terça-feira, 1 de maio de 2012

ANTÓNIO DIAS DE DEUS CONVERSANDO COM RAUL CORREIA - 1ª PARTE


ANTÓNIO DIAS DE DEUS CONVERSANDO COM RAUL CORREIA (1)


Em complemento aos posts de "Jobat no Louletano” com os textos de Jorge Magalhães sobre Raul Correia, aqui fica a primeira parte da entrevista que António Dias de Deus realizou, em 6 de Junho de 1980 e publicada n’O Mosquito nºs 1, 2 e 3 da 5ª série, Abril a Setembro de 1984.  
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Dias de Deus – Quando se deu o período de maior expansão de «O Mosquito»? Foi em 1946? E quais foram as tiragens alcançadas?

Raul Correia – «O Mosquito» começou com uma tiragem de 5 000 exemplares e era distribuído, inicialmente, pelo Diário de Noticias. No número 6 já ia com uma tiragem de 10 000 exemplares. A maior tiragem foi de 30 000 exemplares, duas vezes por semana, ou seja, 60 000 ao todo, e deu-se quando «O Mosquito» mudou, pela primeira vez, do formato grande para o formato pequeno.

D.D. - Quando começou a haver uma diminuição sensível nas vendas? Seria por volta de 1949?

R.C. - Sim... Deve ter sido por essa data.

D.D. - Teria sido por causa do aparecimento de «O Mundo de Aventu­ras»?

R.C. - Talvez, em parte. Mas foi principalmente por causa das revistas brasileiras, que inundavam tudo, com um português péssimo.

D.D. - Qual era a tiragem de «O Mosquito» na fase final?

R.C. - No final devia ter uma tiragem de 7000.



D.D. - Sabe que os últimos números são os mais raros no mercado?

R.C. - Não sabia.

D.D. - O que foi feito das últimas sobras de «O Mosquito»? Venderam-se a peso?

R.C. - Não sei. A distribuidora, no final, funcionava bastante mal e devolvia-nos quase tudo, certamente sem o ter che­gado a distribuir. Nem sequer dava para revender «O Mosquito», como agora fazem alguns editores.

D.D. - A Comissão de Censura, em 1950, teve alguma influência na queda da revista?

R.C. - Não.

D.D. - Porque não publicou mais «comics» americanos, para ganhar mais público? Praticamente, do material ame­ricano, só apareceram o «Tommy», o «Príncipe Valente», a «Little Annie Rooney», «Terry e os Piratas» e o «Dr. Rex Morgan».

R.C. - Sabe que eu gosto muito do Hal Foster? Se não publicámos mais autores ameri­canos foi porque não tínhamos possibili­dades económicas de o fazer. Não tínhamos os dólares que as agências distribuidoras pediam.

Prince Valiant (Príncipe Valente), de Hal Foster

D.D. - As séries inglesas eram, então, mais baratas?

R.C. - Sim! Incomparavelmente mais baratas. Os preços da King Features Syndicate, pelo contrário, eram incom­portáveis.

D.D. - A novela, de sua autoria, «Os Cavaleiros da Espada» seguia a H.Q. inglesa original, ou apenas eram apro­veitadas as gravuras, para ilustrar um texto novo?

R.C. - O texto era inteiramente novo. Eu só escolhia as melhores gravuras e as que melhor se adaptavam ao texto. Eram dum desenhador inglês muito bom, que parece ter morrido durante a guerra.

D.D. - Chamava-se Reg Perrott. A data e as causas da morte são ainda obscuras. Desejava agora que me escla­recesse sobre a identidade de alguns autores de novelas, cujos nomes, às vezes, me parecem pseudónimos. Por exemplo: quem era Cardador?

R.C. - Chamava-se Lúcio Francisco Cardador. Fazia umas boas novelas, mas com ortografia péssima, que eu tinha grande trabalho em corrigir.

D.D. - Para simplificar a questão, vou dar-lhe uma lista de nomes, para que lhes faça a identificação possível.

R.C. - Robert Bess era José Padinha, um homem que veio de Africa. Peter Tenerife, Gusmão Pó e Montesdeoca eram também o Padinha. Quanto a Juan Le Guanche, não sei. Talvez fosse tam­bém o Padinha.

D.D. - Há ainda muitas novelas, sem qualquer nome de autor. Poderia identificá-las?

R.C. - Vejamos: «O Falcão da Pradaria» - Raul Correia; «O País dos Ventos Ululantes» - José Padinha; «O Vale do Silêncio» - Raul Correia; «O Punhal do Imperador» - José Padinha?; «O Jura­mento de Águia Negra», «Um Caçador Fez testamento», «Quero Ser Palhaço», «Tobias Contou a História» - José Padi­nha? Quanto a «O Príncipe e o seu Fantasma», sabia que muitas dessas histórias eram adaptações de histórias inglesas? Essa, por exemplo, era de ficção científica. Eu nunca escreveria ficção científica, género que detesto.

D.D. - Sim, é um género que denota grande falta de imaginação.

