sábado, 17 de Março de 2012

PARA UMA BIOBIBLIOGRAFIA DE JEAN GIRAUD-MOEBIUS (1938-2012) - PARTE I





UMA BIOGRAFIA 
DE JEAN GIRAUD - MŒBIUS

Jean Henry Gaston Giraud nasceu em 8 de Maio de 1938, em Nogent-sur-Marne, nos subúrbios de Paris, numa família modesta. A partir dos 3 anos passou a viver com os seus avós paternos, devido à separação dos pais. Aos 12 ou 13 anos começou a desenhar cowboys e índios, aos 14, o seu pai mostrou-lhe um exemplar da revista Fiction e Jean Giraud passou a coleccionar regularmente a Fictionet Galaxie durante uma quinzena de anos. Aos 15 anos vende a sua primeira história a Jacques Dumas Marijac, editor e criador da série Les trois mousquetaires du maquis, baseada na sua experiência na resistência francesa durante a II Guerra Mundial e que viria a ser laureado com o Grand Prix de la Ville d'Angoulême em 1979.

Giraud inicia aos 16 anos a sua formação técnica na École des Arts Appliqués e aos 18 publica as suas primeiras ilustrações enquanto vai trabalhando em publicidade, na moda, ou em decoração. Nessa altura criou também a sua primeira banda desenhada, Frank et Jérémie, publicada entre Fevereiro e Julho de 1956 nos nºs. 10 a 17 da revista mensal Far-West. A partir desse ano decide dedicar-se inteiramente à banda desenhada e começa a colaborar com revistas como Fripounet et Marisette, Coeurs Vaillants e Sitting-Bull.

Depois de ter passado uma temporada de nove meses no México com a sua mãe, Jean Giraud efectua o seu serviço militar, primeiro na Alemanha (onde estavam ainda estacionadas tropas dos Aliados vencedores da II Grande Guerra) e depois na Argélia. Em 1961 torna-se aprendiz de Jijé (pseudónimo de Joseph Gillain), que tinha, nessa época uma sólida reputação no mundo da banda desenhada europeia. Giraud foi encarregue de realizar um episódio de Jerry Spring: La Route de Colorado. Era uma série de western publicada na revista Spirou. Trabalhou também com Jean-Charles Mezières na colecção L’Histoire des Civilisations, publicada pela Hachette em 1961 e 1962.


Em 1963, Jean-Michel Charlier procurava um desenhador para um western a ser publicado na revista Pilote, Jijé recusou a oferta, mas recomendou Giraud a Charlier. Assim começavam as aventuras do famoso tenente Mike Donovan, mais conhecido como Blueberry, e cuja aparência – e o nariz quebrado – foi inspirada no actor Jean-Paul Belmondo. A série, foi um grande sucesso e tornou-se mesmo num clássico do género. Giraud assinava as pranchas desta série com o diminuitivo Gir, mas o seu nome completo aparece na capa dos álbuns que se foram editando depois da pré-publicação na revista, como era normal na época.

A saga de Blueberry conta com vinte e oito álbuns e três séries derivadas:
La Jeunesse de Blueberry – 18 álbuns, escrita por Jean-Michel Charlier e François Corteggiani, desenhada por Jean Giraud, Colin Wilson, e Michel Blanc-Dumont.
Marshall Blueberry – 3 álbuns, com argumentos de Jean Giraud e desenhada por William Vance e Michel Rouge.
Mister Blueberry – 6 álbuns, nos quais Giraud assina tanto o argumento como o desenho. Para esta série, Giraud realizou um último álbum (fora da série), a que daria o número zero da série: Apaches, em 2007.



Paralelamente ao seu trabalho em Blueberry, entre 1963 e 1964, Giraud publicou 21 histórias curtas na revista Hara-Kiri (importante título de humor e sátira, criado por François Cavanna, que antecedeu o jornal Charlie Hebdo), com o pseudónimo com o qual seria mais conhecido, Moebius. Das várias histórias desta fase destaca-se L'Homme du XXIe siècle, lançada em maio de 1963, na Hara-Kiri #28.

O pseudónimo Moebius foi inspirado no nome do matemático alemão August Ferdinand Möbius, inventor da conhecida “fita de Möbius” – que é o objecto obtido pela colagem das duas extremidades de uma fita, após dar meia volta numa delas.

 A fita de Möbius

No final dos anos 1960 Jean Giraud ilustra uma série de revistas e de livros de ficção científica nos quais aborda temas mais pessoais e menos convencionais. Assina estas ilustrações como Moebius, mas só em 1971 voltará a assinar uma banda desenhada com esse pseudónimo.

