sábado, 22 de fevereiro de 2014

PRÉ-25 DE ABRIL – 40 ANOS – CONVERSA ACABADA – A BANDA DESENHADA NOS ANOS 70

A PIDE, de João Abel Manta

Inicio a publicação dos posts no Kuentro dedicados aos 40 anos do 25 de Abril, sob o tema “pré-25 de Abril – 40 anos”, que é o que mais me interessa recordar, atrevendo-me a republicar aqui um texto de João Paulo Cotrim, “A Banda Desenhada nos anos 70”, publicado no volume nº 28 (1972- Conversa Acabada), da colecção “Os anos de Salazar” editada entre 2004 e 2008 pela Planeta DeAgostinni para o Grupo Cofina. Conversa Acabada fica também a ser o subtítulo destes posts, glosando as célebres Conversas em Família, de Marcelo Caetano na RTP.

No final, José Mário Branco canta Natália Correia – bem a propósito.




RELÂMPAGOS: A BD DOS ANOS 70

A BD TORNOU-SE, SEGUINDO O AR DOS TEMPOS, MAIS ADULTA, MAIS EXPERIMENTAL
João Paulo Cotrim


Lenta, mas inexoravelmente a banda dese­nhada foi deixando de ser o grande alimen­to do imaginário de gerações de jovens.Tornou-se mais adulta, mais experimental, mais reflexiva e fragmentária, afinal como o ar dos tempos: inconstante com tendên­cia para altas temperaturas. No boletim meteorológico do início da década [de 1970], além das nuvens, as trovadas haveriam ainda de trazer uma revista, um álbum, um autor e respectivas personagens, um fenómeno duradoiro e um gosto que demorará a esvair-se.

A revista

Dirigida com mestria por Jaime Mas e Dinis Machado, cruzando o melhor da homónima francesa e da Pilote («le Jour­nal qui s’amuse a reflechir»), levará da déca­da passada até à próxima o nome de Tin­tim, um dos ícones visuais do século XX. Semana após semana, cada dupla página findava com o suspense do (continua) ofe­recendo ininterruptamente ao longo de 14 anos alguns autores portugueses, na fase final, um ou outro clássico norte-ame­ricano, mas acima de todos os consagra­dos e populares (uns esquecidos ou a esquecer, outros nem por isso): Tintim e Milou, Astérix, Alix, Lucky Luke, Blake e Mor­timer, Blueberry, Clorofila e Minimum, Corentin, Bernard Prince, Coronel Clinton, Michel Vaillant, Bruno Brazil, Modesto e Pompom e tantos, tantos outros. A aven­tura, histórica e vagabunda ou localizada no faroeste norte-americano, tinha dora­vante sotaque francófono. Mas também o humor, por exemplo aquele seminal de René Goscinny, mentor da Pilote, pai de uma galeria de personagens,e verdadeiro revolucionário que, curiosamente, somou às suas características a atenção aos delí­rios da mui americana Mad. Assim.a revis­ta Tintim ofereceu, além do puro entreteni­mento aventuroso, leituras da actualidade mais ou menos (des)focadas pelas lentes da ficção científica pós-nuclear, cómicas reflexões ecologistas ou fábulas animais de cariz anti-autoritárío. De igual modo, os autores e os estilos se mantiveram diver­sos. Tanto que o preto-e-branco (espontâ­neo e expressivo) de Corto Maltese, de Hugo Pratt, quando chegou à revista na sua fase final, foi bastante mal recebido... Por esta altura, o leque de colaborações portuguesas, tinha-se alargado de José Ruy (1930) a Augusto Trigo (1938) e José Garcês (1928), bem como a novatos como Pedro Morais (1962) ou Relvas (1954), que desenhará aí o melhor dessa época, em ficção científica, nas adaptações literárias ou nos seus thrillers urbanos.


Uma visão mais completa da década passa por um conjunto de outros títulos breves, mas marcantes, ainda assim, seja na continuada importação de outras ten­dências, seja na tentativa sempre titubean­te de riscar um traço nacional.

