domingo, 4 de julho de 2010

BDpress #136: TERMINADA A COLECÇÃO “ALIX”, MAIS UM LANÇAMENTO ASA/PÚBLICO, DESTA VEZ “GASTON LAGAFFE” DE FRANQUIN

Público, 1 de Julho 2010

COLECÇÃO GASTON LAGAFFE

A genial criação de Franquin é o anti-herói por excelência da banda desenhada franco-belga. Passeia-se pela redacção da revista Spirou, onde o seu humor delirante e uma capacidade inventiva sem limites lançam a confusão e põem a cabeça em água a Fantásio, De Mesmaeker, Menina Joana, Prunelle ou agente de polícia José Narigudo... A colecção integral dos seus gags, agrupados por ordem cronológica de saída, é recolhida em 19 álbuns de capa dura. Todas as quartas com o PÚBLICO por mais 6,40 euros.


GASTON LAGAFFE, O ANTI-HERÓI DA BD FRANCO-BELGA

Carlos Pessoa

Está entre o melhor que a banda desenhada belga deu ao mundo. O humor delirante da genial criação de Franquin é eterno e influenciou decisivamente as gerações seguintes

Sem legendas, a preto e branco e com a imagem rodeada de pegadas. Foi assim que Gaston Lagaffe apareceu pela primeira vez, há 50 anos, no número 985 da revista de banda desenhada Spirou. O dia exacto da sua estreia foi 28 de Fevereiro de 1957, data de saída da publicação semanal das Edições Dupuis, que ainda continua a publicar-se.

Na segunda semana, Gaston aparece no meio do folhetim de Paul Berna e já perdeu o seu laço. O trajo formal, mais consentâneo com o estatuto de um empregado de escritório, dá rapidamente lugar ao vestuário que o imortalizou – camisola verde de gola alta pequena demais, jeans coçados e alpercatas.

A ideia foi apresentada por Franquin a Yvan Delporte, na altura chefe de redacção da revista Spirou: “Uma personagem de BD que não aparecesse em nenhuma banda desenhada porque, ao contrário do herói, não teria nenhuma qualidade, seria estúpido, mas nada bonito ou forte”. Delporte ficou entusiasmadíssimo e Gaston nasce como um “herói sem emprego”, alguém que “ninguém queria ver numa banda desenhada, tão desprezível ele era”.

O ambiente em que o personagem se movimenta é a redacção da própria revista. Spirou pergunta-lhe o que está ali a fazer e Gaston responde que não sabe. Pior ainda, não tem a menor ideia de quem o contratou...

Como estava fora de questão transformar Gaston numa BD, o seu percurso na revista é errático nos primeiros meses. Só no final de 1957 passaria a ser protagonista de gags e a dispor de uma meia prancha, formato em que se apresenta até hoje. Ajudado nos primeiros anos por Jidéhem, que assegura os cenários da série até 1968, Franquin vai construindo a pouco e pouco um universo sólido e coerente. É o próprio patrão da editora, o senhor Dupuis, quem lhe define as funções – estafeta da redacção. Essa qualidade permite a Gaston travar conhecimento, quase sempre em circunstâncias altamente problemáticas, com os restantes colegas: o nervoso Fantásio, que por vezes sai de cena para viver aventuras com um certo Spirou; o stressado Prunelle, a histriónica M’oiselle Jeanne (Menina Joana), que não esconde um fraquinho pelo “senhor Gaston”; o desenhador Lebrac; diversas secretárias chamadas Sonia, Yvonne ou Suzanne, etc. Num ambiente de trabalho que mais parece um manicómio em ponto pequeno do que a redacção de uma respeitável revista de banda desenhada, destaca-se o colérico De Mesmaeker, que chega para assinar misteriosos contratos mas nunca o consegue fazer.

Uma gaivota que renunciou ao mar e um gato meio chanfrado são os eternos cúmplices de Gaston, amigo dos animais, sonhador e inventor nas horas vagas (que, aliás, são todas) – as performances do seu Fiat 509 preso por arames ou as experiências sonoras com o temível gaff ophone já ganharam o direito a constar nos anais das mais famosas gafes da BD...

Gaston começou por ser “o homem das gafes”, assim o descreveu o seu próprio criador no jornal francês Libération: “Gaston tem a sua ideia pessoal do progresso, mas que não é de uma eficácia total. É uma criança numa profissão de adultos.”

Como todas as criaturas, o herói acabou por escapar um pouco a quem lhe deu vida, para se tornar num ícone que “marcou o conjunto da sociedade”, sublinha Laurent Mélikian, jornalista e crítico de BD: “É o primeiro anti-herói da BD popular. Com ele, chegou o direito à preguiça e a recusa do trabalho embrutecedor”. Didier Pasamonik, chefe de redacção do site ActuaBD, destaca na série a “crítica do sector terciário quem e, 1957, começava a assumir importância”: “Gerações de ‘funcionários’ reconheceram-se naquele escritório, Apesar da ausência de telemóveis e de computadores, os seus temas continuam a ser hoje muito modernos.”

O investigador português de BD Leonardo de Sá fala no “humor desopilante” da série e na “impossível inventiva do protagonista”, acrescentando que “o mundo seria mais tristonho se Gaston não existisse”. Querem um exemplo? “Sem a inestimável contribuição de Franquin nessa série não teríamos nunca encontrado a receita do bacalhau com morangos”.

A importância do herói pode ser medida pela influência nos criadores das gerações seguintes, de Cauvin-Hardy (série Pierre Tombal) a Fane ( Joe Bar Team), Ptiluc (Rats), Pétillon ( Jack Palmer) ou Zep (Titeuf ). Todos eles poderiam, sem grande problema, fazer suas as palavras do crítico francês Yves Frémion: “Ele [Franquin] é o que a BD belga deu de melhor”.