1971 - Com Hugo Pratt 

1972 - Em Nova Iorque, com Neal Adams e John Kubert

Um dos últimos trabalhos de Giraud para a revista Pilote foi La Deviation (O Desvio), de 1973, uma BD em preto e branco, de sete páginas, assinada como Gir, mostrando uma viagem de férias surreal. Em desacordo com a linha editorial da Pilote, bate com a porta. Começa a trabalhar para a L’Écho des Savanes, revista fundada em Maio de 1972 por Claire Bretécher, Marcel Gotlib e Nikita Mandryka, autores que haviam também cortado com a Pilote. Assim, em 1974, Moebius desenhou Cauchemar Blanc (que foi adaptado para o cinema por Mathieu Kassovitz, numa curta-metragem, em 1991), para l'Écho des Savanes; Le Bandard Fou, para Éditions du Fromage; o clássico L'Homme est-il bon?, para a Pilote #744; e a Futurópolis lançou o álbum 30/40, assinado por Gir.

Jean Giraud, Gotlib, Mandryka e Marijac em Angoulême

1975 - Bernard Farkas, Jean-Pierre Dionnet, Philipe Druillet e Jean Giraud-Moebius

Nesse ano de 1974, Jean Giraud, Jean-Pierre Dionnet, Philipe Druillet e Bernard Farkas, fundam a editora Les Humanoïdes Associés e, em Janeiro de 1975 sai para a rua o nº1 da mítica revista Metal Hurlant, com capa de Moebius. Giraud podia assim publicar banda desenhada de ficção científica num estilo underground, como Arzach, ou Le Garage Hermétique, que influenciarão uma geração inteira de autores. Na Metal Hurlant, Moebius publicaria Arzach, Le Garage Hermétique, em 1979; The Long Tomorrow (com texto de Dan O'Bannon), em 1976; Double Évasion, em 1980; L'univers est bien petit, em 1976; e Citadelle Aveugle, em 1981.



A série Arzach (histórias sem palavras – Moebius não se permitiu usar balões de falas ou outros textos – e cuja grafia do nome varia de história para história: Arzach, Harzak, Harzack, Harzach e Arzak), foi uma obra revolucionária para a época, tornando o seu autor conhecido no estrangeiro, vindo a ser contactado por cineastas franceses e americanos para participar na préprodução de filmes de ficção científica nos anos 1970.


Uma primeira colaboração estabelece-se em 1975 com Alejandro Jodorowsky e Dan O’Bannon que convidam Giraud para assistente na criação de um filme inspirado em Dune, o célebre romance de Frank Hebert. O filme seria produzido por Arthur P. Jacobs (que comprara os direitos) e protagonizado por Salvador Dali, Orson Welles e Gloria Swanson, com música dos Pynk Floyd. Mas o mega projecto não se concretizou por falta de meios. Dune seria adaptado e realizado, em 1984, por David Lynch.

Com Alexandro Jodorowsky durante os preparativos para "Dune"

Em 1976, Giraud desentendeu-se com os editores da Dargaud e a série Blueberry foi suspensa temporariamente. A personagem chegou a ser publicada na revista Super-As e na Metal Hurlant, em 1979. No mesmo ano, Giraud voltou a colaborar com a Pilote, com Jim Cutlass, uma edição especial escrita por Jean-Michel Charlier. Em 1977, foi convidado por Ridley Scott para paricipar na concepção gráfica do filme Alien, o Oitavo Passageiro.


Contudo a colaboração com Jodorowsky continuaria em 1977, com a banda desenhada Les Yeux du Chat e entre 1980 – 1988, com a publicação das aventuras de John Difool, nos seis álbuns da série L’Incal. Após o fim da série, em 1988, Moebius passou o desenho do projeto seguinte, Avant L'Incal, para o seu aluno Zoran Janjetov.


 Barcelona, 1981 - com Will Eisner

Lucca, 1982 - Com Vicente Segrelles

1982 - Em Kyoto, com Osamu Tezuka

Em 1982, Jean Giraud preside ao Festival Internacional de BD de Angoulême e participa no filme de René Laloux, Maîtres du Temps.

1983 - Giraud instala-se com o seu estúdio em Tahiti.

Em 1984, Jean Giraud foi viver para Los Angeles e desenhou uma história de Silver Surfer, em colaboração com Stan Lee, para a Marvel, circunstância rara para um autor europeu naqueles tempos. Esta participação influenciou uma série de autores dos comics americanos, como Jim Lee ou Mike Mignola. Nos Estados Unidos, foi co-fundador da Éditions Aedena, com Jean Annestay e Gérard Bouysse, trabalhando depois nos comics, em regime de alternância com Geof Darrow e Tanino Liberatore. Por outro lado, a sua esposa, Claudine Giraud, fundou a Starwatcher, empresa dedicada a produtos derivados das histórias em BD.


