quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bdpress #221: O MAIOR FESTIVAL DE BD (HQ, COMICS, MANGÁ, ETC...) DO MUNDO COMEÇA HOJE EM ANGOULÊME! LER CARLOS PESSOA NO PÚBLICO (1)

Dos recortes que damos a conhecer nesta edição do Kuentro, o primeiro texto saíu hoje no Público impresso e o segundo no Público online de ontem. São textos de Carlos Pessoa, relativamente semelhantes, mas com diferenças significativas, pelo que vale a pena mostrá-los aos dois. Foram ainda publicados mais dois textos no Público online de ontem e vamos poder lê-los (quem não os tenha lido já) aqui no Kuentro em Bdpress, enquanto durar o Festival de Angoulême, ou seja, até domingo, dia 30. Amanhã, colocaremos aqui todas as capas dos livros que constam da listagem da Selecção Oficial para os prémios do 38º Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême 2011.


Público, 27 Janeiro 2011

PEANUTS E BD SOCIAL NO FESTIVAL DE ANGOULÊME

Por Carlos Pessoa

Nunca se publicou tanto e nunca tantos autores viveram da banda desenhada. Durante quatro dias, o festival faz a festa

Começa hoje a 38.ª edição do Festival Internacional de BD de Angoulême. Durante quatro dias, autores, editores e público transformam a pequena cidade da Charente Marítima num espaço cosmopolita único, preenchido com exposições, sessões de autógrafos, debates, concertos e um sem-número de animações.

Os grandes destaques são as exposições consagradas ao universo dos Peanuts, do americano Charles M. Schulz, que faz 60 anos no final deste ano, e à obra do francês Baru, Grande Prémio do festival em 2010. Do primeiro não é necessário dizer muita coisa - é uma das mais célebres bandas desenhadas do mundo, divulgada durante décadas em Portugal pelo desaparecido Diário de Lisboa e parcialmente editado em álbum pela Afrontamento. Já no que diz respeito ao autor francês, publicado em parte pela editora alternativa Polvo, é reduzido o conhecimento do público português. A exposição cobre o que o próprio Baru define como "uma deambulação pelo interior da cultura operária, da sua grandeza à sua decadência", dando a conhecer de forma sistematizada a temática dominante das suas bandas desenhadas, centradas na vida das classes trabalhadoras.

Para o crítico francês Laurent Mélikian, este é um dos pontos fortes do festival: "Fala-se de um olhar social na banda desenhada, é certo. É também um sinal de que este ano nos interrogaremos mais sobre o fundo de uma banda desenhada do que sobre a sua forma, e isso não me desagrada."

O peso da criação francófona na programação é grande, como de costume. Em primeiro plano, está uma exposição dedicada à série heroic fantasyLanfeust de Troy, de Christophe Arleston, Didier Tarquin e Jean-Louis Mourier, inédita em Portugal. Noutro registo, são percorridos cinco séculos da colonização francesa, tendo como ponto de partida os quatro volumes da Petite Histoire des Colonies Françaises (argumento de Grégory Jarry e desenho de Otto T.). Um terceiro momento é dedicado à nova BD belga francófona, permitindo o contacto com a obra de autores "experimentais" (Benjamin Monti, Ilan Manouach, Sacha Goerg, etc), criadores da editora Frémok (Thierry Van Hasselt, Vincent Fortemps, Olivier Deprez ou Eric Lambé) e artistas "independentes" (Joe G. Pinelli, Louis Joos, Deniz Deprez ou David Vandermeulen).

Países "emergentes"

Como festival internacional, Angoulême é o ponto de confluência da criação de todo o mundo. Fazendo há muito parte do imaginário francês, a BD oriental (sobretudo japonesa e sul-coreana) volta a estar presente: Hong Kong Stars revela o dinamismo, originalidade e liberdade criativa dos artistas da antiga colónia britânica, distanciados do modelo mangá (BD japonesa) e das condicionantes ideológicas que pesam sobre autores e editores chineses. É esta possibilidade de "acumular ao vivo tanta informação sobre a banda desenhada francófona e internacional" que Patrick Gaumer, crítico e autor do Larousse de la BD, destaca na programação deste ano, enumerando as presenças: Turquia, Arménia, Hong Kong, Taiwan, Finlândia e África. No mesmo sentido se pronuncia Didier Pasamonik, chefe de redacção do site ActuaBD, particularmente interessado na "enorme presença de países "emergentes" na BD" .

