdido, A Jóia no Vale!, A Casa e o Infante, O Juiz de Soajo, Sintra: O Encantado Monte da Lua, Nicolau Coelho: Um Capitão dos Descobrimentos, Nascida das Águas, Almeida Garrett e a Cidade Invicta, Pêro da Covilhã e a Misteriosa Viagem, etc.

Incansável e constante, a reputação impecável de José Ruy fez que fosse várias vezes convidado para realizar este ou aquele projecto. Não admira a quantidade da produção em álbum dos últimos anos. Multiplamente premiado, com variadíssimas exposições no seu activo, tem ainda mantido uma intensa actividade de divulgação da banda desenhada, com artigos sobre o tema (nomeadamente no suplemento Recordar O Mosquito, da revista Carácter - Artes Gráficas), muitas conferências e outros encontros sobretudo junto de escolas, bibliotecas e museus em todo o país.

Acumulados ao longo de décadas, os seus esboços - no Jar­dim Zoológico, nos cais, no Jardim Botânico, em quintas e aldeias, nas suas viagens atra­vés do mundo, mesmo depois da depuração dos desenhos que não satisfaziam o artista -, constituem hoje um acervo de 3500 peças.

A esses estudos tirados do natural juntam-se umas 1400 pranchas de histórias aos quadradinhos, conjunto que foi doado pelo autor e tem vindo a dar entrada nos arquivos do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, da Amadora.

Os croquis que realizou, com tanta pena e alegria, serviram sempre para as suas histórias e ilustrações, mais tarde ou mais cedo. Mas raramente executou um estudo pensando directamente na sua aplicação. Por vezes, passaram-se mesmo anos antes que servissem de referência para um desenho acabado. O propósito de José Ruy era e continua a ser o exercício puro: "Cada um desses desenhos tem em si uma história, um episódio alegre ou triste. São reflexos de memórias, instantâneos de vida fixados no papel." ■

 
"A Ilha do Futuro", álbum publica­do pela Meribérica/Liber, e à direita a história de "Arístides de Sousa Mendes" - a capa reproduzida n'O Louletano é a deste livro na edição israelita. 

"Almeida Garrett" álbum ilustrado por José Ruy e pu­blicado pela Âncora Editora 

Os Autos das Barcas, de Gil Vicente, ilustrados por José Ruy e publicados em álbum pela Editorial Notícias

 
Outros livros de José Ruy - sem qualquer ordem cronológica:


 
 



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(7 e 8)
Argumento e desenhos de José Ruy



(continua...)

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