Em 1985, Moebius foi ao Japão para trabalhar no filme em desenhos animados Little Nemo. Foi nessa altura que conheceu Hayao Miyazaki, autor da série Nausicaä. Miyazaki revelou numa entrevista que foi fortemente influenciado pelo Arzach, de Moebius.


Em 1986, escreveu dois argumentos, que foram ilustrados por Marc Bati, La Nuit de l'Étoile (lançado pela Éditions Aedena) e Altor (lançado pela Dargaud, originalmente com o título Cristal Majeure).


Em 1988 recebeu o Harvey Award e em 1989, o Eisner Award.

Duas histórias originais baseadas nas personagens de Le Garage Hermétique foram publicadas neste período: The Elsewhere Prince, com texto de Jean-Marc Lofficier e desenhos de Eric Shanower, de 1990, com seis edições; e The Onyx Overlord, escrita por Lofficier e ilustrada por Jerry Bingham, com quatro volumes publicados em 1992.

Moebius regressou a Paris em 1989, onde se instalou com Isabelle Champeval (com quem viria a casar) e passou a colaborar com a revista (À Suivre), com histórias da série Mundo de Aedena – baseada numa antiga BD promocional que havia feito para a Citroën – e Jim Cutlass (esta última ilustrada por Christian Rossi).


Com a morte de Jean-Michel Charlier, em 1989, Giraud assumiu os argumentos de Blueberry. Os volumes de Marshall Blueberry, desenhados por William Vance (desenhador da série XIII) e Michel Rouge passaram a ser publicados pela Alpen, em 1991, e depois pela Dargaud.

Em 1991, uma colaboração com Paul Chadwick e Charles Vess, na revista Concrete, rendeu-lhe mais um Eisner, desta vez na categoria de melhor edição. A série Blueberry foi vencedora do Harvey de 1991.

Ainda em 1991, a Casterman publicou o livro de entrevistas Moebius Entretiens Avec Numa Sadoul, e uma reedição integral do volume anteriormente lançado pela Albin Michel, com o título Mister Moebius et Docteur Gir.

No ano seguinte, Moebius voltaria a colaborar com Jodorowsky, na graphic novel Coeur Couronee, lançada pela Humanoïdes Associés, e que teve continuidade na trilogia La Folle du Sacré-Coeur.


No início da década de 1990, Giraud voltou a envolver-se com o cinema e a animação, com o filme Starwatcher e uma tentativa de adaptar Le Garage Hermétique como longa metragem de animação mas que, apesar de grandes esforços, nunca foi concluída.

Em 1994, voltou a escrever Little Nemo, desta vez numa BD desenhada por Bruno Marchand. No mesmo ano, também escreveu Mr. Mouche, baseado na ilustração de um portfólio de 1987, em parceria com Coudray. Neste ano é também publicado L'Homme de Ciguri, a continuação de Le Garage Hermétique.

Moebius voltou a colaborar com Jodorowsky, em 1995, no álbum Griffes d'Ange. O seu trabalho seguinte foi uma colaboração no projeto coletivo da Humanoïdes Associés, L'ode a L'X.

Em 1996, a sua segunda esposa, Isabelle Champeval Giraud recupera a casa editorial e galeria Stardom, que se tornaria a Moebius Productions, editando livros, serigrafias e cartazes em edição limitada, consagrados à obra de Jean Giraud-Moebius.

Em 1997, ilustrou a versão francesa de O Alquimista, livro do escritor brasileiro, Paulo Coelho.
No mesmo ano, o autor francês foi homenageado com exposições sobre a sua obra nas cidades de Palermo e Milão. Em 1998, foi homenageado em Veneza.

José Carlos Fernandes e Jean Giraud em autógrafos no Festival Internacional de BD da Amadora, 1998

A Fundação Cartier rendeu-lhe uma homenagem em 1999, com uma bela exposição, facto que se repetiria quase uma década mais tarde. Este ano também foi o da publicação da biografia do autor, Moebius-Giraud, histoire de mon double, livro de 214 páginas lançado pela Éditions 1.

A última colaboração entre Moebius e Jodorowsky ocorreu em 2000, com Après l'Incal, livro lançado pela Humanoïdes, em 2001, e cuja história permaneceu inacabada até 2011, quando foi encerrada com texto de Jodorowsky e desenhos de José Omar Ladrónn.

Ikaru, também de 2000, é uma colaboração entre Moebius e Jiro Taniguchi, com texto do autor francês, publicada originalmente na revista japonesa Morning, pela Kodansha. Esta obra foi publicada em França, em 2005, com o tíutlo Icare, pela editora Kana.


