quarta-feira, 28 de julho de 2010

BDpress #151: EXISTE UMA NOVA LIVRARIA ESPECIALIZADA EM BD NO PORTO: “INVICTA INDIE ARTES” DESDE MAIO, NO PÚBLICO + “HANS, O CAVALO INTELIGENTE”, DE MIGUEL ROCHA, POR PEDRO CLETO NO JN + JÁ SAIU O CADERNOS DE JOSÉ ABRANTES #2 + O REGRESSO DE “BOUNCER” POR J.M.LAMEIRAS NO DIÁRIO “AS BEIRAS”


Público, 25 Julho 2010 – Edição Porto

LIVRARIA DE BD DE AUTOR NO “BAIRRO DOS LIVROS”

Por Pedro Rios

É uma daquelas livrarias que é um espelho do seu criador. A Invicta Indie Arts, na Rua das Oliveiras, no chamado "bairro dos livros" do Porto, existe para mostrar aos outros a paixão de Manuel Espírito Santo pela banda desenhada de autor - e, esperançosamente, conquistar novos adeptos.

Amante "de livros, cinema, música, banda desenhada e animação de autor", Manuel decidiu abrir um espaço com os livros de BD que habitualmente não se encontram nas livrarias. ''As pessoas vão a uma livraria e levam sempre com os mesmos ícones - Super-Homem, Astérix, Tintin e afins. Achei que se podia alargar um pouco mais o mercado da banda desenhada a um público que não gosta de BD ou animação porque só conhecem estes grandes ícones, o que limita e muito a divulgação de outros projectos interessantes", explica.

Na Invicta Indie Arts, aberta no final de Maio, encontram-se títulos de editoras especializadas como a Topshelf, a Astiberri e a Reprodukt e de autores corno Dame Darcy (da qual Manuel é agente europeu) e Alan Moore, muitos deles autografados, para além de obras editadas pela Cinemateca, sinal das ligações entre a BD e outras artes que Manuel quer explorar, contra "o mito que a banda desenhada é para um nicho ou está enfiada dentro de um gueto, quase como um estilo de sociedade secreta que poucos conhecem". Além dos livros, a Indie Arts vende também discos de vinil usados, bonecos e outros objectos. "Tentei incluir um pouco do coleccionismo e revivalismo que existe hoje em dia, mas tento fazer com que isso ocupe, no máximo, uns cinco por cento dos produtos que quero comercializar", diz. "Não tenho muito interesse em vender somente a coleccionadores; gostaria era de poder mostrar um pouco do meu mundo ao comprador ocasional".
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Jornal de Notícias, 26 de Julho de 2010
Por F. Cleto e Pina

HANS, O CAVALO INTELIGENTE
Miguel Rocha (argumento e desenho)
Ed. Polvo

UM AUTOR CONSTANTE E ESTIMULANTE

Revelado com “O Enigma Diabólico” – uma sátira a Blake e Mortimer -, Miguel Rocha tem sido um dos mais constantes e estimulantes criadores gráficos nacionais. “As pombinhas do sr. Leitão”, “A vida numa colher – Beterraba”, “Salazar – Agora, na hora da sua morte” ou “Portimão - A noiva que disputa o rio ao mar” são exemplo disso.

A HISTÓRIA DE UM CAVALO QUE FAZIA CONTAS

Desengane-se quem adivinha facilidade de leitura ou entretenimento ligeiro por se tratar de uma banda desenhada, pois uma das suas principais características é exigir ao leitor esforço e participação na elaboração, melhor, na interpretação da narrativa. Porque Miguel Rocha, mais do que contar uma história linear, optou por avançar pistas, cabendo-nos interpretá-las e compô-las de acordo com a nossa sensibilidade, capacidade de interpretação e formação social e cultural. Porque, de cada leitura de “Hans”, facilmente resultará uma história diferente, muitas vezes díspar, até.

Na sua génese está o caso verídico, datado do final do século XIX, do equídeo alemão Der Kluge Hans (Hans inteligente), pertença de W. Van Hostens, supostamente capaz de realizar operações matemáticas, cujo resultado revelava batendo com a pata no chão. Rapidamente transformado num fenómeno circense, originou a criação de uma comissão para avaliar se se tratava ou não de um embuste, que acabou por concluir que o animal era sensível à linguagem corporal dos espectadores, conseguindo pelas suas reacções “adivinhar” os resultados.

