terça-feira, 20 de julho de 2010

BDpress #146: “GASTON LAGAFFE” - PÚBLICO – SEXTA-FEIRA 16 JULHO 2010 – TERCEIRO ÁLBUM SAI AMANHÃ COM O PÚBLICO + JOÃO MIGUEL LAMEIRAS ESCREVE SOBRE A PERSONAGEM NO DIÁRIO “AS BEIRAS”

Público, 16 de Julho 2010

Por Carlos Pessoa

Gafes de um Fanfarrão, terceiro álbum da colecção de BD Gaston Lagaffe

DESGRAÇAS E ACIDENTES NA REDACÇÃO DE UMA REVISTA DE QUADRADINHOS

O herói é uma criatura singular e única com os seus comportamentos bizarros, delirantes, estranhos, insólitos ou inesperados. Descobrir-se-á ao longo do tempo que até tem uma pequena família...

Nos primeiros tempos da série, a redacção da revista Spirou é o espaço único de circulação de Gaston, com o seu (quase) infindável repertório de gags.

Ao contrário do que se poderia concluir, esta é uma fase em que Franquin praticamente nunca passava pelos escritórios da publicação. O artista desenhava em casa, de memória, mostrando' com grande verosimilhança o que seria o ambiente de trabalho num espaço relativamente fechado.

Numa entrevista a Numa Sadoul (Et Franquin Créa la Gaffe, 1986), Franquin lamentaria essas
circunstâncias: "Tenho pena que não me tenha aproximado da vida no escritório para o conhecer melhor e, consequentemente, fazer-lhe uma sátira que teria outra dimensão. Na série Gaston, a redacção é completamente artificial, fruto exclusivo da minha imaginação, não se baseia em nada de real."

O mesmo acontece com as diversas personagens que preenchem o espaço e constituem contrapontos constantes do herói. Também neste caso, reconheceu o artista, são criaturas totalmente inventadas - se excluirmos o senhor Dupuis, patrão da revista e das edições com o seu nome, que Franquin fazia aparecer fisicamente de forma quase furtiva nas tiras (uma perna, um braço, o pé...), mas com uma presença bem vincada na série.

Havia uma excepção: a barbicha de Prunelle, proveniente de um trabalhador da redacção flamenga de Spirou que usava uma barba aparada numa altura em que isso raramente se via...
Nesse mundo editorial, Gaston é uma criatura singular e única com os seus comportamentos bizarros, delirantes, estranhos, insólitos, inesperados. Mas que, descobrir-se-á ao longo do tempo, até tem uma família. O destaque vai para a tia Hortense, que nunca aparece mas à qual dá apoio. Fica a saber-se que a velha senhora tem um jardim – pode presumir-se que é daí que virá o cacto que Gaston instalou na redacção – e manifesta gostos musicais muito particulares. O herói tem igualmente um tio, Odilon Lagaffe, motorista de autocarro, um sobrinho que é a cara do tio, e um primo cujo desporto favorito é disparar sobre patos de plástico...

Neste primeira fase, o artista belga conta com a colaboração de Jidéhem, que aplicava tinta nas imagens anteriormente desenhadas a lápis por Franquin. O próprio herói passou pela mão do colaborador, que lhe conferiu o aspecto mais tenso e rígido que apresenta nesse período – de facto, Gaston é o contrário de tudo isso, com a sua atitude preguiçosa e sem energia vital.

A ideia inicial de Franquin era que Jidéhem se viesse a ocupar integralmente desta série, com a qual se sentia muito à vontade. O problema era o próprio Gaston, cujas características não eram muito compatíveis com o estilo de Jidéhem, vocacionado para criar figuras mais secas e duras. Resultado final, segundo Franquin: "Ele concentrou-se nos cenários e eu fiquei com Gaston para mim."

O ÁLBUM

A genial criação de Franquin é o anti-herói por excelência da banda desenhada franco-belga. Passeia-se pela redacção da revista Spirou, onde o seu humor delirante e uma capacidade inventiva sem limites lançam a confusão e põem a cabeça em água a Fantásio, De Mesmaeker, Menina Joana, Prunelle ou agente de polícia José Narigudo. Gafes de um Fanfarrão (argumento e desenho de Franquin, com a cumplicidade de Jidéhem) é o terceiro álbum da colecção integral dos gags de Gaston, agrupados por ordem cronológica de saída l recolhidos em 19 álbuns de capa dura.