Thierry Groensteen foi o curador da exposição Trait de Génie Giraud Moebius, sobre a carreira de Moebius realizada entre 26 de Janeiro e 3 de Setembro de 2000, em Angoulême.

A Casterman publicou em 2001 o álbum Les Réparateurs, reunindo quatro histórias raras e pouco conhecidas de Mundo de Aedena. O volume não é parte oficial da série.

Ainda em 2001, Jean Giraud ilustrou capas para a série Transmetropolitan, de Warren Ellis e Darick Robertson. Entre 2001 e 2004, publicou várias obras pela editora Stardom, como 40 Days dan le désert B, 2001 Aprés Jésus-Christ, La Mémoire de l'âme, Mystère Montrouge e Un an dans la vie - 2001-2002.

Em 2004, colaborou com Stéphane Cattaneo, ilustrando o livro Beautiful Life, lançado pela editora Zanpano

Moebius e Miyazaki voltariam a encontrar- se, desta vez em Paris, em 2004, por ocasião da exposição Miyazaki-Moebius realizada no Musée de la Monnaie de Paris, entre 1 de Março de 2004 e 13 de Abril de 2005. Inside Moebius é uma série de volumes biográficos publicados pela Stardom, a partir de 2005, na qual o autor alterna a sua assinatura entre Jean Giraud e Moebius, dependendo da obra.

Inside Moebius

Em 2007 Moebius substituiu temporariamente William Vance na série XIII, ilustrando o álbum La Version Irlandaise. Uma surpresa foi o lançamento da banda desenhada Ballon Bleu, promovida pela Cartier, para promover sua linha de relógios. Entre os desenhadores do álbum estavam Moebius, Jiro Taniguchi, Jean-Claude Floc'h, Charles Burns, Glen Baxter, François Schuiten e Lorenzo Mattotti.


Ainda no mesmo ano, o canal de TV alemão ARTE exibiu o documentário Moebius Redux, de 68 minutos, dirigido por Hasko Baumann, por ocasião do lançamento do álbum Apaches, de Blueberry, escrito e desenhado por Giraud.

Em 2008, a Stardom publicou Le Chasseur Déprime, o terceiro volume de Le Garage Hermétique. A 6 de Março, Moebius foi o convidado especial do jornal Le Soir, para ilustrar a edição do dia.

O Museu de Banda Desenhada de Kyoto, no Japão, realizou em 2009 uma exposição dedicada ao autor francês. Em Novembro, foi realizada em Paris a exposição Arzak, le retour, celebrando a publicação do novo volume da série Arzak. O livro Arzak - L'Arpenteur foi publicado pela editora Glénat, em 2010, numa parceria com a Moebius Productions. Esta aventura é a última obra de Moebius e a série permanecerá incompleta.
 Com Milo Manara...

 ... com Paul Gillon (falecido em 2011)...

... com Hayao Miyazaki...

... com Uderzo e Tabary...

O ano de 2010 foi marcado pelo o reencontro de Moebius com a Fundação Cartier. A entidade organizou uma das maiores e mais completas exposições realizadas sobre a sua obra: Moebius Transe Forme, que ficou em cartaz entre 12 de Outubro de 2010 e 13 de Março de 2011.

2010 - Moebius na Fundação Cartier

Em 2011, durante a Feira de Antiguidades de Bruxelas, na Bélgica, duas páginas de Arzach, de Moebius, foram vendidas por 130 mil euros, num leilão de originais de BD.

A Humanoïdes Associés lançou, em 2011, o volume Moebius Oeuvres - Les années Métal Hurlant, com 420 páginas e reunindo 46 histórias originalmente publicadas na revista Métal Hurlant. O livro faz parte do projeto de republicação integral da obra do autor.

O governo francês concedeu- lhe, em 2011, a insígnia de Cavaleiro da Ordem de Mérito, que lhe foi entregue pelo ministro do Ensino Superior e da Investigação, Laurent Wauquiez.

A última grande homenagem prestada ao autor antes de sua morte ocorreu em 2011, na 6e Biennale du 9e art de Cherbourg-Octeville, onde além do evento de banda desenhada, foi realizada a exposição Moebius Multiple(s) que foi exibida entre 17 de Junho até 31 de Dezembro daquele ano.


Jean Giraud com... Moebius

A 10 de Março de 2012, a sua esposa Isabelle Giraud e a sua filha Nausicaä confirmam a morte de Jean Giraud/Moebius (aos 73 anos), num hospital de Paris, vítimado por uma embolia pulmonar em consequência de um linfoma.

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Amanhã: 
PARA UMA BIOBIBLIOGRAFIA 
DE JEAN GIRAUD-MOEBIUS (1938-2012) - PARTE II
UMA BIBLIOGRAFIA DE JEAN GIRAUD-MOEBIUS


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