terça-feira, 20 de Março de 2012

PEQUENO TRIBUTO A JEAN GIRAUD – GIR – MOEBIUS



Jean Giraud e Moebius

PEQUENO TRIBUTO 
A JEAN GIARAUD – GIR – MOEBIUS

O pequeno tributo a Jean Giraud-Gir-Moebius que postamos aqui hoje, encerrando a série de posts sobre a morte do autor é, nem mais nem menos, que a revisitação a uma pequena banda desenhada realizada em 1973 e publicada na revista Pilote, antes de Giraud ter batido com a porta, descontente com o rumo editorial da revista. Trata-se de La Deviation (O Desvio), assinada com o diminuitivo Gir e que pareceu sempre a muitos dos seus leitores (embora o autor nunca o tenha esclarecido) uma espécie de metáfora sobre o aparecimento de Moebius.

Um pequeno texto do autor, com data de 1991, parece confirmar a “teoria” da tal metáfora. Isto apesar de Giraud já utilizar o pseudónimo de Moebius desde 1963, em BDs curtas publicadas na revista Hara Kiri, retomando-o para assinar ilustrações de ficção científica e uma banda desenhada (Le Bandard Fou) publicada na revista l’Echo des Savannes em 1974. Depois, com a criação da Metal Hurlant, o pseudónimo tornar-se-ia quase o nome de outra pessoa...

As edições Asa editaram o álbum Arzach em 2003, com as cinco histórias publicadas na Metal Hurlant, abrindo o álbum com o pequeno texto de 1991 atrás referido, seguido de La Deviation (O Desvio).


O DESVIO

Quando "Arzach" foi publicado, o impacto público foi surpreendente. As suas páginas provocaram o efeito de uma bomba, de uma pequena revolução no universo da banda desenhada. O facto de não existir texto em qualquer das páginas foi o primeiro elemento de surpresa. Por outro lado, a história não obedecia pelo menos no que diz respeito ao domínio da banda desenhada — na literatura contemporânea este tipo de deambulação nada tem de excepcional —, a nenhum dos esquemas narrativos clássicos. Finalmente, no plano gráfico, não tendo poupado esforços, consagrei a cada imagem uma quantidade de trabalho e energia apenas comparável à que geralmente se reserva a uma tela ou a uma ilustração. Arzach representou para mim uma espécie de passagem à acção. Um mergulho em universos estranhos, para além do visível. Não era minha intenção, contudo, produzir apenas mais uma história de contornos bizarros, mas principalmente revelar algo de cariz muito pessoal, algo que provém do plano sensorial. Pretendia exprimir o nível mais profundo da consciência, atingir o limiar do inconsciente. Esta história está pois repleta de elementos oníricos. Quando nos aplicamos num trabalho deste tipo, as comportas do espírito franqueiam-se repentinamente, deixando fluir as formas, as imagens, os arquétipos que temos dentro de nós. Na primeira imagem, por exemplo, a torre gigantesca é um símbolo fálico evidente, à semelhança do chapéu de Arzach e de toda uma série de outras formas disseminadas nestas páginas. Naturalmente, nada foi deliberado. Não me sentei â mesa de trabalho dizendo para comigo: "ora bem, deixa-me fazer qualquer coisa do tipo fálico". Tudo se processou de uma forma mais subtil.

Arzach tem uma faceta vincadamente negativa. Quando comecei a desenhá-lo, enquadrava-me rigorosamente na norma vigente no meio que então frequentava, o dos criadores de banda desenhada, onde assumir uma postura negativa representava um critério de qualidade inquestionável. A morte está muito presente. O pássaro é um bom exemplo de um desses símbolos mórbidos: assemelha-se a um sáurio pré-histórico, uma espécie extinta, e parece moldado em cimento. Naquela época, eu não era feliz: vivia num mundo que se me afigurava duro, inquietante. A única alternativa para escapar à sua influência, ao controlo da consciência, era a via do que está em baixo, a qual conduz às zonas mais sombrias da alma. Por detrás dessa porta, vislumbram-se apenas imagens de morte, de doença, de sofrimento, de terror.

Olhar para o que está em cima é bem mais difícil. Há quem não sinta necessidade de o fazer. Vivem retraídos, afastados do que há de mais profundo e acabam por não passar de meros querubins, desligados do real. É importante que as imagens positivas se possam reunir ás que vêm de baixo, de modo a formar, entre a esperança e o medo, um todo harmonioso. É no que está em cima que devemos colher energia para iluminar as profundezas. Quando o espírito deixa de ser directivo, as imagens de morte dão lugar às imagens de vida.

Só o consegui após um longo e aturado esforço, um verdadeiro trabalho que envolveu a totalidade do meu ser, do meu comportamento. Modifiquei a minha alimentação, o meu modo de comunicar com os outros e até de me vestir... e continuo a trabalhar em Arzach...

O Desvio foi publicado nas páginas da Pilote. No início, esta revista, dirigida a adolescentes, primava pelo conservadorismo; no entanto, um dia, René Goscinny*, movido por um rasgo genial, decidiu alterar a rotina. Os desenhadores ficaram entusiasmados. O comité de redacção reunia-se todas as semanas na mesma sala — éramos uns trinta e às vezes mais — e as ideias jorravam até que a edição estivesse definida.

Procurávamos incessantemente trilhos inexplorados. Para mim era algo extremamente agradável, uma vez que Blueberry me concedia algum tempo livre, aproveitava-o para realizar ilustrações de ficçào científica. Druillet dizia-me incessantemente: "acho que devias desenhar uma obra nesse estilo." ao que eu respondia: "pois, pois..." mas, admito-o, era demasiado preguiçoso e não andava lá muito bem.

Um dia, contudo, decidi-me. Dei rédea solta à minha inspiração e acabei por chegar a O Desvio. Nessa época, passava regularmente as minhas férias na ilha de Ré. Como era uma ilha muito plana, por um desses recursos clássicos do humor que consiste na inversão dos valores, converti-a num lugar dantesco.

Inconscientemente, o tema impôs-se-me, as imagens sucederam-se e organizaram-se, umas em função das outras.

A história é simples. Trata-se de pessoas aparentemente normais que partem de férias e, de súbito, se metem por um desvio... em todos os sentidos do termo. Começam, então, os problemas.

Trata-se de uma parábola: se seguirmos os caminhos traçados pela sociedade, corre tudo pelo melhor. Mas se decidirmos abandoná-los para nos metermos por um atalho, um desvio, é mais do que provável sermos surpreendidos por estranhas aventuras que ninguém sabe onde nos poderão conduzir ...

Moebius, 1991

(*) René Goscinny era o redactor-chefe da Pilote.



OU AS DESVENTURAS QUASE DEMENCIAIS DE UMA FAMÍLIA NO DECURSO DE UMA VIAGEM DE AUTOMÓVEL PELAS ESTRADAS DE FRANÇA. 
TENDO EM VISTA PASSAR UM BOM MÊS DE FÉRIAS NA ILHA DE RÉ.
DOCUMENTÁRIO ROMANCEADO DESENHADO À PENA POR JEAN GIRAUD COM BASE NUMA DESCONCERTANTE AUSÊNCIA DE ARGUMENTO A IMPUTAR AO PRÓPRIO








Nota: para conseguir ler as legendas, clique em cima das imagens com o botão da direita do rato e faça "abrir imagem num novo separador", depois delas abrirem pode utilizar a lupa para aumentar a coisa... e pode sempre utilizar o comando "Ctrl" e o sinal + para ampliar ainda mais.

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