UMA PERSONAGEM: De Mesmaeker

É um dos bombos da festa no "circo" em que Gaston transformou a redacção da revista Spirou. Entra sempre animado por um irreprimível desejo (há quem lhe chame masoquismo...)de fazer negócios, mas nunca o consegue - os malfadados contratos acabam quase invariavelmente destruídos antes de serem assinados. A sugestão para criar esta personagem veio de Greg (criador. entre outros. de Achille Talon). contou um dia Franquin. E assim foi. Pouco interessa o que está consagrado nos documentos. pois tudo gira em tomo das peripécias que impedem a assinatura dos malfadados papéis. Uma ou outra vez ela até é consumada. mas há sempre um imprevisto de última hora que faz voltar tudo ao princípio - é o caso da situação em que excrementos de um pombo recolhido por Gaston na redacção caem em cima das assinaturas. Provocando pela enésima vez a fúria de De Mesmaeker...

GAFES DE UM FANFARRÃO
Quarta-feira, 21 de Julho
Por + 6,40 €
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Imagens da responsabilidade do  Kuentro
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Diário "As Beiras", 10 de Julho 2010

Por João Miguel Lameiras

O REGRESSO DE GASTON LAGAFFE

Depois de “Alix”, as edições Asa e o jornal Público recuperam outro personagem clássico da BD franco-belga, numa nova colecção a distribuir com o jornal. Desta vez, o escolhido foi Gaston Lagaffe, do genial André Franquin.

Criado em 1957, Gaston resultou de uma proposta, feita por Franquin a Yvan Delporte, então director da revista Spirou, de criar uma personagem “sem emprego, nem qualidades” que, ao fim de algum tempo a vaguear pela revista sem ter nada para fazer, se torna empregado de escritório e moço de recados na Editora Dupuis, onde é colega de Fantasio. Um emprego que não o impediu de prosseguir com aquilo que melhor sabe fazer, ou seja, nada! Lagaffe destaca-se do resto dos funcionários da editora em que trabalha pela sua grande capacidade inventiva, enorme preguiça e extraordinária aptidão para provocar confusões e fazer estragos com um mínimo de esforço, embora nunca de forma propositada. Peculiares características que lhe garantiram o sucesso junto dos leitores, sucesso esse que lhe assegurou a sua própria série, a partir de Dezembro de 1961.

Desde então, Franquin, que até 1968 contou com o apoio de Jidéhem na passagem a tinta e desenho dos cenários, escreveu e desenhou mais de 900 gags protagonizados por Gaston Lagaffe. Gags esses, que começaram por ser ilustrações soltas e que cedo evoluíram para a meia página e pouco depois a página inteira, com Gaston a conquistar rapidamente o seu espaço e a afirmar-se com um dos mais populares heróis da revista Spirou.

A popularidade de Gaston não se limitou ao mercado franco-belga, chegando também a Portugal, onde esse (anti) herói inactivo, depois da estreia na revista Foguetão em 1961, rebaptizado como Zacarias, e de algumas aparições nas páginas das duas séries da revista Spirou e do Jacaré, se tornou bem conhecido dos leitores portugueses graças às edições em álbum da Editora Arcádia, em inícios dos anos 80 e, um pouco mais tarde, da Meribérica, editora que nas décadas seguintes disponibilizou em álbum a quase totalidade das trapalhadas de Gaston, embora, com a excepção deste 1º volume, que foi o último que a Meribérica editou, com uma organização completamente diferente da seguida nesta edição da Asa com o jornal Público, que segue a mais recente edição francesa. As primeiras histórias recolhidas neste volume, apresentam a personagem e enquadram-na no seu pequeno mundo – o local de trabalho, a revista Spirou, e mais tarde o círculo dos seus amigos. A relação com Fantásio e com o seu emprego domina a maioria das histórias, tendo Franquin realçado a irascibilidade, perfeccionismo e mesmo alguma pomposidade de Fantásio, para melhor contrastar o carácter inanimado (e humano) de Gaston. A falta de sorte ou de jeito tem normalmente um desfecho violento ou infeliz para Fantásio, que se vai resignando à amizade com Gaston, nunca desistindo, contudo, de o tentar corrigir.
A colecção, de 18 títulos, começou a ser distribuída esta quarta-feira, com o primeiro volume a um preço especial de 2,50 €, ficando os restantes a 6,40 €, preço perfeitamente aceitável para um álbum de 48 páginas em capa dura.

(“Gaston”, de Franquin, Edições Asa/Público, 48 pags, 6,40 €. Todas as semanas em distribuição conjunta com o jornal "Público", entre 7 de Julho a 10 de Novembro de 2010)

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