terça-feira, 13 de julho de 2010

BDpress #142: MORREU HARVEY PEKAR, O CRIADOR DE «AMERICAN SPLENDOR»

Não é que este seja um blogue necrológico, mas eles, os criadores de BD vão morrendo e não podemos fazer nada senão recordá-los aqui. Ficam os recortes da Agência Lusa e da UOL Brasil. Coloco também, mais abaixo, o texto de Nuno Franco “Pekarcinema - Das ruas de Cleveland” publicado no BDjornal #3, de Junho de 2005.

Harvey Pekar (1939-2010)

Agência Lusa, terça-feira, 13 de Julho de 2010 - 00:09

MORREU O CRIADOR DA BD «AMERICAN SPLENDOR»

Harvey Pekar, conhecido pela banda desenhada de culto “American Splendor”, foi encontrado morto pela sua mulher, Joyce Brabner, na passada segunda-feira.

O autor que escreveu sobre literatura e jazz em diversas publicações tinha sido distinguido em 1987 com o “American Book Award”.

As autoridades de Cleveland, em Ohio, já confirmaram a morte do artista conhecido pela sua personalidade anti-social e emocionalmente instável.

O artista tinha, além de problemas de cancro da próstata e hipertensão, graves crises de depressão.
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UOL Brasil, 12/07/2010

HARVEY PEKAR, DE "ANTI-HERÓI AMERICANO", MORRE AOS 70 ANOS NOS EUA

O quadrinista norte-americano Harvey Pekar, autor de "Anti-Herói Americano", morreu aos 70 anos nesta segunda-feira (12) nos Estados Unidos. Pekar foi encontrado morto por sua mulher, Joyce Brabner, na madrugada de hoje na casa do casal, em Cleveland Heights, Ohio, informou o portal "Cleveland.com".

A causa da morte ainda deve ser revelada. Pekar e sua mulher escreveram "Our Cancer Year" (Nosso Ano do Câncer, em tradução livre), após o quadrinista ser diagnosticado com câncer linfático em 1990.

Filho de imigrantes poloneses nascido no dia 8 de outubro de 1939, o roteirista tornou-se bastante popular quando sua série de HQ, publicada inicialmente em 1976, foi adaptada para o cinema em 2003, com Paul Giamatti no papel de Pekar. O trabalho, inclusive, conquistou o Grande Prêmio do Júri de drama no Festival de Sundance.

Vencedor do prestigiado prêmio literário American Book Award em 1987, "Anti-Herói Americano" mostra um retrato do autor, seu pessimismo crônico -- e cômico --, sua relação com amigos, com sua mulher e sua rotina como arquivista de hospital e colecionador de discos de vinil.

Pekar fazia as histórias e as entregava a amigos desenhistas como Robert Crumb, que colaborou com os quadrinhos do autor e é fã declarado de seu trabalho.

Eles se conheceram em 1962, quando Crumb ainda estava começando a explorar as possibilidades das HQs.

Uma das parcerias com Crumb se deu no roteiro autobiográfico "Bob & Harv: Dois Heróis Anti-Americanos". A obra foi indicada ao grande Prêmio do 37º Festival de Quadrinhos de Angoulême, um dos mais prestigiados do mundo, que aconteceu em janeiro deste ano na região central da França.

"The Beats", um dos últimos álbuns que ele ajudou a roteirizar, sobre a geração beat, tem previsão de ser lançado no Brasil no segundo semestre deste ano, anunciou nesta segunda (12) a editora Saraiva.

Capa do filme "American Splendor", de 2003, com Paul Giamatti como Harvey Pekar
e
Harvey Pekar em cena do filme "American Splendor", no qual aparece fazendo comentários
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PEKARCINEMA - DAS RUAS DE CLEVELAND

Nuno Franco*

No ano de 1976, em Cleveland, Ohio, um simples empregado burocrático de nome Harvey Pekar decidiu fazer aquilo de aquilo que poucos se tinham lembrado. Numa época em que a BD se dividia entre os super-heróis, que odiava, e os resquícios de um movimento "underground” em decadência, Pekar pegava na sua vida para proclamar a difusa fronteira entre realidade e autobiografia. Queria fazer mais do que ser apenas mais um arquivista de hospital e praticar uma das suas paixões, a escrita. A sua mulher tinha-o deixado recentemente e a vida não lhe corria bem. Queria deixar a sua marca, mas não era tempo para heróis. Muito menos ele, um típico judeu urbano cuja vida se resumia a atafulhar a casa discos de jazz e blues, a coleccionar todas e quaisquer doenças imaginárias (até ter uma a sério), a ler compulsivamente e sobretudo, a chatear tudo e todos, incluindo ele próprio. Um “Zé-ninguém” que iria escolher uma via de intervenção pessoal, seguro que desse modo iria atingir milhares de leitores. Sobretudo – aqui ironicamente – para os muitos que elegem a sua obra como um portentoso monumento ao tédio (nos muitos episódios da série nunca há realmente uma conclusão, são antes apontamentos sobre situações que lhe ocorrem durante o seu dia-a-dia). Mas esses, já sabemos que a cada instante querem fugir da realidade.