Mundo de Aventuras, em formato redu­zido desde 1973, continuará a trazer estilos e autores de distintas paragens, mas sem voltar a conseguir, apesar das mexidas, renovações e séries, retomar sucessos anti­gos. Roussado Pinto (1926-1985) em frené­tica actividade de editor, fez da Portugal Press o último reduto do saudosismo, no sem número de publicações paralelas, mas sobretudo no Jornal do Cuto (1971), através do requentado sucesso das coboiadas de Emílio Freixas e Jesus Blasco, cujo herói bap­tiza a publicação, e do regresso de velhas glórias, sejam Fantasma, de Sy Barry, Tarzan, de Russ Manning, ou os clássicos Flash Gordon, de Alex Raymond, e o Príncipe Valente, de Hal Foster. A ele se deve, ainda, a edição (algo descuidada, mas ainda assim assinalável) do Spirit, de Will Eisner, e da esmagadora vertigem de soft porno que, essa sim, e com títulos como Zakarella ou Karzan, auxiliará a sexualidade de uma geração.

Os fanzines são publicações aut-editadas com formato, periodicidade, distribuição e conteúdos variados e voláteis que se tornarão também espaços de liberdade criativa publicando inéditos.

Lobo Mau (1979) acolherá por instan­tes (13 números) em papel de jornal a espe­rança de aceder a obras radicais, mais adul­tas, contemporâneas: os desvarios de Crumb, os policiais de Muñoz e Sampaio, a ficção científica politizada da Oesterheld e Breccia, o erotismo de Crépax.

A experiência em português tomba no pós 25-Abril e divide-se entre a infantil do Fungagá da Bicharada (1976), versão em revista de programa de televisão, e aquela adulta e marcante da Visão (1975). Se a pri­meira pode ser considerada, ao mesmo tempo, o estertor de um modelo e tentati­va de novos formatos de revista infantil em relação com a tv, como será depois e com carácter bastante mais didáctico a Rua Sésa­mo, a segunda deixará uma marca indelé­vel por via da explosão da novidade dos esti­los gráficos, dos temas (a guerra colonial, preocupações sociais e debates ideológicos, a libertação sexual). Seria a versão nacional, e portanto menos duradoira.da pedrada no charco que constitui a francesa L'Echo des Savannes, mistura explosiva de humor provocatório, erotismo, música e violência. Seguiram-se-lhe as importantíssimas, cada uma no seu estilo, Fluide Glacial (1975, mais puramente humorística) e A Suivre (1978, mais experimental e literária). O estilo gongórico deVitor Mesquita (1939), em Eternus 9, ressoará durante anos como figura e tra­balho principal, mas resistiram melhor as pesquisas de Isabel Lobinho (1947),o pessi­mismo de Massano (1948), o estilo de «Zín­garo» (1948) e Carlos Barradas (1948) ou as personagens de Zepe (1956).

O álbum

A forma moderna e em expansão de ace­der às ficções de bandas desenhadas, seja recolhendo o folhetim antes publicado em revista, seja directamente editado em livro de grande formato – poderia bem ser Mário e Isabel, precisamente de Isabel Lobinho e Mário-Henrique Leiria, que estabelece belas e complexas relações entre texto e imagem, entre corpo e palavra, homem e mulher, mas há-de ser Wanya - Escala em Orongo, a fic­ção científica de Nelson Dias (1940) e Augusto Mota (1936-1993). Evocando logo na dedicatória William Blake, autor cuja lite­ratura visual e poética é inseparável, esta saga de contornos míticos, com toada utó­pica e elegância formal, possui perfume muito da época. Foi pedrada no charco, sem descendência (os próprios autores fizeram apenas mais uma história num fanzine), cuja importância suscita ainda hoje deba­te. Terá sido apenas pretexto para fazer deambular mais uma heroína seminua, ins­pirada na vaga (supostamente) libertária que soprava de França? Ou mais uma ten­tativa para encontrar caminhos maduros para uma linguagem sempre em crise de identidade? Falamos de portugueses, raros, que os estrangeiros chegarão depois em catadupas (a Presença trará, em 1973, Zil Zelub entre outros; a Bertrand insistirá no Blake e Mortimer, Astérix, etc, antes das Edi­ções 70 e a Meribérica inundarem o mer­cado com Alex Raymond, Hugo Pratt, Schuitten e Peeters, Moebius/Giraud, Franquin, Jijé, entre tantos outros).


