segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

JOBAT NO LOULETANO – MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (152-153) – NA PISTA DE UM SONHO – AUGUSTO TRIGO – 14 e 15


O Louletano, 6 | Outubro | 2008

NA PISTA DE UM SONHO – AUGUSTO TRIGO – 14
Por José Batista

Embora o cargo de Director de Artesanato trouxesse a Augusto Trigo benefícios que anteriormente não usufruía, a variedade de tarefas que sobre ele pendiam ocupava de tal modo o seu tempo que inviabilizava a oportunidade, ainda que por breves momentos, de se dedicar ao desenho e à pintura – paixão maior onde a sua veia artística se exteriorizava – o que tornava o compromisso então assumido como difícil, se não mesmo penoso de suportar.

Depois, o ambiente que na altura se vivia na Guiné, fruto de uma acéfala fobia a tudo o que cheirasse a herança colonial recém-descartada, acirrava ódios e velhos ranços a putativos herdeiros que se julgavam com direito a lugares de chefia e chorudas prebendas em cargos que lhes engordassem o ego, carteira e ambição. Não que o apoio do presidente Luís Cabral e dos ministros da tutela faltasse a Augusto Trigo, pois reconheciam nele o elemento indicado para dirigir a área de artesanato com competência e discernimento, mas surdas e indisfarçadas invejas provindas de frustrados patriotas de última hora começaram a deteriorar um ambiente de trabalho que se desejava calmo, estabilizado e produtivo.

Perante tudo isto, acrescido da convicção de que o seu futuro como artista não teria viabilidade nos acanhados horizontes da terra onde nascera, o artista guineense decidiu regressar à metrópole, enviando primeiro a sua esposa – supostamente em gozo de férias – pois também para ela, como enfermeira, o ambiente se tornara difícil de aguentar.

Após a independência, os médicos portugueses que dirigiam os hospitais foram substituídos, como é natural, por elemen­tos guineenses. Porém, a partir daí, a morte de algum doente internado, algo que acontece em qualquer unidade de saúde, levantava a suspeita de que o pessoal hospitalar – médicos e enfermeiros do período colonial – estaria deliberadamente a sabotar o novo regime. Tal hipótese, reflexo da ignorância ou má fé de quem assim julgava, mais não era que o resultado da apressada substituição dos directores hospitalares portugueses por clínicos guineenses inexperientes, logo impreparados para tais cargos. Essa anómala situação despoletou, como era de esperar, um clima de insegurança e receio entre o pessoal da área de saúde, o qual deu azo a disfarçadas deserções, mor­mente para a metrópole, em "gozo" de férias.

Em Setembro de 1979 – dois meses depois de sua esposa ter partido, usufruindo desse privilégio –, Augusto Trigo, utilizando a mesma des­culpa, embarcou para Portugal. Esse período de tempo foi por sua esposa aproveitado para escolher e sinalizar, nos arredores de Lisboa, em Queijas, a futura casa onde o casal e os dois filhos iriam residir a partir daí. »»

Esboço de guerrilheiros do PAIGC, feito por Augusto Trigo na Guiné, em 1976

Vinhetas da série humorís­tica inédita e inacabada, " A Vaca Sagrada de Mulei Mo­lusco", ilustrada por Augusto Trigo na Guiné, em 1965.

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O Louletano, 13 | Outubro | 2008

NA PISTA DE UM SONHO – AUGUSTO TRIGO – 15
Por José Batista

No alfobre de sonhos que Augusto Trigo trouxera da Guiné vinha uma história completa de BD, por ele iniciada 19 anos antes, "O Visitante Maldito", na terra que agora os acolhia, e terminada aos bochechos na ex-província portuguesa que para trás deixara. Esse seu trabalho seria o primeiro que publicaria num jornal juvenil e, simultaneamente, o desa­brochar de uma carreira que a breve trecho, para surpresa de muitos, seria prolífica e notória.

Porém, o tempo que o artista ocupara como Director de Artesanato na Guiné não lhe permitira a desejada utilização da paleta, cores e pincéis, algo imprescindível na carreira de um pintor ou ilustrador, pelo que se sentia um pouco destreinado quando de lá partiu. E, a somar a tudo isso, a luz da metrópole não era de forma alguma a mesma, clara e límpida das coloridas plagas africanas. Essa uma das razões que o impeliram a optar, a partir daí, pela ilustração a preto e branco, ou seja, ser profissional de BD.

Para concretizar esse objectivo, munido dos originais que trouxera da Guiné, comprou a revista juvenil "Mundo de Aventuras" para, através da morada que lhe indicaria onde era a redacção, para lá se dirigir e mostrar os seus desenhos ao director da empresa ou ao responsável pela publicação.

Em 1979, algumas instalações da Agência Portuguesa de Revistas tinham mudado para um prédio contíguo ao do grande armazém onde, desde o início de 1954, funcionavam mormente as redacções e a área adminis­trativa. Foi para aí que Augusto Trigo foi reencaminhado pela funcionária que primeiramente o recebeu, indicando-lhe o gabinete onde encontraria Jorge Magalhães, o coordenador dessa revista.

Pouco confiante na aceitação dos desenhos que tinha entre mãos, o artista ficou surpreso pelo afável acolhimento que o coordenador lhe dispensou, o qual, profundo conhecedor de técnicas e estilos de BD, viu em Augusto Trigo uma rara potencialidade, a qual merecia ser apoiada e aproveitada, logo, a não perder. Baptista Rosa, um dos directores da A.P.R. na altura, ficou também agradado com a maturidade e o equilíbrio da forma patentes nos desenhos que o coordenador lhe mostrou. Verdade que o estilo que caracterizaria o artista pouco tempo depois não estava ainda definido, mas a obra apresentada – fruto de uma experiência realizada quase 20 anos antes – permitia antever um nível e uma qualidade incomuns num futuro próximo.

A história apresentada, "O Visitante Maldito", cujo argumento foi retirado de um conto de João Maria Bravo, seria publicada, depois dos textos serem adaptados a uma linguagem e síntese adequadas à BD, no Mundo de Aventuras n° 323, saído a 12 de Dezembro de 1979, isto é, dois meses depois, sendo essa, como acima se referiu, o primeira BD do artista publicada em Portugal.


Para que Augusto Trigo burilasse algumas insuficiências, próprias de todo o iniciante, e antes que ambos acometessem uma colaboração profícua na área da BD, o que viria a acontecer durante alguns anos, Jorge Magalhães encarregou o artista de executar algumas capas e ilustrações para contos que o Mundo de Aventuras publicava nas suas páginas. »»

"Ilustração do meu livro, único exemplar e original, com o título " sábado das 8h às 12h", dedicado aos colegas da Repartição dos Serviços de Agrimensura da Guiné. Livro nunca editado e da minha colecção pessoal." A. Trigo

Vinhetas da série humorística inédita e inacabada, " A Vaca Sagrada de Mulei Molus­co' , ilustrada por Augusto Trigo na Guiné, em 1965.


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