A partir de “story boards” algo toscos, que apresentou ao seu amigo Robert Crumb para que este desenhasse, queria demonstrar que a BD podia estar ali tão perto, da realidade de qualquer um. Em 1972, Harvey Pekar já havia sido personagem de uma das curtas histórias de Crumb (haviam-se conhecido dez anos antes, muito antes de Crumb ser famoso), mas com “American Splendor” nascia algo diferente. Um projecto caseiro de periodicidade anual, sobre uma América que era tudo menos esplendorosa, e onde ele próprio e os que o rodeiam eram o centro e fim. Como subtítulo, "From off the streets of Cleveland".

Comentador de rádio, crítico de jazz e literatura, ao longo dos anos todos esses conhecimentos nunca lhe permitiram contudo ter dinheiro para pagar grandes desenhadores – gastava-o quase sempre em discos. Os que permaneceram ao longo destas três décadas, permaneceram por espírito de resistência ou por serem fãs de primeira hora como David Stack, Crumb, mais tarde, Joe Sacco e ou recentemente David Collier, entre muitos outros.

Embora a sua vida, pouco tenha mudado desde então, viu recentemente Hollywood interessar-se pela sua obra. Mas não qualquer Hollywood. A adaptação em 2003 de “American Splendor”, de Shari Singer e Robert Pulcini, realizadores vindos da área do documental, lembra um pouco o cinema independente e corrosivo dos anos 70, já que aposta em idêntica subvenção de regras. Mas mais importante, “American Splendor” é o filme que poderia fazer a transição entre esses anos 70 e a época de hoje, da qual só se espera novos artifícios de espectacularidade como o de se ver super-heróis em acrobacias no grande ecrã.

Com Paul Giamatti no papel de Pekar, numa notável composição de personagem, o filme permite todo um trabalho criativo em torno da sua figura. Claro que já havia a sua imagem nos comics, desenhados, entre outros, por nomes como Gary Dumm, Joe Sacco, Josh Neufeld, Chester Brown, Crumb, e cujas vinhetas e pranchas surgem intercaladas no filme. Às tantas, temos um, dois ou mais Pekar’s, com as “personagens” verdadeiras a tomaram o lugar dos seus duplos, enquanto estes descansam. Todas essas figuras, incluindo Pekar “himself” e os seus amigos, a sua mulher, a argumentista Joyce Brabner (Hope Davis), coexistem no filme, conferindo uma noção de “patch work” que mistura vários tipos de registo: desde o documentário, à encenação de todo um percurso até à entrevista.

Fascinado pela personalidade de Pekar, os autores não perdem contudo o retrato de grupo – que inclui alguns genuínos “nerds” como Toby –, mesmo que seja a Pekar que voltem sempre. Para além de uma visão interessante sobre Cleveland, onde aparentemente nada acontece, em “American Splendor” reencontramos não só a sua infância como a sua paixão pela BD, que lê ao pequeno-almoço, como a sua eterna desarrumação e a tralha que vai amontoando em casa. Refira-se ainda a evocação dos seus amargos de boca, nos 80, contra o apresentador David Letterman, a quem acusou em directo de ser instrumento do poder da cadeia NBC, ligada a corporações militares. A contribuir ainda mais para o desalinho existencial que a sua vida a determinado momento se torna, e para contribui também o seu acentuado pessimismo, tudo explode em surdina com a notícia do aparecimento de um cancro, reportado cronologicamente ao ano de 1991 e ao qual sobrevive (Harvey Pekar, em parceria com Joyce Brabner e o desenhador Frank Stack, expôs essa sua luta na novela gráfica "Our Cancer Year").

Os realizadores não partem destes pressupostos não apenas para contar a vida de Pekar, utilizam-nos também para mostrar o peso real de um país como os Estados Unidos. Robert Crumb fugiu porque já não aguentava, entre outras coisas, com o “politicamente correcto”. Nessa perspectiva, o filme mostra Pekar como artista reencontrado, ele que se vê agora num novo papel: o de estrela de cinema que, em Cannes, diz “estar a cagar-se para tudo” (transcrição de um diálogo de um dos extras da edição dvd). Sabemos que não está… O melhor que pode acontecer a um autor independente é a sua obra passar ao cinema. Ganha-se reconhecimento, dinheiro e sobretudo leitores. Para já, aposentou-se. Mas é como ele sempre disse, "a vida banal é uma coisa complexa” ….

(*) in BDjornal #3, Junho 2005



Imagens de "Amerivan Splendor", os comics.

Imagens de "American Splendor", o filme.

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