segunda-feira, 26 de março de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE - MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (XXXI e XXXII) –O IMPÉRIO EDITORIAL DA AGÊNCIA PORTUGUESA DE REVISTAS 1.9 e 1.10



9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(XXXI - XXXII)


O Louletano, 26 de Outubro a 2 de Novembro 2004

O Império editorial da Agência Portuguesa de Revistas – 1.9

Em meados da segunda metade de 1954, altura do meu ingresso como colaborador da APR, Mário de Aguiar (MdA) e António Joaquim Dias (AJD) - o cérebro e os músculos dessa empresa -rondariam ambos entre os 40-45 anos.

M.d.A era de estatura média, entroncado, rosto quadrangular, face enérgica, vincada; cabeleira farta, ondulada, e uns olhos miúdos, escuros, de águia. Supervisava todo o trabalho de edição, sobre o qual opinava, demonstrando acertado sentido comercial. Pese embora o seu inato bom senso para publicações de êxito, a plêiade de colaboradores de que se rodeou, coadjuvava, de forma positiva, a sua audaciosa visão como editor.

Pelo que me foi dado observar, era adepto de duas modalidades desportivas - boxe e futebol - e de teatro amador, no qual creio, nunca participou. Foi sócio e protector da Sociedade Recreativa Rodrigues Cordeiro e do Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes, colabo-rando comigo, neste último, aquando da minha direcção antes e depois de Abril de 1974.

Sócio ferrenho do Benfica, quando este clube perdia, iniciávamos um período de defeso em que era difícil esperar a sua concordância fosse qual fosse o assunto tratado. Ficava azedo e pirrónico, porém de modo algum agressivo ou descortez. Ao inverso, era afável, cordato, disponível e acessível. Por vezes, irritado, quando alguma área de serviço, ou vida estritamente pessoal não quadrava com os seus desejos, mostrava-se áspero e contundente, quase intratavel. E, caso curioso: não propriamente com os quadros menores da empresa, mas, bastas vezes, com o pacífico sócio que lhe coube em sorte! A ambos a morte ceifou por problemas cardíacos.

AJD talvez tenha sido vitíma da incontinência verbal e exagero gestual do seu enérgico sócio; MdA. vítima exactamento de si mesmo, cuja "máquina" se exaurio com as incontroláveis explosões a que quase diariamente se entregava.

Porém, se a empresa foi fruto do seu - por vezes excessivo - dinamismo, não deve ignorar-se de modo algum aqueles que ao longo dos anos foram o suporte que materializou as suas ousadas utopias, tornando-as palpáveis, credíveis, algumas belas e, na sua maioria, economicamente rentáveis. A frase publicitária que nos anos sessenta a empresa utilizava - um milhão de publicações por mês - era de facto verídica. Não havia espaço no campo editorial para que outra editora lançasse qualquer publicação similar às suas. O mercado estava saturado.

António Dias era a calma em pessoa. De fino trato, educado, serena linguagem e porte, parecia um aristocata deslocado no tempo e no espaço. Alto, ligeiramente pr'ó seco, sempre impecávelmente vestido, rosto oval, olhar cândido, cabelo liso, com ligeira ondulação, movimentava-se com leveza e elegância. Dirigia com acurada vigilância e profissionalismo toda a área de expedição e distribuição. Era paciente e disponível quando abordado para se lhe solicitar uma opinião. Tinha pelo "Mundo de Aventuras" um especial ca¬rinho, do qual era o primeiro a folhear, depois de impresso.

Segundo ouvi, teve um começo de vida difícil. Ainda jovem, foi vendedor de leite, porta a porta, de bilha na mão, pois longe estava ainda o tempo em que se venderia engarrafado. Curioso - quem o não é aos 18-19 anos? - gostava imenso de o ouvir, pois tinha uma palavra que usava como bengala, vezes sem conta, ainda que a frase o permitisse ou não. Aquele advébio de modo - automaticamente - devia soar-lhe bem, e como o pronunciava, correctamente silabada para que a sonoridade do termo lentamente se evolasse como fumo de perfumada cigarrilha.

A descida da empresa ao abismo, iniciou-se com a separação de ambos, perto do final da década de sessenta.

Em meados de 1955 José Atunes, meu antigo colega da António Arroio, passou a fazer parte dos quadros privativos da empresa, como desenhador. Creio ter sido ele quem tomou a seu cargo "O Mundo de Aventuras" aquando dos meus compromissos militares, entre Janeiro de 1956 e Junho de 1957.