O autor

Outro não poderá ser senão Samuel Azavey Torres de Carvalho (1924-1993), cuja assinatura na imprensa (A Mosca, do Diário de Lis­boa, A Capital, Flama, Notícias da Amadora, Diário de Noticias, Expresso entre outros) será apenas Sam, simples e intimo como as suas figuras. Foi, além de escultor do absurdo, com torneiras que dão nós, o criador de algumas das personagens indispensáveis à crónica daqueles dias: o cínico Guarda Ricardo ou a melancólica Heloísa. Dono de um traço mui­to sintético e expressivo, aliás com tradições entre nós desde o modernismo, duplicado depois em repetitivas cenas dialogantes,foi fenómeno duradoiro de popularidade que deixou discípulos. A política terá sido o seu tema de eleição, mas não único: os compor­tamentos, os modos de falar, os tiques ficaram nas suas tiras cómicas, nas suas séries como insecto pré-histórico no âmbar. Se visto ao microscópio, está lá uma socieda­de inteira. Em 1972, no Noticias da Amado­ra, um Guarda Ricardo passeia-se enquan­to pensa em voz alta: «A ordem é uma coisa muito útil. Insinua-se em nós, subtilmente... E deixa-nos uma estranha sensação de feli­cidade.» Está agora, hirto, frente a uma secre­tária com papéis e alguém sentado: «Che­fe, dê-me outra ordem, se faz favor!»


O fenómeno diz respeito à produção de fanzines (aglutinação das palavras fanatic e magazine, publicação de fanáticos), publi­cações auto-editadas com formato, periodi­cidade, distribuição e conteúdos variados e voláteis que buscarão dados e reflexões os mais diversos acerca da linguagem, heróis e autores preferidos, mas que se tornarão também espaços de liberdade criativa publi­cando inéditos. Na sua origem estão, por um lado a atenção crescente da academia, dos meios intelectuais e artísticos e, por outro, a necessidade de escapar a censuras e con­trolos do mais variado tipo. Entre nós,as pri­meiras experiências datam do início da déca­da: Árgon (1972), surgido no Liceu Gil Vicente, em Lisboa,começou por publicar apenas his­tórias, mas logo incluiu informações; Saga (1972), do ABC Cineclube, deu guarida a vários ensaios enquanto reimprimia clássicos; Aleph (1973) anunciava-se como a primeira revista de estudos em banda desenhada. São ape­nas exemplos de um movimento sociológi­co de análise e produção, mas também de identitário de grupo, prenhe de subtilezas e variantes. Algumas publicações acabarão por se aproximar do formato profissional, no con­teúdo e aspecto, enquanto outras se man­terão laboratório experimental e recolha de obsessões. Ajudarão assim por várias vezes a definir as fronteiras (permeáveis) entre underground e mainstream, entre o mais conhecido/consagrado e a produção de cul­to. Nas suas páginas se encontrarão.assim, os focos de resistência ao gosto dominan­te, que se tornará em pouco tempo sinóni­mo de heróis e histórias oriundos do (peque­no) universo que se convencionou chamar franco-belga (e de que tantos exemplos foram sendo citados).


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José Mário Branco - QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS, poema de Natália Correia

Queixa das almas jovens censuradas, de Natália Correia – in Poesia Completa
Publicações Dom Quixote - 1999
José Mário Branco in Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – 1971

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

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