O QUE PENSAM OS CRÍTICOS

Qual é a importância da série no quadro da BD franco-belga? Mais de meio século depois do seu aparecimento, qual é o legado de Gaston? Pode falar-se de um “antes” e um “depois” do herói? Que herói ou série podemos, hoje, considerar como herdeira das características mais essenciais de Lagaffe? As respostas de três especialistas:

Leonardo de Sá
Investigador de BD

“O mundo seria mais tristonho se Gaston não existisse”

O grande mérito consiste, sobretudo, no facto de ter introduzido com sucesso o conceito do anti-herói por excelência. Os gags do super-mandrião Gaston Lagaff tornaram-se clássicos instantâneos na revista Spirou e depois nos álbuns, pelo humor desopilante, pela impossível inventiva do protagonista, pela culinária extravagante, pelas injokes à própria redacção da revista Spirou e às Edições Dupuis...

Algumas expressões passaram mesmo para a língua francesa, em utilização corrente, como o célebre M’enfin! de Gaston ou o grito de desespero Rognnntudju! de Prunelle.

Os argumentos e o desenho de Franquin facilitaram o aparecimento de novas formas de humor gráfico e nonsense exacerbado, tanto na Bélgica como na França. De certa forma, são seus herdeiros autores como Gotlib, Mandrika ou Bretécher, a geração de L’Écho des Savanes ou de Fluide Glacial e outras revistas e séries que se seguiram. O mundo seria mais tristonho se Gaston Lagaff e não existisse.

Sem a inestimável contribuição de Franquin nessa série não teríamos nunca encontrado a receita do bacalhau com morangos...

No que toca às séries mais conhecidas, julgo que se pode encontrar muitas similitudes no Titeuf do suíço Zep. Mas a bem dizer não há resposta concreta, o talento de Franquin era verdadeiramente único.

Laurent Mélikian
Jornalista e crítico

“O aspecto mais notável de Lagaff e é o fenómeno de sociedade associado”

É o primeiro anti-herói da banda desenhada popular. Com ele chegou o direito à preguiça, a recusa do trabalho embrutecedor, etc. Pode dizer-se que Gaston, que é conhecido por todos os franceses (e belgas, claro), foi uma das obras que prepararam o terreno da contestação de Maio de 1968.

Foi publicado na Spirou que era, no princípio, a revista da juventude católica operária. Diz-se que teve como modelo Yvan Delporte, chefe de redacção e agitador da redacção da revista. Com ele chega um herói para a juventude que pode troçar de si próprio e do seu trabalho, e como o seu trabalho é a redacção da Spirou, tudo é permitido. Parece-me que o aspecto mais notável de Lagaff e é o fenómeno de sociedade que lhe está associado.

Por exemplo, a expressão M’enfin! (contracção de mais e enfin, “Esta agora”, em português) que aparece na boca de Gaston entrou hoje no vocabulário corrente. Mostra até que ponto a personagem impregna o imaginário colectivo!

Sim, há um antes e um depois de Gaston. Graficamente também, pois o estilo extravagante e o traço fino e solto rompem com a tradição da escola de Hergé (a chamada Escola de Bruxelas, numa referência à revista Tintin) e levam a Escola de Marcinelle (da revista Spirou, com Lucky Luke, Valhardi, Tif e Tondu, e Spirou) para uma nova dimensão mais solta e muito mais engraçada.

No plano das influências, o primeiro herói que me vem à cabeça é Pierre Tombal – o herói coveiro de Cauvin e Hardy. Mas claro que não é o único, pois numerosos heróis, profissões (polícias, garagistas, médicos...) e fazedores de gafes invadiram a BD franco-belga...

Didier Pasamonik
Crítico de BD e chefe de redacção do site ActuaBD

“O estilo de Franquin é um monumento de virtuosismo reconhecido”

Gaston é a primeira obra verdadeiramente pessoal de Franquin, na qual investe por inteiro. É um verdadeiro anti-herói porque é um “herói sem emprego”. No entanto, foi-lhe enviada um documento comprovativo da contratação, o que obrigou Fantásio a render-se à evidência. Para que função? É lógico: a de herói de banda desenhada!

O artista das gafes vai explorar este vazio na definição do seu cargo. Face aos seus chefes directos (Fantásio e, a seguir, Léon Prunelle), Gaston multiplica as provocações, introduzindo no escritório coisas que não deviam encontrar-se ali: instrumentos de música, animais, uma divertida panóplia química, um enxame de abelhas, alteres, um Gaston insuflável, robôs, uma cama portátil... para já não falar nas suas invenções!

Sobretudo, Gaston introduziu na série uma extraordinária desordem (uma bagunça, diz Franquin) que, ao longo dos gags, se tornou a sua melhor protecção, No dia em que o chefe quis despedi-lo, os leitores exigiram a respectiva reintegração.

Ele tinha-se tornado inamovível! Tematicamente, Gaston é a crítica do sector terciário que, em 1957, começava a assumir importância. Gerações de “funcionários” reconheceram-se naquele escritório. Apesar da ausência de telemóveis e de computadores, os seus temas continuam a ser hoje muito modernos. É uma obra totalmente moderna no sentido em que é ao mesmo tempo uma obra-prima e uma reflexão sobre os media devido ao seu próprio tema: a crónica da redacção de uma revista para a juventude.

Pode dizer-se que toda a BD de humor é herdeira das características de Gaston. Franquin mostrou que o humor não estava apenas no argumento; estava também nos desenhos. Titeuf é directamente influenciado pelo seu humor “politicamente incorrecto”.

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