Com a sua programação, Angoulême é o ponto culminante de um ciclo que tem na edição anual de banda desenhada o seu suporte. E, nesse capítulo, os tempos continuam a ser favoráveis, como se pode ler no relatório anual realizado por Gilles Ratier, secretário-geral da Associação de Críticos e Jornalistas de Banda Desenhada: em 2010, a produção aumentou 5,46 por cento relativamente ao ano anterior, tendo sido publicados 5165 livros de BD (4863 um ano antes). Houve crescimento no campo das novidades, traduções e reedições, na sua esmagadora editadas por nove grupos económicos que dominam o sector (60 por cento da produção), dando trabalho a 1446 artistas que vivem (ou tentam viver) da banda desenhada.
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Charles M. Schulz


Público online, 26.01.2011 
Por Carlos Pessoa

O MAIS IMPORTANTE FESTIVAL DE BD DA EUROPA PRESTA TAMBÉM HOMENAGEM À COMIC STRIP PEANUTS

Angoulême arranca com os olhos postos na banda desenhada social de Baru

Entre a abertura aos novos talentos e a celebração dos 60 anos da comic strip Peanuts, o mais importante festival europeu consagra este ano a banda desenhada social de Baru. Como nas anteriores edições, autores, editores e público transformam durante quatro dias a pequena cidade da Charente Marítima num espaço cosmopolita único, preenchido com exposições, sessões de autógrafos, debates, concertos e um sem número de animações.

Os grandes destaques são as exposições consagradas ao universo dos Peanuts, do americano Charles M. Schulz, que faz 60 anos no final deste ano, e à obra do francês Baru, Grande Prémio do festival em 2010. Do primeiro não é necessário dizer grande coisa – é uma das mais célebres bandas desenhadas do mundo, divulgada durante décadas em Portugal pelo desaparecido Diário de Lisboa e parcialmente editado em álbum pela Afrontamento. Quanto ao autor francês, publicado em parte pela editora alternativa Polvo, é reduzido o conhecimento do público português. A exposição cobre o que o próprio Baru define como “uma deambulação pelo interior da cultura operária, da sua grandeza à sua decadência”, dando a conhecer de forma sistematizada a temática dominante das suas bandas desenhadas, centradas nas questões ligadas à vida das classes trabalhadoras. Para o crítico francês Laurent Mélikian este é um dos pontos fortes do festival deste ano: “Fala-se de um olhar social na banda desenhada, é certo. É também um sinal de que este ano nos interrogaremos mais sobre o fundo de uma banda desenhada do que sobre a sua forma, e isso não me desagrada.”

O peso da criação francófona no conjunto da programação é grande, como de costume. Em primeiro plano, está uma exposição dedicada ao mundo da série heroic fantasy Lanfeust de Troy, de Christophe Arleston, Didier Tarquin e Jean-Louis Mourier, inédita em Portugal. Noutro registo, são percorridos os cinco séculos da colonização francesa, tendo como ponto de partida os quatro volumes da Petite Histoire des Colonies Françaises (argumento de Grégory Jarry e desenho de Otto T.). Um terceiro momento é dedicado à nova BD belga francófona, permitindo o contacto com a obra de autores “experimentais” (Benjamin Monti, Ilan Manouiach, Sacha Goerg, etc), criadores de referência da editora Frémok (Thierry Van Hasselt, Vincent Fortemps, Olivier Deprez ou Eric Lambé) e artistas “independentes” (Joe G. Pinelli, Louis Joos, Deniz Deprez ou David Vandermeulen).

Merece também referência a exposição sobre jovens talentos, que reúne 20 “autores a descobrir” num futuro próximo.

O fascínio pelo Oriente

Como festival internacional, Angoulême é o ponto de confluência da criação de todo o mundo. Fazendo desde há muito parte do imaginário francês, a banda desenhada oriental (sobretudo japonesa e sul-coreana) volta a estar presente: Hong Kong Stars é a exposição que revela o dinamismo, originalidade e liberdade criativa dos artistas da antiga colónia britânica, distanciados do modelo mangá (BD japonesa) e das condicionantes ideológicas que pesam sobre os autores e editores chineses.

Seguindo uma prática que já se tornou tradição em Angoulême, o festival inclui um Espace Mangasie, onde a banda desenhada asiática é rainha: animações, exposições, encontros, projecções audiovisuais, pavilhões de editores, performances, há um pouco de tudo para satisfazer os inúmeros admiradores e cultores deste género temático e gráfico.

É a possibilidade de “acumular ao vivo tanta informação sobre a banda desenhada francófona e internacional” que Patrick Gaumer, crítico e autor do Larousse de la BD, destaca na programação deste ano, enumerando a seguir as presenças: Turquia, Arménia, Hong Kong, Taiwan, Finlândia e África. Didier Pasamonik, chefe de redacção do site ActuaBD, pronuncia-se no mesmo sentido e manifesta-se particularmente interessado na “enorme presença de países ‘emergentes’ na BD” . Para Laurent Mélikian, “Angoulême é sempre um momento de reencontro com uma banda desenhada que não conheço, seja francesa ou, sobretudo, estrangeira”.


Como se pode ler nos textos acima, os franceses não brincam em serviço nestas coisas da banda desenhada, estando já disponível o relatório da ACBD (Associação de Críticos de Banda Desenhada) sobre o estado do mercado francês de BD, referente a 2010. É surpreendente e quem quiser lê-lo, pode aceder AQUI à versão em PDF.
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