Adaptada da peça homónima de Francisco Campos, estreada em Setembro de 2006, a BD de Miguel Rocha, assume uma forte componente teatral e dramática, comportando-se as personagens muitas vezes como se estivessem num palco e havendo mesmo uma cortina a abrir e fechar o livro…

No entanto, a história de Hans é apenas acessória, ou melhor, um elemento de ligação entre várias histórias, centrando-se o livro em relações (ou dependências?) humanas – ou a dificuldade de relacionamento entre humanos. Pois Van Hostens engravidou a irmã da mulher que amava, não consegue assumir (nem libertar-se) da relação com Ângela, falha a abordagem à psiquiatra que devia avaliar Hans – e que também teve um caso mal resolvido com um dos seus pacientes…

Histórias que vão sendo reveladas em sucessivos flash-backs, ao longo dos cinco capítulos (actos) do livro (e das páginas “publicitárias” finais), com os diálogos entrecortados com declamações(?) que conferem um tom algo surreal ao todo. Para o que contribui também o virtuoso grafismo “enevoado” (digitalmente) de Miguel Rocha, em tons cinzentos/arroxeados, que obriga o leitor, muitas vezes, a adivinhar mais do que o desenho mostra.

Imagens da responsabilidade do Kuentro.
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"O "prato forte" é a BD (inédita) "O Homem que não Parava de Rir!", de 15 páginas. Devido à extensão desta história, os Portfólios são mais curtos, mas mantêm-se as histórias de Tantã & Liru e do Marselha. Aceitando ainda a sugestão de um amigo, passo a numerar e a assinar os exemplares, que não passarão dos 200 exemplares, como no número 1, e tal como pretendo manter nos próximos!

Simpático é o encorajamento de alguns leitores em que eu mantenha a explicação ou contextualização de alguns trabalhos, o que me agrada fazer e, assim sendo, vou continuando nessa senda!"
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Diário As Beiras, 24 de Julho de 2010

O REGRESSO DE BOUNCER

João Miguel Lameiras

Cinco longos anos após a publicação do 4º volume, eis que a Asa lança finalmente em português “O Fascínio das Lobas”, o 5º volume da série “Bouncer”, sossegando todos aqueles que já pensavam que esta era mais uma daquelas séries que a editora do Grupo Leya tinha deixado ficar pelo caminho.

Primeira incursão conjunta de Boucq e Jodorowsky pelo Oeste selvagem, depois da saga mística de “Face de Lua”, “Bouncer é apresentado como um western clássico, pelo próprio Jodorowsky (que já abordou o género num filme muito pouco convencional, “El Topo”). Mas, se o compararmos com outros westerns da BD europeia, como “Blueberry, ou “Comanche”, “Bouncer” apenas pode ser considerado “clássico” em termos da obra de Jodorowsky, pois embora os elementos fantásticos sejam relativamente discretos, as obsessões habituais na obra do argumentista do Incal, como as mutilações, a família e a religião, estão bem presentes nesta série extremamente violenta e povoada de personagens bizarras.

Mas, apesar de Jodorowsky assinar aqui um dos seus argumentos mais conseguidos, o melhor de “Bouncer” é mesmo o desenho de Boucq, verdadeiramente sumptuoso no tratamento dos cenários míticos do Monument Valley. Notável desenhador e narrador, Boucq cria aqui um fabuloso western de papel, filmado em “cinemascope”, com as vinhetas sobre o comprido a substituírem com vantagem o ecrã de 70 milímetros.

Saga que prova que Jodorowsky é capaz de conciliar o seu universo pessoal com os cânones do Western, numa história que Boucq desenha com notável virtuosismo, “Bouncer prossegue as suas aventuras com este “O Fascínio das Lobas” álbum que conclui a história iniciada em “A Vingança da Serpente”. Apesar de personagens carismáticas como os assassinos mexicanos, Jeovah, Angel e Christian Villalobos, os três anjos da morte, são as mulheres que dominam esta história, o que é evidente logo na capa do livro. Mulheres tão diferentes como a submissa Yin Li, a impiedosa Mara Mars e Antoine Grant, a mulher com nome de homem que vem substituir o Bouncer como carrasco de Barro-City e com quem o pistoleiro maneta se vai envolver.

Ainda que Jodorowsky resolva de forma algo preguiçosa, com a última confissão de um moribundo, a intriga policial que andou a construir nos últimos dois álbuns, os elementos surreais e a dimensão shakespereana que fazem de “Bouncer” um Western diferente dos outros, estão lá todos. Tal como está o traço virtuoso de Boucq, o único desenhador europeu capaz de fazer sombra a Moebius.

Numa altura em que a série já tem 7 volumes publicados em França, esperemos que a Asa não nos faça aguardar tanto tempo pelo próximo volume…

(“Bouncer 5: O Fascínio das Lobas”, de Boucq e Jodorowsky, Edições Asa, 64 pags, 14,10 €)
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