Legendas das fotografias:
Mário de Aguiar – Director-Geral da APR
António Dias Sócio-gerente da APR

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O Louletano, 3 a 8 de Novembro 2004

O Império editorial da Agência Portuguesa de Revistas – 1.10

O período que decorre entre outubro de 1954 e Dezembro de 55 foi para mim uma contínua surpresa, qual um mundo novo que se desvendava perante os meus olhos. As publicações de H.Q. sempre me tinham cativado. Assim, o estar no local onde se originavam, respondia às interrogações que desde miúdo acalentara: Quem as fazia? Como? Onde?

Nesse tempo, o ambiente na redacção era deveras interessante, alegre, de sádia camaradagem, onde os personalismos não sobressaíam nem se impunham. Carlos Alberto (C.A.), que ingressava na APR no inicio de 55, veio confirmar, ao vivo, a imensa admiração que de há muito por ele sentia, a qual começou aquando da publicação, no "Camarada", da sua primeira BD "O Escudo do Sarraceno", a qual saiu incompleta por entretanto essa revista da Mocidade Portuguesa ter imterrompido a sua publicação.

Dono de um elegante, quente e fascinante traço, e de um desenho airoso, equilibrado, expontâneo e belo, é, sem sombra de dúvida, um dos quatro grandes ilustradores que Portugal teve na segunda metade do século passado: Eduardo Teixeira Coelho, Vítor Péon, Fernando Bento e ele próprio. Deixo ao critério do leitor que igualmente os conheça e aprecie, o cuidado de os ordenar como melhor o entender. Eu próprio, ainda que C.A. o não suspeite, sou credor do muito que aprendi a seu lado, ao longo dos anos, nas instalações da APR, e fora dela.

A presença de C.A. contrastava com a de Filipe Figueiredo (FF). Enquanto o primeiro, tímido quanto baste, passava despercebido no seu espaço - quase unidade indivisível/silenciosa, com o estirador - FF, demasiado extrovertido, por vezes rude, era a perfeita antítese do homem que, pouco antes ilustrara um dos maiores êxitos editoriais da APR: A "História de Portugal", em cromos coleccionáveis. A técnica e garciosidade expressas nas suas ilustrações, revelam um artista incomum no panorama das publicações infantis editadas na altura.

Com o fim de "O Mosquito", um ano antes - Fev./53 - desaparecera o suporte através do qual a arte de ET Coelho semanalmente chegava junto aos seus muitos fãs. Embora nessa altura "O Mundo de Aventuras" (M.A.) atravessasse um período de notória estagnação, a presença de C.A. revelou-se um valioso suporte tanto no campo da BD, como nas ilustrações e capas, que para essa revista exectou, bem assim como para outras publicações da APR.

É lógico que o lançamento do M.A. em Agosto de 49, teve alguma influência na extinção do velho "Mosquito", mas quiçá menor que a do "Cavaleiro Andante", com maior número de páginas e de histórias - que não maioritariamente em qualidade - e mais cor. Porém, nenhum dos dois semanários acupou o seu lugar no coração dos milhares de leirores que, por mais uma geração, incentivou o gosto pela boa leitura e pela arte e beleza das ilustrações, o qual se constata pela imperecível e saudosa recordação que deixou.

Tal como já acontecera com Vítor Péon, foi também José David (JD), - reputado técnico em artes gráficas, na altura responsável pela selecção de cor e retoque, na Bertrand - quem primeiro reconheceu as potencialidades artísticas do jovem C.A., também ele funcionário nessa empresa. Anos mais tarde, JD, convidará CA a colaborar no seu atelier, de onde sairá a história "João dos Mares", com desenhos seus, mas com a indicação de autor de Augusto Barbosa, a qual aparece como a primeira história portuguesa impressa nesse semanário, logo a partir do número um.

Foi ainda o mesmo JD, já então sócio da Fotogravura Nacional, empresa onde as colecções de cromos e as capas em quadricromia da plateia, colecção cinema e livros, eram impressas, quem, a pedido de Mário de Aguiar, prescindiu da colaboração de CA em favor da sua permanênca nas instalações da APR.

Legenda da ilustração:
Capa do álbum de cromos "História de Portugal". Desenho de Carlos Alberto


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ULISSES (XXVIII e XXIX)
Texto e desenhos de Jobat



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