sexta-feira, 9 de julho de 2010

BDpress #139: UM POUCO DE HISTÓRIA – O QUE É O BDpress + João Miguel Lameiras in Diário As Beiras - ASTROBOY EM PORTUGUÊS

O BDpress – UM POUCO DE HISTÓRIA

Aqui há dias perguntaram-me se este “subtítulo” BDpress era “uma publicação, ou coisa no género ?”. Esclareço: o BDpress foi um fanzine que editei mensalmente, de Janeiro de 2004 a Março de 2005 (em Abril sairia o #1 do BDjornal) e consistia numa compilação de recortes de imprensa, sobre Banda Desenhada, publicados em vários jornais e revistas durante o mês. A ideia para este fanzine, foi-se-me entranhando na cabeça ao longo de uma série de Encontros da Tertúlia BD de Lisboa em 2003, por causa das Folhas Volantes que Geraldes Lino distribui durante os mesmos e com o mesmo princípio: recortes relevantes de imprensa sobre BD. Pensei que seria interessante recolher textos sobre BD, sem serem apenas os relevantes: tudo o que conseguisse. Portanto, as Folhas Volantes são as "mães" do BDpress.

Assim, desatei a abarbatar tudo quanto era jornal e revista. Tive a sorte de trabalhar na Câmara Municipal de Cascais e, como muita gente saberá, as Câmaras Municipais compram diariamente quase todos os títulos de imprensa que existem no mercado (para os seus arquivos de imprensa), podendo fazer essa recolha sem gastar quase um cêntimo.

Saíram 15 números do BDpress e alguns deles atingiram as 70 páginas.

Em Outubro de 2008, para fornecer matéria-prima que alimentasse com mais continuidade o Kuentro, resolvi fazer novas recolhas, agora não tão exaustivas e publicar recortes aqui no blogue, com textos que a muita gente passarão despercebidos. Dei a essas entradas com recortes o subtítulo óbvio de Recortes, até que em Maio de 2009 resolvi recuperar o título BDpress (recortes de imprensa), tendo retirado há pouco tempo, o explicativo entre parentesis.

Algumas capas...

... e miolo do BDpress #1
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Diário As Beiras, 3 de Julho de 2010

ASTROBOY EM PORTUGUÊS

João Miguel Lameiras

Aproveitando a chegada aos cinemas nacionais da mais recente adaptação ao cinema de animação de “Astro Boy”, o pequeno robot criado pelo mestre da BD Japonesa, Osamu Tezuka, a Asa acaba de lançar em português a série “Astro Boy”. Esse lançamento é feito através de uma colecção em 3 volumes, distribuídos a um ritmo mensal, que recolhe alguns dos melhores episódios da série, proporcionando aos leitores nacionais uma pequena amostra do imenso talento do mais importante nome da BD japonesa, que em pouco mais de 40 anos de carreira, produziu mais de 150 000 páginas de BD e realizou mais de 60 filmes de animação.

Admirador confesso de Walt Disney, Tezuka estreia-se na BD em 1947, com “A Nova Ilha do Tesouro”, o 1º título de uma vastíssima obra que iria revolucionar claramente os “mangá” (nome pelo qual é conhecida a BD no Japão), tanto em termos estéticos como narrativos. Num Japão devastado pela guerra, as histórias de evasão e aventura fantástica e ficção científica, de que “Astroboy” é um dos exemplos mais populares, criadas por Tezuka, conquistaram facilmente um público em busca de emoção e divertimento, para além de criarem as bases do mangá tal como o conhecemos.

Para além de um estilo caricatural, em que é visível a influência dos artistas da Disney, de grande dinâmica e de grande legibilidade (portanto fácil de reproduzir em mau papel e de transpor para animação), que o aproxima da “linha clara” de Hergé, o traço de Tezuka tem como principal característica um grande detalhe e realismo no tratamento dos cenários, em oposição à estilização dos rostos (outro ponto em comum com o trabalho de Hergé) onde pontificam uns olhos enormes e muito abertos que, para a maioria do público ocidental são vistos como um sinal identificador do mangá. Outra característica inovadora da obra de Tezuka, e que se irá institucionalizar a partir dele, é a diferente forma de representar o movimento, com os personagens a aparecerem de forma nítida sobre um fundo representado por raios concêntricos (ao contrário do que sucede na BD ocidental em que os objectos em movimento aparecem desfocados contra um fundo nítido), o que para além de facilitar bastante o trabalho dos desenhadores (que assim escusam de desenhar os pormenorizados cenários) é facilmente apreendido pelo leitor.

A partir também da obra (monumental e incontornável) de Osamu Tezuka nasceu e floresce a actual indústria dos “mangá” e também da “anime”, pois, ao criar em 1961, a empresa de produção Mushi Productions, que se vai ocupar da adaptação à animação televisiva de algumas séries da sua autoria, Tezuka vai dar uma primeiro passo no sentido da ligação quase umbilical actualmente existente entre “manga” e “anime” (o cinema de animação japonês), que faz com que qualquer manga de sucesso seja automaticamente transposto para a animação, o que naturalmente, aconteceu também (já por diversas vezes) com “Astroboy.

Astroboy um pequeno robot de aspecto humano, construído pr um cientista louco, o Dr Temna, à imagem e semelhança do seu filho que tinha morrido num acidente, que vai ser abandonado pelo seu criador e vendido como escravo para um circo, até que outro cientista, o Doutor Ochanomizu, se apercebe das suas enormes possibilidades e o resgata, dando-lhe as condições para se tornar um dos robots mais poderosos da Terra. Criado em 1951, “Astroboy” cedo se tornou extremamente popular tanto no Japão como nos Estados Unidos, onde chegou através da série de animação dos Estúdios Mushi produzida nos anos 60. Aliás, o nome Astroboy foi-lhe dado pelos americanos, pois a designação original da série é "Tetsuwan Atom", o que significa "O Poderoso Átomo" e a popularidade da série nos EUA é atestada pela homenagem feita por Frank Miller e Geoff Darrow na série "The Big Guy e Rusty, the Boy Robot".

Desde então, Astro Boy tem sido alvo de inúmeras edições e reedições, o que é visível na introdução feita por Tezuka ao longo da própria história, que contextualiza a série para uma nova geração de leitores, dirigindo-se directamente a esses leitores, em mais uma prova do carácter inovador de uma série clássica, mas que envelheceu muito bem.

Parabéns à Asa pela escolha de Astroboy, que lhe permite estrear-se “a sério” (títulos anteriores, como a série “Warcraft”, embora adoptassem a estética “mangá”, não eram feitos por japoneses) na edição de mangá em Portugal, com uma bela edição que, além do mais, respeita o sentido de leitura original japonês.

(“Astro Boy” Vol 1, de Osamu Tezuka, Edições Asa, 224 pags, 8,00 €
“Astro Boy Vol 2, de Osamu Tezuka, Edições Asa, 208 pags, 8,00 €)



Imagens da responsabilidade do Kuentro.
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