R.C. - Pois é. Inventa-se um planeta estranho, fabricam-se uns habitantes desse planeta, e, no fim, fazemo-los actuar como se tivessem um comporta­mento humano. Ora, se houvessem outros tipos de vida, eles poderiam ser totalmente diferentes dos nossos. Até talvez nem fosse precisa a existência de água. Nós só falamos daquilo que já conhecemos.

D.D. - Alguma vez «O Mosquito» teve problemas com a censura?

R.C. - Não, porque nós sabíamos defender-nos. Uma vez fomos chamados, eu, o Oliveira Cosme e o Adolfo Simões Muller, ao gabinete do tenente-coronel que dirigia os serviços. Disse-nos que havia certas palavras violentas que de­viam ser cortadas, como a palavra «assassinar». E mostrava um exemplo. Era uma história do «Diabrete», em que aparece um personagem que diz para o outro: «Não te quero ver, assassino da minha honra!». Ora nós tentámos explicar ao senhor que a palavra assassino, naquele contexto, nada tinha que ver com assassinato.

D.D. - Deve ter sido no «Pajem do Rei», ilustrado por Fernando Bento.

R.C. - E assim por diante. Quem barafustava sempre mais era o Muller.

D.D. - Mas sempre houve retoques em algumas vinhetas de histórias de «O Mosquito», como no Buck Ryan e até numa história do Cuto...

R.C. - Sim, numa das últimas histórias do Cuto houve um desenho em que tivemos que lhe apagar a pistola, e o rapaz ficou com o dedo espetado a apontar para o inimigo, que parou aterro­rizado...

D.D. - Era um disparate.

R.C. - Um autêntico disparate. A novela onde tivemos mais censura foi uma história inglesa, onde havia cenas de grande violência. Tinha cortes que nunca mais acabavam. Mas, depois, parece que se fartaram, e o final já foi publicado sem nenhum corte.

D.D. - Parece que o Jornal que teve mais problemas com a censura foi «O Mundo de Aventuras».

R.C. - Sim, em virtude do tipo de histórias que publicava.

D.D. - Como era feita a distribuição de «O Mosquito» na província? É que eu vivi na província até 1951 e lembro-me que «O Mosquito» chegava a toda a parte e era sempre pontual. Até chegava a ser apregoado pelos ardinas, como se fosse um jornal diário.

R.C. - Inicialmente era distribuido pelo Diário de Notícias. Mais tarde, cerca de 1941, passou a ser distribuido pela «Editorial Organizações». Era uma distri­buidora que se tinha separado do Diário de Noticias e que também entregava a «Eva». «O Mosquito» deixou de ser distri­buido pelo Diário de Noticias porque eu me zanguei com eles. No que diz respeito à «Editorial Organizações», excepto nos últimos tempos, a distribuição era boa.

D.D. - Qual era a percentagem de assinantes, no período de maior expan­são?

R.C. - Cerca de 15% das vendas.

D.D. - Sei que «O Mosquito» era enviado pelo correio dobrado em três, quando de formato grande, dobrado ao meio, quando de formato pequeno. Tinha cintas próprias?

R.C. - Sim, com um desenho idêntico ao do cabeçalho da revista. No início, as direcções eram preenchidas à mão por mim e pela minha mulher. Mais tarde, isso mudou.

D.D. - Guardou alguma dessas cin­tas?

R.C. - Infelizmente não.

D.D. - Gosfava de saber se o Eduardo Teixeira Coelho começou a trabalhar primeiro na Empresa de «O Mosquito» ou no «Senhor Doutor». Neste último jornal começou em 1942. Na Empresa «O Mosquito» começou nas «Engenho­cas» e na «Colecção de Aventuras», também em 1942, mas é difícil estabele­cer com exactidão, pois estas revistas não tinham data.

R.C. - Também não o posso esclare­cer. Julgo que o E.T. Coelho teria publicado desenhos na secção dos lei­tores.

D.D. - Já percorri todas as secções de leitores, antes de 1942, e não vi lá nada que me parecesse do Coelho.

R.C. - Pois deve ser confusão minha...

D.D. - Quem é que o contactou? Foi o senhor Raul Correia ou foi o Cardoso Lopes?

R.C. - Foi o Cardoso Lopes que o conheceu primeiro.

D.D. - Isso explicaria porque ele começou a desenhar nas «Engenho­cas», que era uma especialidade de Cardoso Lopes. Gostaria de conhecer os nomes dos guionistas de Eduardo Teixeira Coelho. Por exemplo, quem foi o argumentista de «Os Guerreiros do Lago Verde»?

R.C. - Foi José Padinha, bem como de «O Grande Rifle Branco» e de «O Feitiço do Homem Branco».

D.D. - E em «Os Náufragos do Barco Sem Nome»?

R.C. - Nessa fui eu o argumentista.

D.D. - E.T. Coelho, nessa história, tem uma maquetização pouco habitual das pranchas, com assimetrias, leitura oblíqua, vinhetas sem cercadura, pro­cessos que não costumava usar. Acha que se inspirou nos trabalhos de Emílio Freixas?

