quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

ÀS QUINTAS FALAMOS DO CNBDI NO KUENTRO (32) – EXPOSIÇÕES (14) – UM SABOR DE DESENHO – EXPOSIÇÃO HOMENAGEM A JOÃO ABEL MANTA – 10 a 28 de Abril de 2008


Do mesmo modo que no ÀS QUINTAS FALAMOS DO CNBDI NO KUENTRO #29 aproveitámos para comemorar os 78 anos d’O Mosquito, hoje comemoramos o 86º aniversário de João Abel Manta (nascido em Lisboa em 1928), evocando a Exposição realizada no CNBDI pelo 80º aniversário deste mestre da ilustração e caricatura. Mestre pela maestria da sua obra e que, pelas suas peças gráficas publicamente mais conhecidas, se relaciona emblematicamente com o período pós 25 de Abril (mesmo que a sua actividade marque também o período anterior, claro), pelo que aproveitamos para dar início também, com este post, às comemorações do quadragésimo aniversário do “25 de Abril” aqui no Kuentro, que será abordado de uma forma uma pouco diferente do habitual.

HOMENAGEM A JOÃO ABEL MANTA
PELO SEU 80° ANIVERSÁRIO


INTRODUÇÃO DO CATÁLOGO

A 29 de Janeiro de 2008, o Mestre João Abel Manta comemorou o seu octogésimo aniversário. Uma longa vida dedicada às artes, desde a arquitectura, passando pela ilustração, caricatura, cartoon até à pintura. As homenagens devem ser feitas enquanto os artistas estão vivos e com saúde. 80 anos é uma bonita idade para se comemorar, e creio que nenhum artista, principalmente ligado ás artes gráficas, põe em causa o valor, a importância da sua obra no panorama das artes do séc. XX. Mas quem é João Abel Manta?

Pode-se certamente catalogar João Abel Manta como um ilustrador, um gráfico, um satírico, ou, como agora se diz, um "cartoonista". Só que isso seria limitar a sua obra e não ter a percepção completa da sua criação, do seu estilo. José Cardoso Pires, em conferência, defendeu que ele é um artista de «visão global e poliédrica, e vejo-o em dimensão renascentista». Esta perspectiva está dentro da própria auto-definição do artista, que se vê acima de tudo como um Artista Plástico, abrangendo com esse conceito a liberdade de trabalhar em todo e qualquer género de criação plástica. Desse modo, João Abel Manta é Arquitecto por formação académica; Pintor por opção estética; assim como é Artista Gráfico, Gravador, criador de trabalhos decorativos e cerâmicas para integração na arquitectura, Cenógrafo por obra satírica realizada.

Nessa criatividade tão global destaca-se o seu trabalho de "design" ligado ao livro e ao jornal, desenvolvido no âmbito tipográfico e caligráfico, um pouco na tradição de Stanley Morison, cuja obra J.A.M. estudou em Londres. O que está aqui em jogo é a destruição de barreiras entre defini­ções de géneros, bem como a força de intervenção do artista na sociedade através da sua obra. Esta abordagem, ou "engagement", pode ser interpretada das mais variadas formas, com as desig­nações mais díspares, inclusive com a de "cartoonista".

O "cartoonismo" foi para ele uma necessidade de intervenção despoletada por um determinado período político do pais, por não haver outros na época a fazê-lo de forma oportuna e correcta, contra poderes usurpadores, contra correntes filosóficas e políticas que põem em perigo a sociedade. Na sua obra deslumbram-se as várias filosofias e estéticas temporais. Apreciam-se as vicissitudes e histórias da sociedade portuguesa, numa visão satírica, irónica mas sempre vanguardista. Artista de alto poder de versatilidade técnica, possuidor de um total controlo dos elementos gráficos de comunicação, uma precisão de intervenção na oportunidade certa e uma constante sombra de iro­nia, que dá um gosto, um tonalidade de humor negro aos seus trabalhos.

Essa cor, feita de sorriso amargo, é o poder que o artista tem de sobrevoar o mundo, desde os sonhos até aos pesadelos, na consciência reveladora do absoluto feito arte. Pela sua mão, a frágil aparência das coisas é posta a nu, através de exorcismos mágicos, através da ideia feita traço, linha directa à compreensão humana, sem subterfúgios estilísticos, mais do que os necessários ao jogo plástico. A sua ironia onírica expõe a futilidade do mundo, o anedótico das nossas vidas neo-realistas, perante a destruição da sacralidade de conceitos, de símbolos.

A par da ironia, existe uma força pictórica que transcende o desenho. Se a arquitectura lhe deu a disciplina, o domínio dos espaços, a pintura enriqueceu toda essa estrutura base, conciliando todos esses pigmentos numa obra plástica invulgar.

Osvaldo Macedo de Sousa

Contracapa e capa do Catálogo


Trabalhos da autoria de vários ilustradores e caricaturistas portugueses, espanhóis e brasileiros, em 
Homenagem a João Abel Manta:

 


ALGUMAS FOTOS
(Arquivo de Dâmaso Afonso)

Isabel Manta e Maria Alice Ribeiro Manta (respectivamente a filha e a esposa de João Abel Manta), em conversa com a Arquitecta Lia Fernandes...

João Mascarenhas (de costas), José Pires, José Ruy e João Amaral...

O Vereador António Moreira, Cristina Gouveia (Directora do CNBDI ) e os Comissários da Exposição, Osvaldo Macedo de Sousa e Clara Botelho...

José Garcês observa atentamente um dos trabalhos expostos - mais precisamente, do ilustrador e caricaturista Ricardo Galvão)...

Cristina Gouveia em conversa com António Moreira, enquanto alguém, em segundo plano, aprecia o cartaz que Álvaro realizou para esta exposição de homenagem ao mestre...

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João Abel Manta em sua casa durante uma pausa na entrevista para o BDjornal #5 (de Setembro de 2005), realizada em Agosto de 2005 (foto Arquivo Pedranocharco)

Na inauguração da sua exposição de Pintura, no Palácio Galveias - 27 Novembro 2009
(Foto Arquivo Pedranocharco)

Capa do livro Dinossauro Excelentíssimo, de José Cardoso Pires, ilustrado por João Abel Manta - 1972

Primeira página do nº 1 do JL - Jornal de Letras Artes e Ideias, ilustrada por João Abel Manta - Março de 1981

"Vida de Artista" in Diário de Lisboa, 1954

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