terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

JOBAT NO LOULETANO – MEMORIAS DA BANDA DESENHADA (148-149)



O Louletano, 8 | Setembro | 2008

NA PISTA DE UM SONHO – AUGUSTO TRIGO – 9
Por José Batista

O relacionamento de Augusto Trigo com elementos do primeiro governo formado após a independência da nação gui­neense, caracterizou-se por alguns risíveis acontecimentos, uns, fruto de uma incipiente aptidão para o cargo desempenhado, algo perfeitamente compreensível pela natural inexperiência em áreas de decisão, outros, de uma chocante ingenuidade, se não mesmo com contornos de inadmissível tontice.

Um de entre muitos que merece referência pela nobre in­tenção de valorizar, talvez mesmo destacar o aspecto da farda que os seus subordinados usavam, no caso presente, a Marinha, foi o de pedir ao artista que pintasse um emblema nos bonés de todos os homens que pertenciam a esse corpo militar, tarefa essa que, como é de calcular, pelo absurdo e incongruência, deixou os já ralos cabelos do pintor, em pé, por uns dias! Facilmente se conclui que o dirigente militar em causa minimamente sabia o que estava a pedir a Augusto Trigo, pois que se o soubesse nunca tal ideia lhe passaria pela cabeça, isto se a tivesse... no seu lugar!

Como é hábito nas forças militares, tais emblemas são cunhados numa peça metálica, impressos num suporte que o permita, ou bordados mecanicamente num tecido que depois se aplica num dos elementos da farda, mas nunca de forma alguma pintados no próprio tecido da farda, coisa que o agente militar que o solicitou com certeza desconheceria. Esclarecida e posta de parte esta "bivaqueana" ideia, se o neologismo nos é permitido, Augusto Trigo respirou de alívio por uns tempos.

De outra feita, finda uma exposição de peças de artesanato guineense realizada na Argélia, como parte de um intercâmbio cultural entre os dois países, peças essas recolhidas por Augusto Trigo – o qual acompanhou esse certame – entre as mais represen­tativas feitas por artesãos autóctones, algumas delas exemplares únicos, o artista assistiu estupefacto ao insólito propósito do Embaixador da Guiné nesse país de querer levar para sua casa o material exposto, como se de coisa natural e de somenos importân­cia se tratasse. Se o comportamento do ser humano reflecte o nível cultural e social do homem, como classificar o deste embaixador?

Augusto Trigo opôs-se a que tal acontecesse e os intentos do embaixador, para mau grado dele, foram go­rados. Talvez esta seja uma das razões de tanto patrimó­nio cultural africano dela­pidado.

No Se­negal – país fronteiriço ao norte da Gui­né – chegada a noite, após a inauguração de uma Feira Exposição Comercial aí realizada, e na qual Augusto Trigo participava, o Embaixador guineense nesse país levou o pintor a um hotel onde ficaria hospedado. Cansado das tarefas do dia, o artista tentou repousar. Porém, um desusado movimen­to, com entradas e saídas mascu­linas não o deixou pregar olho grande parte da noite. A. Trigo estranhou o desassossego, mas decidiu esperar que o vaivém acalmasse. Já o sono o abordava

quando uma insinuante presença feminina entrou no quarto e lhe perguntou se precisava dos seus "préstimos". Quais préstimos, inquiriu? Só então se fez luz na sua mente: não estava a pernoitar num hotel mas num "lar" de meninas, numa casa de prostitutas!

Surpreso e chocado, o artista mudou de "hotel" e o "enga­no" do Embaixador deu bronca grossa, não tanto pelo dano cau­sado a Augusto Trigo mas pelo ambiente "diplomático" onde o colocaram. »»

Ilustração de Au­gusto Trigo feita na Guiné em 1965, retratando um ra­paz "Pepel", toca­dor de "Ondam"

Ilustração à pena e aguarela de Augusto Trigo, feita na Guiné em 1965, retratando um costume local.

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O Louletano, 15 | Setembro | 2008

NA PISTA DE UM SONHO – AUGUSTO TRIGO – 11 
(a numeração está errada no original, deveria ser a parte 10)
Por José Batista

Embora o labor artístico desenvolvido por Augusto Trigo no seu regresso à Guiné, fruto de uma inata capacidade de­senvolvida no continente devido ao acidente que vitimou seu pai – como já anteriormente referimos – passasse despercebido ao comum das pessoas dessa então província ultramarina, já outros o tinham notado antes mesmo da independência desse território em 9 de Setembro de 1974.

Transitando do Serviço Geográfico e Cadastral para o do Turismo, após esse evento, foi numa casual deslocação ao Grande Hotel, onde por vezes ia tomar a bica, que o Comissário do Departamento de Comércio e Turismo, Armando Ramos, que na altura aí se encontrava, o abordou e convidou para o cargo de Director de Artesanato, reconhecendo no artista reais capacidades para o desempenho dessas específicas funções.

De mero funcionário de um departamento, A. Trigo via-se agora a dirigir um serviço numa área que dominava, com remuneração compatível com o cargo, carro e motorista às ordens, como convém a todo o director que se preza, e foi já no desempenho deste cargo que aconteceramos casos narrados na passada semana, mormente nas duas exposições fora do território da Guiné.

Excepcionalmente dotado na área das artes manuais, desde logo o artista lançou mãos à pesquisa do riquíssimo artesanato desse país africano, não ficando inactivo a polir a cadeira de director que por mérito próprio agora ocupava. Encetou então uma busca pelo vasto e díspar rincão guineense no afã de con­tactar directamente os artesãos locais e reunir um conjunto de peças que retratasse, o mais completa e amplamente possível, a variada gama das peças produzidas na Guiné.

Atento observador das várias etnias que compõem o todo guineense, a viagem de prospecção proporcionou ao respon­sável pelo artesanato um amplo contacto com as muitas e diversificadas formas artísticas expressas pelo povo da Guiné, de acordo com a etnia a que pertencem, bem como os materiais utilizados na feitura das suas obras, pois cada um desses grupos étnicos caracteriza-se por um determinado tipo de produto artesanal que o diferencia dos demais. Ao deixar este país em 1979, o espólio em peças recolhidas, do mais genuíno aí produzido, dava para montar um museu de que essa nação se poderia com justeza orgu­lhar, porém cobiças várias já se faziam sentir em relação a objectos valiosos e únicos que o esforço probo, aliado ao conhecimento adquirido de A. Trigo, lograram jun­tar. »»

"Ilustração do meu livro, único exemplar e original, com o título " sábado das 8h às 12h", dedicado aos colegas da Repartição dos Serviços de Agrimensura da Guiné. Livro nunca editado e da minha colecção pessoal." A. Trigo

Vinhetas da série humorística iné­dita e inacabada, "A Vaca Sagrada de Mulei Molusco", ilustrada por Augusto Trigo na Guiné, em 1965.

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