R.C. - Acho que não. O Coelho era um artista com muitas potencialidades.

D.D. - «Os Náufragos do Barco Sem Nome» pode ser considerado como um ensaio para «O Caminho do Oriente»?

R.C. - Talvez...

D.D. - Nessa história o Coelho começou também a usar sistematica­mente os balões, uma experiência rara, especialmente nas obras que fez em Portugal.

R.C. - Bom, é o eterno problema entre os balões e o texto por baixo. É verdade que neste último caso não se perturbou a beleza do desenho.

D.D. - Os desenhos de E.T.C, são muito valorizados pela boa utilização dos espaços em branco. Nas histórias que desenhou em França, os balões desfiguram, por vezes, o desenho.

R.C. - Nas histórias que eu vi, os balões estavam colocados de maneira a poupar o desenho.

D.D. - Falemos agora de «O Falcão Negro». Quem foi o guionista?

R.C. - Fui eu que dei as linhas gerais, embora o Coelho tivesse liberdade para desenvolver o argumento.

D.D. - No «Falcão Negro» há uma cena de tortura que é extremamente impressionante. Pelo menos, foi o que senti quando a li. Nessa altura tinha 9 anos e a cena chocou-me. De quem é a responsabilidade dessa cena?

R.C. - Que cena de tortura é?



D.D. - O Falcão Negro ó amarrado a uma árvore e depois é-lhe cravado nas costas um galho aguçado que lhe vai rasgando a carne.

R.C. - Ah, já sei. O responsável por esse episódio fui eu.

D.D. - Quem foi o argumentista de «Sigurd o Herói», a primeira H.Q. em que E.T. Coelho trata de vikings?

R.C. - Também fui eu.

D.D. – E de «O Mensageiro»? Era uma história de cow-boys.

R.C. - Não sei. Minha não é.

D.D. - E o guionista de «O Lobo Cinzento»?

R.C. - O argumento era meu, mas partia muitas vezes de desenhos que o Coelho fazia. O mesmo sucedeu com «A Lei da Selva», onde ele desenhava os leões e depois eu tinha que inventar a história. Passava dias inteiros no Jardim Zoológico a desenhar os animais. Quase que parecia que também passava lá as noites. Depois travou conhecimento com um oficial de cavalaria e então passava a vida a desenhar cavalos.

D.D. - Há ainda três histórias em que entram mouras encantadas, publicadas em períodos diferentes, duas na «For­miga» e uma em «O Mosquito». Têm alguns aspectos comuns, o que me leva a agrupá-las sob o titulo: «A Trilogia das Mouras». São «A Moura e o Mar», «A Moura e a Fonte» e «A Moura e o Dragão».

R.C. - Foi adaptado por mim, ou, pelo menos, foi inspirado num livro de contos, não sei se de Alexandre Herculano. Não me lembro.


D.D. - E as três últimas histórias do Falcão Negro, «Tempestade no Forte Benton», «As Vítimas do Sol» e «Terra Turbulenta»?

R.C. - Também são minhas.



UMA ACHEGA DE JOSÉ RUY:

"(...) Refiro-me à resposta da pergunta sobre os verdadeiros nomes dos argumentistas que colaboraram em O Mosquito. Naturalmente que a entrevista foi feita à distância, com questões e respostas escritas, mas o Raul Correia infelizmente apresentava já lapsos em relação a coisas antigas.

Diz ele que o argumentista ROBERT BESS era o Padiña.

Foi um lapso do Raul Correia, pois o verdadeiro nome desse autor, era Roberto Ferreira, um jornalista do Diário Popular (e ou do Diário de Lisboa) amigo do Tiotónio, do Coelho e depois também meu. Foi até mais em casa do Coelho que tive com ele maior contacto. Foi autor do argumento da novela «Sunyana, o Rebelde» publicada em O Mosquito a partir do N.º 399, em 21 de abril de 1943.

É também curioso que essa novela ilustrada pelo grande Eduardo Teixeira Coelho, só foi publicada em O Mosquito, embora já pronta, depois das novelas: «AVENTURAS DE JIM WEST», «O MISTÉRIO DO STARNIGHT» e «LEIS DO OESTE», numa espera de quase 4 meses. Sei que essa novela do Roberto Ferreira teve as suas ilustrações prontas antes das outras saírem, mas não apurei o motivo. Na altura não interessava.

No entanto, pode ver-se a diferença de traço do E T Coelho, que foi evoluindo rapidamente nesse ano de 1943, quase de mês para mês. As primeiras ilustrações de «Sunyana» já fazem diferença das últimas, realizadas cerca de três meses depois e já não têm a ver com as das novelas publicadas antes dessa.

É uma curiosidade que só por agora reler esta entrevista me lembrei de trazer a lume, dando-a a conhecer ao meu amigo Machado Dias. (...)" - Em 4 de Maio de 2012

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CONTINUA NA PRÓXIMA TERÇA-FEIRA, DIA 8 DE MAIO

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